Em meio ao processo de nova licitação do transporte público coletivo, Campinas registra cerca de 20 descumprimentos de horários de ônibus por dia, segundo dados da Emdec (Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas). Apenas em janeiro de 2026, foram contabilizadas 1.063 reclamações, a maioria relacionada a atrasos e problemas de itinerário – veja abaixo.
O cenário ocorre enquanto a licitação que vai definir as empresas responsáveis pelo transporte pelos próximos 15 anos entra em nova fase nesta quarta-feira (25), com a entrega dos envelopes e a abertura da sessão pública inicial em São Paulo. O processo está estimado em R$ 11 bilhões e é considerado um dos mais importantes da mobilidade urbana da cidade.
Pelo menos cinco empresas ou consórcios apresentaram documentos para participar da disputa.
Reclamações sobre ônibus aumentam em 2026
De acordo com a Emdec, as 1.063 reclamações registradas em janeiro de 2026 representam aumento de 35,4% em relação ao mesmo período de 2025 (785 queixas) e de 56,5% na comparação com janeiro de 2024 (679 registros).
As principais reclamações em janeiro de 2026 foram:
- Descumprimento de horários – 586
- Desatendimento a embarque / desembarque – 168
- Descumprimento de itinerário – 102
- Conduta do motorista – 74
- Atendimento ao usuário – 55
- Estado de conservação do veículo – 45
- Manutenção ponto de parada – 20
- Carregamento de passageiros (lotação) – 6
- Denúncia de assédio – 3
- Problemas com integração / validador – 3
- Cobrança indevida – 1
O balanço não inclui demandas classificadas como “solicitações”, como pedidos de implantação de pontos, ampliação de frota ou alteração de horários.
No acumulado de 2025, foram 11.517 reclamações, contra 7.702 em 2024 — um aumento de quase 50% de um ano para o outro (veja aqui as principais reclamações de ambos os anos).
Drama no San Martin
Na manhã desta quinta-feira (25), a equipe da EPTV acompanhou a rotina de moradores do bairro San Martin, que relataram problemas frequentes nas linhas 316 (San Martin – Corredor Central) e 319 (San Martin – Terminal Barão Geraldo).
Segundo os usuários, há superlotação constante, atrasos principalmente nos horários de pico e ônibus que passam sem parar.
A reportagem aguardou em um ponto da linha 316 por cerca de uma hora. Antes disso, um veículo passou lotado e não realizou o embarque.
“Desde janeiro estamos com dificuldades com a linha de ônibus 316 – San Martin, sentido Centro e sentido bairro. Demora para passar e, quando passa, está lotado, não parando nos pontos. E quando para, não conseguimos entrar”,
relata a usuária Thayrine Castro Rodrigues.
Na linha 319, a equipe flagrou um ônibus lotado, com uma gestante em pé que não conseguia sequer passar da catraca devido à falta de espaço.
No Centro, usuários relatam problemas nas linhas 330 e 333. Nesta quarta-feira (25), houve formação de grande fila na Avenida Moraes Salles. Veja o vídeo abaixo:
Nas redes sociais do acidade on Campinas, seguidores também apontaram problemas em outras linhas.
A seguidora Helen Cristina Silva Cardoso escreveu que “nas linhas 390, 396, 391 e 392, além de superlotadas, estão caindo aos pedaços”. Já Ricardo Luiz afirmou que “391, 392, 396 e 390, as que vão para Sousas, são um desastre”. Sonia Maria Cremonezi também relatou problemas na linha 294: “Ônibus pequeno, não comporta tanta gente, sem ar-condicionado. A gente aguenta a superlotação e o calor”.
O que diz a Emdec
A Emdec informou que o monitoramento remoto identificou falta de veículos no início da operação da linha 316 ao longo desta semana, o que impactou toda a operação e gerou sobrecarga de passageiros. Sobre a linha 319, a Emdec informou que se trata da mesma situação, com autuações aplicadas por falta de veículos previstos.
“Embora o motorista possa enfrentar superlotação, o embarque deve ser atendido”,
informou.
Segundo o órgão, agentes de fiscalização acompanham a saída dos ônibus nas garagens, e há remanejamento de veículos de cooperativas para atender as linhas mais críticas.
A empresa reconhece que as ocorrências estão relacionadas à idade média da frota atual, admite o envelhecimento de parte dos veículos e aponta a necessidade de renovação, vinculada à nova licitação.
Em 2025, a Emdec aplicou 39,4 mil autuações aos operadores do sistema convencional e alternativo, sendo 32,8 mil por viagens não cumpridas e 3,7 mil por atrasos. Atualmente, cerca de 900 veículos operam diariamente na cidade, realizando mais de 15 mil viagens por dia.
Ainda segundo a empresa, em 2025 foram incorporados 110 novos ônibus à frota, após acordo firmado com as empresas.
O que diz o SetCamp
O SetCamp (Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros da Região Metropolitana de Campinas) informou que os atrasos aumentaram com a volta às aulas, em razão do maior número de carros nas ruas.
Sobre relatos de motoristas que não param nos pontos mesmo após sinalização, o sindicato afirmou que fará contato com as concessionárias para reforçar o procedimento correto.
Entenda a nova licitação
A licitação do transporte público de Campinas entrou, nesta quarta-feira, em nova fase com a entrega dos envelopes e abertura da sessão pública inicial. A disputa vai definir as empresas responsáveis pelo serviço pelos próximos 15 anos.
A entrega dos envelopes estava inicialmente prevista para 10 de fevereiro, mas foi adiada em 15 dias após o TCE apontar inconsistências técnicas no edital.
No dia 5 de março, às 14h, ocorre a sessão pública para abertura dos envelopes com as propostas de valores.
O processo é considerado um dos mais longos e complexos da mobilidade urbana da cidade, após quase uma década de impasses.
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Investimentos
O edital de licitação prevê a concessão do sistema de transporte coletivo convencional por um período de 15 anos, prorrogáveis por mais cinco anos. O valor do contrato é de R$ 11 bilhões.
São dois eixos principais estruturantes do transporte:
- Lote Norte: regiões Norte, Oeste e Noroeste
- Lote Sul: regiões Leste, Sul e Sudoeste
Para construção do edital, a prefeitura analisou 1,1 mil contribuições apresentadas pela população na consulta pública, que durou de 2 de abril a 2 de julho. As respostas às contribuições podem ser acessadas no site da Emdec.
A administração municipal ressalta que a licitação “adota princípios de equilíbrio econômico-financeiro e consolida a separação entre tarifa pública (paga pelo usuário) e tarifa de remuneração (paga ao operador). O modelo permite políticas públicas como subsídios e eventuais gratuidades, sempre condicionadas à LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal) e ao planejamento orçamentário”.
Os investimentos em renovação da frota de ônibus serão da ordem de quase R$ 900 milhões nos cinco anos iniciais de contrato; e mais R$ 800 milhões ao longo dos dez anos restantes, totalizando R$ 1,7 bilhão em 15 anos. Também haverá investimentos em tecnologia embarcada e nos terminais e estações, totalizando R$ 1,9 bilhão em investimentos.
Atraso de uma década
Inicialmente prevista para março de 2016, a nova licitação é aguardada porque o TCE avaliou como irregular a concorrência de 2005. Segundo o tribunal, as empresas não poderiam ter passado pelo sistema de avaliações técnicas dentro da licitação de preços.
Em agosto de 2019, a prefeitura lançou a primeira versão do edital, mas o documento foi suspenso pelo TCE dois meses depois e acabou barrado pela Justiça em novembro daquele ano. A licitação de 2005 venceu em 2020 e a definição do novo contrato virou uma “novela”.
Com a anulação, a administração municipal recomeçou o processo para consolidar um novo edital, que foi publicado em dezembro de 2022 – já na gestão Dário Saadi (Republicanos).
Em março de 2023, o processo chegou a ser interrompido pelo TCE após contestação pelo Setcamp (Sindicato das Empresas de Transporte Metropolitano e Urbano de Passageiros da Região Metropolitana de Campinas). Em maio de 2023, o TCE-SP determinou a reformulação do edital com correções de 14 itens para o processo ser retomado.
A reformulação foi publicada no dia 14 de julho. Os estudos para adequações foram realizados pela Emdec e secretarias de Transporte, Administração e Justiça, com apoio da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas).
Com as correções no edital, a licitação ocorreu em 20 de setembro de 2023, mas foi declarada deserta, porque nenhuma empresa apresentou oferta para a concessão. Com isso, a prefeitura recomeçou o processo licitatório do zero.
A administração municipal abriu em outubro de 2023, a segunda consulta pública para receber sugestões que pudessem contribuir com o processo. Foram 131 manifestações recebidas.
Em junho de 2024 foi nomeado, pela administração municipal, um Grupo de Trabalho Intersecretarial, para conduzir a nova licitação do transporte coletivo. Por fim, em dezembro do ano passado, foram realizadas as audiências públicas para apresentação, à população, da nova proposta de edital.
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