
BRASÍLIA, 17 Mar (Reuters) – O Banco Central se reúne nesta semana para uma aguardada decisão sobre os juros novamente com dois assentos vagos em sua diretoria, desfalque que ainda pode persistir por várias reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) diante de um clima difícil para o governo no Senado, segundo duas fontes com conhecimento do assunto.
Quatro fontes ouvidas pela Reuters disseram que o preenchimento das vagas não está sendo encarado como uma prioridade pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mesmo após o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ter feito suas sugestões para as diretorias de Política Econômica e de Organização do Sistema Financeiro ainda em dezembro.
Duas fontes pontuaram que até a finalização de um inquérito da Polícia Federal sobre o Banco Master, o ambiente no Senado — onde as relações com o governo estão tensionadas desde o ano passado — possivelmente seguirá complicado para a sabatina de novos indicados ao BC e posterior aprovação de seus nomes tanto pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) quanto pelo plenário da Casa, etapas mandatórias para que possam tomar posse.
“Hoje está barata voa porque ninguém sabe quem vai aparecer no jornal’, afirmou uma das fontes, em referência aos vazamentos de informações expondo as conexões políticas de Daniel Vorcaro, que controlava o banco liquidado pelo BC em novembro passado em meio a uma profunda crise de liquidez e suspeitas de vendas de carteiras de crédito inexistentes.
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Com recesso parlamentar em julho e eleições gerais em outubro, as duas fontes não descartam que o Copom siga tomando decisões de política monetária com apenas sete de seus nove votos por meses à frente.
Isso poderia consolidar uma situação sem precedentes em que os cargos permanecem vagos não devido a ausências temporárias dos titulares, mas porque novas nomeações não foram feitas. A demora de Lula em indicar os nomes contrasta com as duras críticas que fez, ao longo do seu mandato, ao fato de ter tido que manter na autarquia diretores nomeados por seu antecessor, sob a lei de autonomia do BC aprovada em 2021 que estabeleceu mandatos não coincidentes para os diretores.
Na prática, Lula pode passar grande parte do último ano de seu terceiro mandato sem preencher cargos que, em teoria, ele já tem o poder de escolher, correndo inclusive o risco de que as nomeações fiquem a cargo de quem vencer a próxima eleição presidencial.
Atualmente, a diretoria de Política Econômica do BC está sendo acumulada interinamente por Paulo Picchetti, que já comandava a diretoria de Assuntos Internacionais, enquanto Gilneu Vivan, diretor de Regulação, está respondendo também pela diretoria de Organização do Sistema Financeiro.
‘Eu não me surpreenderia se isso não se resolvesse até o final do ano’, disse uma das fontes.
Segundo ela, o tema não voltou ao debate no governo desde que Haddad sugeriu a Lula que indicasse seu secretário de Política Econômica, Guilherme Mello, e o economista Tiago Cavalcanti para os postos no BC, vagos desde o início deste ano com o fim dos mandatos de dois últimos diretores que haviam sido nomeados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.
As sugestões de Haddad foram mal recebidas pelo mercado, sob avaliação de que a ligação com o PT e a formação heterodoxa de Mello gerariam risco de uma postura leve na política monetária, e também com questionamentos sobre a falta de experiência dos indicados em atuação direta de interlocução com o mercado financeiro, algo visto como importante especialmente para a diretoria de Política Econômica.
Até agora, Lula publicamente não referendou ou descartou os nomes de Haddad para as diretorias, que não são vistas como escolhas do presidente do BC, Gabriel Galípolo.
Procurados, o Banco Central e o Palácio do Planalto não responderam a pedidos de comentários.
Um entrave considerado decisivo pelo governo é a indicação do advogado-geral da União (AGU), Jorge Messias, para a vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), que enfrenta resistências no Senado e vem sendo adiada desde o fim do ano passado. Apesar do anúncio feito por Lula em novembro, o Palácio do Planalto não formalizou a indicação em mensagem ao Congresso, em meio ao ambiente conturbado.
A escolha de Messias criou mal-estar com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que defendia a nomeação do ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSD-MG) para o posto no STF. O governo também teme que o nome de Messias possa ser rejeitado em votação pelos senadores.
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