No começo dos anos 2010, surgiu no Brasil uma legião de entusiastas de um serviço específico e pouco usado, mas que nas palavras de quem se envolvia com o assunto parecia o melhor produto do mercado. Era a Telexfree, plataforma de marketing multinível e telefonia que, na verdade, se revelou um esquema de pirâmide.
Apesar de ter se popularizado em todo o país, o fenômeno na verdade durou pouco até que denúncias e investigações revelassem o verdadeiro mecanismo por trás da companhia. Ainda assim, foi tempo suficiente para que muita gente perdesse dinheiro e alguns poucos saíssem ganhando com tudo isso.
smart_display
Nossos vídeos em destaque
Mas você sabe o destino da Telexfree e por que ela sumiu de repente? E, voltando ainda mais no tempo, quais eram exatamente os problemas com esse tipo de empreendimento? A seguir, o TecMundo relembra ou explica em detalhes o que aconteceu.
O que foi a Telexfree?
Telexfree era uma companhia que se descrevia como marketing multinível. Ela prometia ganhos altos a quem fizesse parte do empreendimento e, além de vender os serviços oferecidos pela marca, recrutasse mais pessoas para participar do mesmo serviço.
A Telexfree começou a operação como uma empresa nos Estados Unidos e, no Brasil, atuava sob a representação da Ympactus Comercial. Ela foi fundada em 2010 pelo norte-americano James Merrill, que atuava como presidente, e o brasileiro Carlos Wanzeler, uma das figuras mais conhecidas em entrevistas e eventos.
Ela chegou ao Brasil em março de 2012 e, rapidamente, começou a se destacar pela promessa de ganhos altos a partir do cumprimento de determinadas metas. Outro diretor que se destacou nesse ponto foi Carlos Costa, que atuava na gerência da Ympactus e gerenciava o recrutamento dos chamados “divulgadores”.
O produto comercializado pela Telexfree era um pacote de serviços de telefonia por internet, mais conhecido pela sigla VoIP. Essa é uma ferramenta de chamada pouco popular e com vários concorrentes de peso no mercado corporativo e para consumidor, incluindo o Skype.
)
O interessado em entrar na Telexfree precisava comprar um “kit” que incluía contas do serviço VoIP para serem vendidas e um segundo tipo de trabalho: postar textos prontos de anúncio do serviço em sites de classificados.
A publicidade online incessante e os relatos de pessoas que estavam faturando alto contribuíam para a chamada de ainda mais pessoas. O problema? Os interessados que embarcaram na ideia depois de um certo tempo já não teriam chances de enriquecer como o prometido.
O Telexfree era golpe?
Autoridades do Brasil e dos EUA classificaram o Telexfree como um clássico exemplo de esquema de pirâmide, crime financeiro em que os primeiros participantes do empreendimento lucram por receberem bônus com base nas camadas de baixo dos colaboradores — que normalmente pagaram para estar lá e têm mais dificuldades para recuperar esse dinheiro.
Foi o Tribunal de Justiça do Acre que começou as investigações formalmente contra a Telexfree em 2013, seguida de órgãos de vários outros estados como o Espírito Santo, onde ficava a sede nacional da companhia.
As autoridades desconfiaram das promessas de retorno financeiro de até 250% para os “divulgadores”, além dos altos valores de receita da empresa: ela teria somado cerca de US$ 1 bilhão em renda até o fim das operações.
O valor para entrar na Telexfree era de US$ 50 (ou cerca de 100 reais na época), mas os pacotes de contas poderiam custar até R$ 2,8 mil. Não havia garantia de retorno desse dinheiro pelas baixas vendas do serviço VoIP e a pessoa precisava recorrer aos bônus e comissões dos kits que eram adquiridos pelas pessoas que seriam atraídas por ela para o esquema.
Na verdade, o serviço de telefonia era pouco usado e não dava lucro: a receita gerada pela empresa era toda pelo recrutamento de novos “divulgadores” e a cobrança de taxas de adesão, com as receitas de publicidade e VoIP pouco contribuindo para a saúde aparentemente boa da marca.
Afinal, o que aconteceu com o Telexfree e os fundadores?
O serviço da empresa foi suspenso em 2013 como resultado da ação aberta no Acre, encerrando o processo de cadastro e pagamentos de divulgadores.
Já em abril de 2014, a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC) também fez acusações formais contra a Telexfree e pediu o bloqueio de bens da empresa. A defesa da companhia rejeitou as acusações de pirâmide e seguia argumentando que a venda de contas VoIP não se qualificava como fraude.
)
Um mês depois, a empresa suspendeu todas as atividades oficialmente, já que dependia justamente de cada vez mais recrutamentos para seguir operando. Porém ela ainda teria que responder a uma série de denúncias que nasceram da Operação Orion, como foi batizada a ação conjunta de Ministério Público Federal, Polícia e Receita Federal.
- Wanzeler foi indiciado por fraude nos EUA e fugiu para o Brasil, mas foi preso em 2020. Ele teve a detenção cautelar revogada no ano seguinte e segue recorrendo das acusações, usando tornozeleira eletrônica e com restrições para sair de casa. A condenação é de 12 anos e 6 meses de prisão.
- Costa também está em liberdade depois de ser condenado ao mesmo tempo de prisão, além de ter uma segunda pena de sonegação convertida em multa e outras restrições.
- Já Merill foi condenado em 2017 nos EUA após se declarar culpado por fraude e conspiração, além de ter os bens confiscados. Ele já terminou de cumprir a pena e não voltou a aparecer publicamente.
- Além disso, pelo menos 1 milhão de pessoas foram afetadas, mas pagamentos da Telexfree para vítimas ainda não foram liberados em massa e podem ser baixos, já que não levarão em conta bônus e comissões.
A Telexfree declarou falência em 2019 e os ativos bloqueados da empresa chegam a R$ 1 bilhão só no Brasil, com uma quantia ainda maior parada nos EUA, mas esse dinheiro tem uma aprovação lenta e que depende de questões estaduais e judiciais
Além disso, os credores trabalhistas serão priorizados pela administração da massa falida em vez dos chamados credores quirografários, que eram os “divulgadores” da empresa.
Para piorar a situação, o boom da Telexfree entre o topo da pirâmide gerou várias outras empresas de “marketing multinível” na época, algumas quase tão populares quanto a original.
Você sabe que fim levou a Net, operadora que ajudou a popularizar a TV a cabo no Brasil? Relembre a trajetória da companhia nesta matéria!
