
A discussão sobre o fim da escala de trabalho 6×1 — modelo em que o trabalhador atua seis dias seguidos para descansar um — ganhou tração no Congresso e passou a mobilizar articulações políticas em Brasília. Com forte apelo popular e potencial impacto econômico, a proposta se transformou em mais um tema sensível do calendário legislativo em ano eleitoral.
O assunto entrou de vez na agenda após o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), sinalizar que pretende avançar com uma proposta de emenda à Constituição sobre o tema. O anúncio foi feito na abertura dos trabalhos legislativos deste ano, quando o deputado afirmou, em discurso considerado combativo, que levaria a proposta para discussão na Casa.
A iniciativa colocou o tema no centro do debate político e intensificou conversas nos bastidores do Congresso. A apuração foi trazida durante o Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, exibido nesta sexta-feira (6).
Leitura de recuo
Mesmo que Motta tenha começado o ano com a pauta muito bem definida, parlamentares apostam que a postura do presidente da Câmara será de recuo nos próximos dias.
Segundo deputados integrantes de movimentos contra a redução da jornada, a postura de Motta não teria sido bem recebida pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que teria dado “uma chamada” no presidente da Câmara.
Nos bastidores, interlocutores relatam que o discurso inicial mais enfático acabou sendo seguido por uma postura mais cautelosa da Câmara. Após a repercussão do anúncio, o debate público sobre o tema diminuiu de intensidade.
Pouco tempo depois, Motta teria deletado de suas redes sociais o recorte do discurso feito na Câmara defendendo a tramitação da pauta. O movimento foi lido como um recuo sobre o tema pela oposição.
Disputa por protagonismo no Congresso
A movimentação da Câmara acabou abrindo uma disputa interna no Legislativo. Enquanto deputados passaram a discutir uma PEC para alterar a jornada de trabalho, o Senado já tem uma proposta semelhante em estágio mais avançado.
O projeto em tramitação na Casa é de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS) e já foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça. Com isso, parlamentares passaram a disputar quem conduzirá a pauta e quem poderá capitalizar politicamente uma eventual aprovação.
Resistência econômica
Apesar da popularidade da proposta entre trabalhadores, o tema enfrenta resistência dentro do Congresso, especialmente entre parlamentares ligados ao setor produtivo.
Nos bastidores, circulam avaliações de que mudanças na jornada poderiam elevar custos trabalhistas, pressionar preços ou reduzir vagas formais em determinados setores. Há também preocupações com o aumento da judicialização de contratos de trabalho.
Outro argumento levantado por críticos da proposta é o de que a medida poderia limitar a negociação direta entre empresas e empregados. Pela legislação atual, a jornada semanal máxima é de 44 horas, mas diferentes modelos de escala podem ser pactuados.
Negociação de uma versão intermediária
Mesmo com as resistências, parlamentares reconhecem que rejeitar frontalmente uma pauta com grande apelo popular pode trazer custos políticos em um ano eleitoral. Por isso, cresce a avaliação de que o debate deve caminhar para uma solução intermediária.
Entre as possibilidades discutidas estão versões mais moderadas da proposta, com exceções para determinados setores ou mecanismos de compensação econômica para empresas.
Durante o Mapa de Risco, analistas mencionaram que uma alternativa seria aprovar um texto mais flexível, capaz de acomodar interesses distintos.
“Uma versão mais light desse projeto (…) que poderia deixar de fora alguns setores produtivos ou envolver compensações, como por exemplo a desoneração da folha de pagamentos, poderia render um amplo apoio”, apontou a análise.
Pressão eleitoral
A proximidade das eleições amplia o peso político do tema. Nos bastidores, parlamentares admitem que o debate envolve não apenas a organização da jornada de trabalho, mas também o impacto eleitoral de apoiar ou rejeitar a proposta.
Pré-candidatos à reeleição ou a cargos majoritários acompanham o avanço da discussão com atenção. Embora parte dos congressistas preferisse evitar uma votação sensível em ano eleitoral, a percepção é de que a pauta dificilmente sairá da agenda.
Assim, a discussão sobre o fim da escala 6×1 tende a continuar nas próximas semanas como um dos temas mais delicados do Congresso, reunindo pressões sociais, preocupações econômicas e uma disputa política por protagonismo dentro do próprio Legislativo.
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