
O presidente Donald Trump viu a derrubada de Nicolás Maduro, da Venezuela, como uma operação rápida e limpa, que não poderia ter saído melhor. Do outro lado do mundo, no Irã, o que ele esperava que fosse outra campanha veloz se transformou em algo muito mais complicado.
Perto de casa, um terceiro país está na mira de Trump: Cuba. E, embora o país possa temer uma invasão militar, os indícios mais recentes sugerem que Trump considera uma terceira via. Na sexta-feira, Cuba confirmou que seu governo está conversando com autoridades dos Estados Unidos.
Trump, que derrubou Maduro em uma operação realizada em janeiro e que durou apenas algumas horas, tem deixado mercados e aliados em dúvida sobre os próximos passos de seus planos de mudança de regime para a ilha situada a 90 milhas, ou 145 quilômetros, da costa da Flórida, cujos líderes comunistas resistem à pressão dos EUA há décadas.
Pessoas familiarizadas com o assunto dizem que Trump tem, sim, um plano. Ele quer usar a pressão econômica americana para tornar a ilha financeiramente dependente de Washington. Os EUA assumiriam, na prática, o lugar de um antigo rival, a União Soviética, que sustentou Cuba antes de seu colapso, em 1991.
Cuba diz ter iniciado conversações com EUA
Conversa acontece em meio a uma grave crise econômica e com o governo comunista sob crescente pressão do presidente dos EUA, Donald Trump
Tentativa de compra, risco de guerra e embargos: a sempre tensa relação de EUA e Cuba
Ao contrário do que se pensa, as relações tensas entre Estados Unidos e Cuba não são recentes e nem nasceram após a Revolução de 1959; interesses políticos, econômicos e comerciais são mais antigos
“Cuba vai cair muito em breve”, disse Trump à CNN na semana passada. “Cuba está pronta, depois de 50 anos.”
Diante da pressão crescente, o governo em Havana prometeu libertar dezenas de prisioneiros no fim da noite de quinta-feira. Também afirmou que o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, falaria à imprensa no início da manhã de sexta-feira.
Especulações sobre uma possível derrubada militar do regime comunista de Cuba circulam em Washington enquanto os ataques dos EUA no Irã continuam, alimentadas em parte por declarações de aliados, como o senador Lindsey Graham, que disse à Fox News nesta semana que “o Irã vai cair, e Cuba é a próxima”.
Mas as pessoas familiarizadas com a visão de Trump, que pediram anonimato ao discutir deliberações privadas, dizem que essa não é a opção preferida. Em vez disso, Trump vê a Venezuela como modelo, mas de outra forma.
Após remover Maduro, os EUA passaram a apoiar a administração mais alinhada a Washington da presidente Delcy Rodríguez, antes principal aliada de Maduro.
Em Cuba, Trump e aliados de primeiro escalão querem substituir Díaz-Canel, a quem responsabilizam por levar a economia ao colapso e consideram incapaz de conduzir as mudanças políticas e econômicas necessárias, segundo uma das pessoas.
Autoridades americanas mantiveram conversas com Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto de Raúl Castro, ex-presidente de Cuba e irmão do falecido Fidel Castro.
Coronel do Ministério do Interior de Cuba, o mais jovem Castro tem fortes vínculos familiares com o conglomerado militar que controla grandes partes da economia cubana.
Trump e altos funcionários dos EUA, incluindo o secretário de Estado Marco Rubio, apertaram o cerco econômico contra Cuba desde janeiro, quando os Estados Unidos anunciaram uma quarentena sobre o petróleo destinado ao governo. O presidente usou a ameaça de tarifas para convencer o México, último grande fornecedor de petróleo da ilha após a remoção de Maduro, a interromper os embarques.
Os EUA agora regulam o fluxo de energia para o país ao permitir que empresas vendam combustível ao seu diminuto, mas rapidamente crescente, setor de pequenas e médias empresas, mas não ao governo.
Procurada para comentar na noite de quinta-feira, a embaixada cubana em Washington remeteu a declarações no Facebook do vice-ministro das Relações Exteriores, Carlos Fernández de Cossío, nas quais ele chamou a quarentena americana sobre as importações de energia do governo de “uma forma contínua de punição coletiva”.
“A possibilidade de vendas condicionais ao setor privado já existia e não alivia o impacto sobre a população”, disse ele.
Díaz-Canel afirmou que está disposto a negociar com os EUA, mas em condição de igualdade. Também advertiu que o país está reforçando suas defesas militares.
O foco em uma autoridade de alto escalão próxima ao regime atual segue os contornos da incursão de Trump na Venezuela, durante a qual forças americanas retiraram Maduro, mas deixaram Rodríguez, sua vice-presidente, no comando. Ao contrário do que ocorreu no Irã, Trump conseguiu mudar a face do governo, e sua postura diante de Washington, sem perdas de tropas americanas, ainda que dezenas de soldados cubanos e venezuelanos e agentes de inteligência tenham morrido ao proteger Maduro.
Os EUA agora buscam atrair bilhões de dólares em investimentos para abrir a economia controlada pelo Estado na Venezuela a empresas americanas, especialmente nos setores de petróleo e mineração. E, embora Rodríguez tenha mantido publicamente a ideologia socialista que marcou os governos de Maduro e do falecido Hugo Chávez, Trump a elogiou por cooperar com os EUA.
Cuba também apresenta desafios que a Venezuela não apresentava. Por seis décadas, o regime comunista proibiu partidos políticos de oposição, deixando um vácuo de possíveis lideranças capazes de conduzir o tipo de retorno à democracia que os EUA dizem que eventualmente ocorrerá em Caracas.
Atrair investimentos para a economia cubana provavelmente seria ainda mais difícil do que tem sido na Venezuela, já que Cuba não dispõe de reservas comparáveis de petróleo e de recursos naturais para desenvolver.
Ainda assim, Havana pode oferecer a Trump uma chance de sucesso enquanto a guerra no Irã se arrasta, mesmo que ele não entregue a derrubada completa do regime dos Castro, buscada há muito tempo por Rubio e outros nomes nos EUA.
Assim como Rodríguez, o mais jovem Castro é visto pelo governo Trump como um líder potencialmente pragmático, que poderia ser incentivado a fechar acordos livres da ortodoxia da revolução liderada por Fidel e Raúl Castro, disse a fonte.
O deputado republicano da Flórida Mario Díaz-Balart, aliado de longa data de Rubio e cujos pais, assim como os de Rubio, emigraram de Cuba para os EUA, confirmou em entrevista à CBS nesta semana que há conversas em andamento com pessoas “ao redor” de Raúl Castro. Díaz-Balart previu que o regime atual não sobreviverá ao mandato de Trump, que vai até janeiro de 2029.
A Casa Branca se recusou a comentar, apontando para declarações recentes de Trump. Em uma cúpula de líderes latino-americanos em Doral, na Flórida, no fim de semana passado, ele disse que Cuba está “em seus últimos momentos de vida como era”. Acrescentou que o “foco agora está no Irã”, mas que, depois disso, Rubio vai tirar “uma hora de folga e então concluir um acordo sobre Cuba”.
O governo não parece planejar um ataque militar contra Cuba, mas sim uma transição negociada de governo, disse Kimberly Breier, que foi secretária-assistente de Estado para Assuntos do Hemisfério Ocidental no primeiro mandato de Trump.
“O fator predominante tanto na Venezuela quanto em Cuba é a estabilidade”, disse Breier, hoje assessora sênior da consultoria estratégica Torridon Group, em Washington. “O governo quer mudança, mas não quer que ela seja caótica, provoque migração em massa ou gere mais espaço para adversários. É uma abordagem mais gradual, baseada na estabilidade.”
A Marinha já ajudou a Guarda Costeira dos EUA a interceptar navios que transportavam petróleo venezuelano sancionado, que nos últimos anos frequentemente tinha Cuba como destino. E, para os patronos de Cuba ao longo dos séculos, da Espanha aos EUA sob o então presidente William McKinley, um dos ídolos políticos de Trump, passando pela União Soviética, o controle incluiu ao menos alguma demonstração de poder militar.
Enquanto isso, a economia da ilha está à beira do colapso. Décadas de regime comunista, junto com o embargo comercial dos EUA, empobreceram Cuba e sufocaram o crescimento. O país agora enfrenta uma crise humanitária, e o Departamento de Estado enviou US$ 9 milhões em ajuda por meio da Igreja Católica para contornar o governo.
©️2026 Bloomberg L.P.
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