Com quatro indicações ao Oscar, o filme Sonhos de Trem pode entrar no radar de muitos fãs de filmes por dois motivos. O primeiro é sua disponibilidade: o longa-metragem já pode ser assistido na Netflix — o que facilita (e muito) que mais pessoas descubram essa joia escondida na temporada de premiações.
O segundo, é ainda melhor: a produção conta com um dedo brasileiro por trás das câmeras. O diretor de fotografia da obra é Adolpho Veloso, que já recebeu muitos prêmios na temporada e concorre ao grande prêmio da Academia pelo seu trabalho no longa-metragem. Depois de vencer no Critics Choice Awards e acumular indicações importantes, o brasileiro desponta como favorito em Fotografia — e, honestamente, é impossível sair ileso da experiência visual que ele constrói aqui.
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Durante minha maratona pela vasta lista de filmes indicados ao Oscar, confesso que Sonhos de Trem não era uma grande prioridade. Afinal, o filme está “voando baixo”, sem grandes campanhas de marketing ou declarações polêmicas que podem fazer a produção virar manchete. Mesmo com cinco indicações — incluindo Melhor Filme, Roteiro Adaptado e Canção Original — a produção parece seguir um caminho silencioso, quase tímido, assim como o próprio protagonista.
Talvez por essa falta de expectativas, a paulada que tomei foi mais forte: Sonhos de Trem é um dos melhores filmes que vi de 2025 – e talvez um dos melhores que já tive o prazer de assistir na vida. É o tipo de obra que não grita para ser notada, mas que, quando termina, deixa um silêncio pesado na sala e uma sensação difícil de explicar.
Confira, a seguir, a crítica de Sonhos de Trem sem spoilers.
A jornada de um trabalhador comum
O filme te convida para ser um passageiro na vida de Robert Grainier, interpretado de maneira esplêndida por Joel Edgerton. Adaptando o aclamado livro de Denis Johnson, publicado como obra independente em 2011, o longa traz uma narração que acompanha a vida do trabalhador desde seus primeiros momentos até a vida adulta, quase como se estivéssemos folheando as páginas da memória de alguém.
Acompanhando o mundo pelos olhos de Robert, um simples lenhador que ajuda na expansão das ferrovias no noroeste dos Estados Unidos, vemos a evolução do país após a Guerra Civil e no início do século 20. Enquanto isso, o personagem também passa por felicidades, traumas e lida com a evolução do mundo ao seu redor.
Apesar do pano de fundo estadunidense, tudo isso pode ser resumido como a história um homem comum, lidando com a passagem do tempo. Robert não é um herói de guerra, não inventa nada revolucionário, não muda os rumos da história — mas vive uma vida profunda, rica e absolutamente humana.
Sonhos de Trem é a história de um homem comum lidando com a passagem do tempo.
Sob essa premissa, é praticamente impossível não se identificar com a narrativa, o que pode fazer com que o filme renda um grande impacto emocional. Sonhos de Trem serve muito bem como uma representação da classe trabalhadora: mesmo que o protagonista seja um lenhador, é possível ver na história de Robert um cortador de cana, um fazendeiro, um operário.
É um retrato universal de quem constrói o mundo com as próprias mãos e, muitas vezes, não tem seu nome lembrado pela história. E se você não é assim, com certeza alguém que se encaixa nessa descrição.
O filme se passa no século 20, mas os anseios enfrentados pelo protagonista conversam muito bem com o mundo atual. Afinal, o tempo parece passar cada vez mais rápido na nossa sociedade conectada, afetada por revoluções tecnológicas quase que diariamente. A sensação de estar tentando acompanhar um mundo que muda constantemente — às vezes deixando você para trás — é algo que ecoa de maneira dolorosamente contemporânea.
Um retrato de luto e busca por propósito
A vida de Robert também é marcada por momentos que fazem parte da jornada humana, como o luto e a busca por um propósito de vida. Entre momentos com a sua esposa Gladys (Felicity Jones), a construção de uma família, a perda de entes queridos e fantasmas do passado, o filme entrega cenas emocionantes de maneira contida, sem recorrer a exageros ou trilhas manipuladoras.
Aqui, o filme brilha não só pela identificação, mas pela empatia. A narrativa é muito bem construída, fazendo com que você se interesse pelo dia a dia simples de Robert como lenhador, trabalhador na ferrovia, marido e pai. Mesmo nos momentos mais banais, há uma delicadeza que transforma pequenos gestos em algo monumental.
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É complicado falar da grandeza da história sem entregar spoilers, mas é ainda mais difícil deixar o filme sem pensar na própria vida e nos entes queridos. O longa-metragem retrata muito bem a passagem do tempo e o peso da vida, tanto em seus momentos de felicidade quanto nos pontos mais baixos que o ser humano pode enfrentar.
Com isso, o filme traz uma mensagem importante sobre conexão com o mundo e com outras pessoas, trazendo até mesmo uma lição sobre o impacto da interferência do homem na natureza. Ao mesmo tempo em que mostra a construção das ferrovias e o avanço industrial, a obra também lamenta a degradação de uma forma de vida que está desaparecendo, como se cada árvore derrubada carregasse junto um pedaço da própria identidade de Robert.
O poder da fotografia
Enquanto a história de Sonhos de Trem é reconhecida globalmente desde o lançamento como livro em 2011, o filme se destaca por adaptar tudo com um visual deslumbrante. E aqui, a direção de fotografia de Adolpho Veloso merece destaque — e uma estatueta no Oscar.
Já nos primeiros takes do longa-metragem, é possível ver como a obra entrega uma experiência visual diferenciada e que conversa com a sua história. Um dos pontos que chama a atenção é o uso da proporção 3:2, que foi escolhida para remeter ao período em que o filme se passa, combinando com fotos antigas que serviram de inspiração para a cinematografia.
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Outro grande destaque técnico do filme é o uso de luz natural, tanto de dia quanto de noite, o que garante um aspecto bem realista para o longa-metragem. Além disso, o uso da natureza como um personagem, seja pelas árvores imponentes do Pacífico Noroeste ou pelos animais que cruzam o caminho do protagonista, é primoroso. A floresta não é apenas cenário — ela respira, observa e, em muitos momentos, parece julgar.
Os enquadramentos escolhidos por Veloso também são absoluto cinema. Enquanto algumas cenas parecem obras de arte ganhando vida, outras colocam o espectador escondido em algum canto, espiando a vida de Robert e sua família. Há planos abertos que reforçam a pequenez do homem diante da natureza e closes que capturam cada ruga, cada silêncio, cada lágrima contida.
Com tantos prêmios na temporada atual, Adolpho Veloso já é um dos favoritos ao Oscar, e depois de assistir Sonhos de Trem, finalmente entendi o motivo para isso. O longa-metragem é a prova de que o Brasil brilha não só na frente das câmeras, mas também por trás delas.
Vale a pena assistir?
Assim como a vida do seu protagonista, Sonhos de Trem não reinventa a roda ou tenta ser algo grandioso, e talvez por isso está sendo tão esnobado na corrida pelo Oscar. No entanto, a jornada silenciosa do filme pela temporada de premiações não reduz a sua grandiosidade. Pelo contrário: o longa-metragem reforça a ideia de que nem tudo que é extraordinário precisa fazer barulho.
Sonhos de Trem traz uma história tocante, cheia de altos e baixos, contada de um jeito belo e atencioso. A jornada de Robert é tão comum quanto o dia a dia de muitos brasileiros, mas mostra que até mesmo a vida mais simples tem o seu valor e pode ter um grande impacto — ainda que esse impacto seja sentido apenas por quem esteve por perto.
Enquanto o Oscar é conhecido por jargões que vão desde “excelência cinematográfica” até “concurso de popularidade”, quem curte filmes pelo prazer da arte normalmente já se contenta com uma jornada marcante e que entretém. Às vezes, tudo que a gente precisa é de um bom longa-metragem que aquece o coração e toca a alma. Sonhos de Trem consegue fazer isso de maneira majestosa, e com um toque brasileiro que enche o peito de orgulho — e os olhos de lágrimas.
