Jornadas de Junho de 2013 não tem nada de progressista

Jornadas de Junho de 2013 não tem nada de progressista – Parece que junho de 2013 continua alimentando ilusões, ou melhor, há quem ainda queira se iludir com as manifestações de 2013.

Um exemplo é o texto “Memória das Jornadas de Junho: ainda sinto o cheiro do vinagre e do gás lacrimogêneo”, de Demian Bezerra Melo, atualmente professor adjunto de História Contemporânea do curso de Políticas Públicas da Universidade Federal Fluminense (UFF), no Blog Junho, em 21/04/2016.

Jornadas de Junho de 2013 não tem nada de progressista
Jornadas de Junho de 2013 não tem nada de progressista

Demian Melo diz que junho de 2013 foi um “levante enigmático” que “fez explodir na cena pública uma enorme insatisfação social que estava adormecida”, sendo a palavra de ordem “Não vai ter Copa”, uma palavra de ordem “genuína”.

Sendo, ainda, para Demian Melo, que “O contraste entre os gastos faraônicos na construção de estádios de futebol em várias capitais e os péssimos serviços públicos no país foi incontestavelmente um elemento explicativo da consciência crítica que foi às ruas naquele ano”.

Nada mais equivocado e falso.

Jornadas de Junho de 2013 não tem nada de progressista

Em meu livro “Política sem ilusão: das alianças nos governos Lula e Dilma à crise política e impeachment” (Multifoco, 2016), há um capítulo sobre tais manifestações, em que demonstro que as críticas à Copa vinham da direita, especificamente, da direita partidária e que as ruas apenas estavam ecoando as críticas que a direita fazia.

Também argumento e demonstro que, apesar de toda contradição na gestão, e de toda as amarras e limitações, o governo (Lula e Dilma) estavam investindo muito mais do que investiam governos tucanos (FHC) em áreas prioritárias e estratégicas.

E mesmo assim, havia, como ainda há, “péssimos serviços públicos no país”, no entanto, não foi a realização da Copa que aumentou os péssimos serviços públicos, e também não quer dizer que a não realização da Copa iria resolver tais problemas.

André Singer, anteriormente, já havia publicado um texto na Folha de São Paulo, citando uma pesquisa nacional informando que a esquerda teria cerca de 20% da sociedade alinhada com tal pensamento/ideologia (fonte deste texto de Singer e da pesquisa, em minha obra supra citada).

Tendo este conhecimento, do tamanho da esquerda na sociedade, que se alinha ao tamanho da esquerda no Congresso Nacional, é claro que entre uma suposta disputa de rumos das manifestações, dentro de um contexto em que a direita já estava em ofensiva contra a esquerda, é claro que a direita iria fomentar tais manifestações e direcioná-las contra a esquerda, contra o PT e contra o governo (Lula e Dilma).

Jornadas de Junho de 2013 não tem nada de progressista

Demian Melo, por sua vez, assim retrata os ataques sofridos pela esquerda nas manifestações:

Daí que as bandeiras vermelhas, mesmo aquelas que não ostentavam o símbolo do Partido dos Trabalhadores, passaram a ser duramente reprimidas pelos próprios novos manifestantes que, naquela semana, resolveram aderir aos protestos. É preciso lembrar que o PT, então o partido do governo, cuja militância não teve qualquer relevância na organização dos protestos até aquele momento, foi de fato o principal alvo dos novos manifestantes, que encararam suas bandeiras naqueles protestos como uma espécie de “oportunismo”. Mas a verdade é que sobrou pra todo mundo da esquerda naquela semana, tendo sido o dia 20 de junho o momento em que a violência contra os chamados “vermelhos” atingiu o patamar mais expressivo.

Não era de surpreender que tais fatos iriam ocorrer, pois desde 2003 a esquerda e o PT estavam sendo atacados.

A direita estava ávida para ter uma oportunidade de agregar indivíduos nas ruas, criando uma base social para atacar o governo Dilma e o legado de Lula.

Ir para as ruas, naquele momento, naquele contexto de ofensiva da direita, era, assim como foi, uma ação em prol dos objetivos políticos da direita.

Parece que parte dos que se dizem de esquerda, não conseguem ou não querem enxergar tal fato.

Análise política, entendo eu, precisa descartar as ilusões e as intenções e centrar-se nos fatos, e nas consequências políticas concretas.

É o que falta, por exemplo, à Demian Melo e cia.

Demian Melo critica o PT e o governo Lula e Dilma por terem governado com a direita, por terem feito parcerias e políticas com empreiteiras, setor bancário e setores da indústria.

Mas Demian Melo não enxerga que esse é o atual sistema político partidário eleitoral e sem tais parcerias políticas não se chega ao governo e se chegar ao governo, não se governa.

E foi com tais políticas que houve a implantação de importantes, mas tímidas políticas públicas, que hoje, estão sendo destruídas pelo governo golpista de Michel Temer.

Será que com tantos ataques aos direitos e conquistas sociais e trabalhistas, por parte dos golpistas, está bom para Demian Melo?

Na prática, era o que realmente queriam tais posicionamentos políticos destes esquerdistas. Tanto que Demian Melo escreveu:

Somado aos episódios de violência, a narrativa dos partidários do governo do PT buscou caracterizar todo aquele processo como uma espécie de “conspiração da direita”. Não seria a primeira vez que as organizações e ativistas que se localizaram politicamente na oposição de esquerda ao lulismo foram caracterizadas como “fazendo o jogo da direita” por parte dos adeptos mais ferrenhos da narrativa petista.

 

A citação acima já diz tudo: se realmente todo aquele processo não estava sendo conspirado pela direita, se os que se dizem de esquerda e petista estivessem conscientemente atentos, não estariam contribuindo com a direita, fazendo, na prática, o jogo da direita, em que só a imagem do PT e dos governos Lula e Dilma foram manchados.

O resultado desse processo todo foi uma vitória eleitoral muito apertada de Dilma (PT) contra Aécio Neves (PSDB) e no Congresso Nacional os mais reacionários congressistas em imensa maioria.

Demian Melo, ao final de seu texto, se equivoca politicamente ao tentar igualar as manifestações de 2013, de cunho conservadora, com as ocupações das escolas públicas, de cunho progressista, pois tinham como objetivo resistir às mudanças que o governo golpista de Michel Temer propunha fazer no Ensino Médio.

No capítulo (do livro “Política sem ilusão“) sobre as manifestações eu trato sobre a questão do caráter das manifestações, da importância de identificar o caráter, a essência de cada manifestação, de cada movimento político, para, na prática, não se alinhar com inimigos políticos.

Pelo que entendi do texto do Demian, e suas críticas ao PT e aos governos Lula e Dilma, o inimigo é o PT e o lulismo. Será mesmo?

...

E se for, com toda essa pureza de certa esquerda, quando é que eles vão chegar ao governo e colocar suas teorias (sem alianças com setores da direita e do empresariado) em prática?

Claudio Ritser

Claudio Ritser, analista político e autor do livro “Política sem ilusão: das alianças nos governos Lula e Dilma à crise política e impeachment”.

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Vinícius
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Parabéns!! Sabe aquele bonequinho que dá a nota para filmes em jornais? Então, aplaudindo de pé!! Concordo plenamente, e sempre faço questão (e vou morrer falando isso) de criticar 2013 vendo como aconteceu o que aconteceu em 2015, 2016 e agora acontecendo em 2017.,

osmargp
Visitante

Claudio, concordo plenamente contigo. Denominar a tomada das ruas pelo pensamento e ação da direita de “jornadas” é parte do jogo de sombras.

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