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Turismo cresce na Rocinha turbinado por drones, app, visita a lajes e mototour

por SampaNews 22 de fevereiro de 2026
22 de fevereiro de 2026
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No fim de dezembro, por cerca de sete horas, a estrela internacional Rosalía se esbaldou na Rocinha, na Zona Sul do Rio. Como a espanhola estava sendo reconhecida e ficou inviável circular com ela pela favela, o guia Filipe Diniz, de 21 anos, que acompanhava o grupo da cantora e compositora, decidiu adaptar o roteiro, incluindo no passeio a laje de sua família, na Estrada da Gávea, de frente para a localidade da Cachopa.

A fama do espaço veio a reboque. Bastou a visita da diva pop, para o RDlounge se popularizar como Laje da Rosalía e virar mais uma atração na favela. Afinal, lá a artista participou de uma festa improvisada, onde deu uma palinha como DJ, ao lado do DJ G Vibe, arriscou passos de funk e ainda comeu churrasco.

Leia também: Empreender nas favelas: capacitação gratuita forma criadores de conteúdo digital

Mas a maior favela do Brasil, segundo o último Censo do IBGE, não caiu só no gosto de Rosalía. A comunidade entrou na rota do turismo, turbinado por novidades. Entre elas, o serviço de vídeo com drones, visitas a lajes para fotos e comes e bebes, o aplicativo Na Favela Turismo e o mototour. E tem até uma cerveja artesanal própria, a Sobe Aê!, uma pilsen produzida em Nova Friburgo e vendida desde dezembro na Rocinha e no vizinho Morro do Vidigal.

O Na Favela Turismo cadastrou, em janeiro último, 40 mil visitantes, cinco vezes mais do que os 7.500 inscritos no mesmo mês de 2025, quando o aplicativo foi lançado. Idealizador do app, Renan Monteiro conta que os visitantes fazem check-in e são acompanhados on-line durante passeios a pé, de moto ou por trilhas. Pelo caminho, há pontos de apoio, para permitir ir ao banheiro, abrigar-se de um eventual temporal ou até se proteger de um tiroteio inesperado.

“Desde o lançamento do aplicativo, passamos a cuidar muito da questão da segurança. Os roteiros são validados junto à associação de moradores e à comunidade local. Procuramos preservar a comunidade, mesmo fazendo um turismo imersivo, para que todos os visitantes conheçam a favela por inteiro e não superficialmente”, explica Renan. “Temos três mil guias cadastrados no app. Destes, há 280 guias locais fazendo passeios a pé, e 482, de moto.”

O Observatório do Turismo Carioca — sistema que utiliza geolocalização via operadoras de celular —, da prefeitura, confirma o crescimento do movimento de visitantes na Rocinha. Em janeiro deste ano, o Observatório contabilizou 41.852 turistas na favela, 37% a mais do que o mesmo mês de 2025. Se comparado com janeiro de 2024, o aumento é de 97%.

A comunidade está em 16º lugar entre os lugares mais visitados no Rio. O fluxo de turistas nacionais e internacionais cresceu 34%, de 2024 para 2025, alcançando 292 mil, no ano passado. Porém, o maior aumento foi o de estrangeiros, de 93%, chegando a quase 88 mil visitantes internacionais em 2025.

Leia também: Do check-up gratuito à proteção financeira: como os seguros avançam nas favelas

Crachás e cursos

Em geral, os roteiros a pé começam no lado da Gávea. Alguns veículos param no início da favela com os visitantes, que seguem de moto até um dos restaurantes no alto da comunidade, como o Mirante da Rocinha e o Novo Visual, de onde partem os tours. Pelo caminho, há pontos de apoio, para ir ao banheiro, abrigar-se de um temporal ou até, eventualmente, se proteger de um tiroteio inesperado.

Virou rotina esbarrar com grupos de turistas — alguns com camisas do Brasil — na garupa de motos, caminhando pela Estrada da Gávea e por becos, subindo o Laboriaux, entrando em lojas de lembranças, visitando a galeria Wark (artista plástico e grafiteiro, nascido e morador da Rocinha) e assistindo apresentações de capoeira e passinho. Junto a eles, monitores do Na Favela Turismo e guias são identificados por crachás e camisetas. Estimulados pela ascensão do turismo, guias locais passaram a fazer cursos para se aperfeiçoarem na atividade e em idiomas.

“Com os guiamentos, a minha fluência melhorou. Sou formado em inglês, e tive espanhol na escola. Conversei com a Rosalía nos dois idiomas. Ela é muito gentil, gente boa, e gosta do MC Cabelinho”, conta Filipe Diniz. “Ela e os seus amigos perguntaram se turismo na favela era algo ‘errado’, pois ouviram pessoas falando que não deveriam fazer. Daí, expliquei e dei a minha opinião. Eles se surpreenderam com a tranquilidade da favela, mas desde o início fiz questão de deixar isso bem claro.”

O encontro de Filipe com a celebridade só foi possível, porque o serviço foi passado por um amigo da agência contratada para fazer o passeio com o grupo da cantora.

“O meu amigo estava ocupado no dia, mas na metade do passeio chamei ele”, brinca o guia. “O passeio começou 16h e ficamos até 23h. Rosalía subiu de moto. Depois da laje, ela quis descer a pé, porque estava chovendo. Viveu uma experiência completa: chuva, queda de luz, festa, churrasco. Teve de tudo.”

Passarela de turistas 

Tamanha a efervescência de visitantes, a Rua 1, antigo point de traficantes, transformou-se numa congestionada passarela de turistas, que buscam uma das seis lajes de onde se tem uma vista privilegiada da favela. A queridinha é Laje Porta do Céu, onde se forma fila para sentar em uma cadeira e, com o auxílio de um drone, obter a lembrança perfeita do passeio.

“Fizemos um voo de parapente antes (da Pedra Bonita até a Praia de São Conrado). Adorei. Mas também achei muito interessante a vista da laje e o vídeo; inesquecível”, diz a paraguaia Silvia Ferreira, de 25 anos, que visitava o Rio com o namorado, o comerciante Mario Benitez, de 34.

Sozinha no Rio pela primeira vez, a polonesa Aleksandra Kowalczyk, de 38 anos, se surpreendeu com a segurança do passeio:

“Antes de reservar o tour, fiquei com um certo receio. Falaram que é perigoso. Mas foi tranquilo.”

A paranaense Marielle Bottolo, de 36 anos, também estava insegura. Porém, a confiança veio assim que reservou o tour, através de uma rede social:

“As fotos já me chamaram a atenção.” 

Tours são oferecidos por sites, como Viator e GetYourGuide, e por páginas de agências e guias na internet. Os preços vão de R$ 107 a R$ 450, dependendo do número de horas e se o passeio é em grupo ou privativo. Também há possibilidade de conjugar com atividades fora da favela. Os valores incluem taxas como a de visita a uma laje e a do aplicativo. A filmagem de drone é à parte e custa até R$ 130.

O Jeep Tour, pioneiro no turismo na Rocinha — começou em 1992 — permanece fazendo passeios. O representante Tomás Monnerat explica que a empresa busca turistas nos hotéis, levados até o restaurante Novo Visual, de onde o grupo segue a pé. O tour de três horas custa R$ 220.

‘Contar nossa história’

O turismo na Rocinha também é medido pela quantidade de estabelecimentos ligados à alimentação que foram ou estão sendo preparados para atender aos visitantes. Segundo o presidente da União Pró Melhoramentos da Rocinha, João Bosco de Castro, dos cerca de 400 restaurantes, bares e lanchonetes da favela, entre 60 e 80 se adaptaram ou estão em processo de reforma para o atender à nova clientela.

Na mesma vibe, o mercado de aluguel por temporada ganha força, com anúncios feitos em plataformas, como Booking, ou por acordos diretos entre proprietários e eventuais clientes. João Bosco contabiliza entre cem e 200 imóveis alugados por diárias que variam entre R$ 120 e R$ 300, dependendo da localização e da estrutura. Contudo, em determinadas épocas, como durante o carnaval e o réveillon, os valores aumentam.

Mãe de cinco e avó de seis, Cláudia de Oliveira, de 54 anos, largou a faxina e entrou de cabeça no negócio do turismo. Começou como guia, atividade que divide, agora, com a de empresária. Ela reformou uma casa de dois quartos no Laboriaux, que passou a alugar por temporada. Cobra entre R$ 350 e R$ 400 a diária, e diz que o imóvel pode alojar até cinco hóspedes com conforto. 

Cláudia tem um perfil profissional na internet, para divulgar seu trabalho como guia. E defende que a atividade seja exercida por crias da favela:

“Nós é que temos que contar a nossa história, ser protagonistas da nossa história. Precisamos criar maneiras de o dinheiro girar dentro da favela. Faço walking tour. Também já levei turista para almoçar, cortar cabelo, tomar uma cerveja, comer uma feijoada e para curtir baile funk à noite. Favela não tem só a violência que dizem. A Rocinha está de braços abertos para receber os turistas.”

Entre as metas de Cláudia para este ano, estão avançar no aprendizado do inglês e do espanhol e começar a estudar italiano:

“Atendo muitos italianos. A sorte é que eu falo inglês. Mas eu quero também falar o italiano, porque quanto mais idiomas melhor.”

‘Muitos sonhos a realizar’

Já a pernambucana Jucilene Pereira Diniz, de 50 anos, 40 deles vividos na Rocinha, é uma das quatro mulheres cadastradas no “Na Favela Turismo” para fazer mototour. Desde 2005 no mototáxi, partiu para o novo desafio há cerca de quatro meses.

“Saí novinha de Pernambuco para a Rocinha. Virei empregada doméstica. Não sabia ler nem escrever. Hoje, me vejo uma grande mulher. Tenho muitos sonhos a realizar, sonhos que não pude conquistar na adolescência e na juventude, porque precisei ajudar minha mãe e meus irmãos”, afirma Jucilene, conhecida na comunidade como Magrinha, que está matriculada no EJA (Educação de Jovens e Adultos) e faz curso de inglês.

De acordo com o observatório da prefeitura, em 2025, entre os estrangeiros, argentinos (20,5%) lideraram as visitas, seguidos de americanos (12,3%), franceses (11,4%) e chilenos (8,7%). No turismo nacional no ano passado, São Paulo respondeu por 32,1% do total, seguido por Minas (14,4%) e Ceará (9,8%) e Bahia (4,6%).

Diante da nova realidade da Rocinha, João Bosco espera ações concretas do poder público. Tais como o reconhecimento institucional do turismo comunitário, com políticas públicas específicas; a capacitação profissional para moradores; a melhoria da infraestrutura urbana básica; o fomento à economia local, com linhas de crédito para pequenos empreendedores; e a regularização e o apoio aos projetos existentes.

“O turismo na Rocinha cresce porque é feito por moradores, para moradores, gerando renda, fortalecendo a autoestima local e apresentando a favela como território de cultura, inovação e potência econômica, muito além dos estigmas históricos”, ressalta o líder comunitário.

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