A geografia influencia nas vendas de automóveis e é ainda mais determinante para as vendas de picapes médias. É que os benefícios do motor a diesel e da tração 4×4 são mais relevantes para quem mora no interior do que para quem vive nas grandes cidades, e a presença de uma concessionária mais próxima também é argumento de venda. E isso muito tem a ver com as estratégias de Fiat e GWM com suas novas picapes médias.
A GWM Poer P30 é peça fundamental para a expansão da GWM rumo ao interior do Brasil. A fabricante chinesa começou a vender seus carros no Brasil no início de 2023 e já ganhou espaço nas grandes cidades com o Haval H6. Agora, com os SUVs Tank 300 e Haval H9, e a picape Poer no portfólio, tem bons motivos para abrir lojas em centros urbanos mais distantes das capitais.



A Fiat, por sua vez, está bem presente no Brasil. Além de ter mais de 510 lojas, em capitais, centros regionais e até em rincões, são dela as picapes mais vendidas do país, Strada e Toro.
Faria todo o sentido ter uma picape média e se valer de uma capilaridade de rede que Toyota Hilux e Ford Ranger nem sonham. No entanto, isso não foi suficiente para a Titano, que atingiu uma média inferior a uma picape vendida/loja, nos últimos meses. A rede Fiat tem 537 concessionárias.

A Titano 2026 chegou em julho com toda a sua parte técnica atualizada, mas o mesmo design de 2024. O preço aumentou e as vendas, que andavam alavancadas por grandes descontos, minguaram. A média de 554 emplacamentos no primeiro semestre de 2025 caiu para 408 unidades no segundo. A Poer P30, lançada em setembro, teve resultado melhor, com média de 420 emplacamentos mensais até dezembro.
Ambas as picapes também tentam usufruir da cidadania brasileira. A Poer P30 começou a ser montada em Iracemápolis (SP) semanas depois do seu lançamento no Brasil, mas ainda com quase todas as peças importadas da China. Já a Fiat Titano, que é derivada de uma picape chinesa, da Changan, deixou de ser montada no Uruguai e migrou para Córdoba, na Argentina, com parte das peças produzidas pela indústria local.


Para a Fiat, a mudança de fábrica foi a oportunidade de trocar o antigo motor 2.2 turbo diesel DW12 (180 cv e 40,8 kgfm), da Peugeot-Citroën, pelo também 2.2 turbo diesel Pratola Serra (200 cv e 45,9 kgfm), da própria Fiat, usado por Toro, Ram Rampage e Jeep Commander. Outra novidade é o câmbio automático de oito marchas da ZF, que entra no lugar do antigo com seis, Aisin. A tração 4×4 temporária deu lugar a uma sob demanda.
As mudanças não pararam aí. Trocaram a caixa de direção hidráulica por uma elétrica, o que diminuiu o esforço do motorista e o número de voltas de batente a batente, de 3,5 para 2,7 (respostas mais diretas). Novas suspensões, com molas, amortecedores e até buchas que isolam o chassi da cabine com novas especificações, deixaram a picape mais suave, estável e macia, sem batidas secas ou a péssima sensação de o conjunto dianteiro estar solto, como havia antes. A Titano abandonou o espírito de trator e está mais alinhada ao conforto de outras picapes médias.

O ganho de potência, o torque entregue 500 rpm mais cedo (a 1.500 rpm) e o câmbio com primeira e segunda marchas mais curtas fazem a picape da Fiat parecer mais leve ao sair da inércia. O tempo para ir de 0 a 100 km/h foi reduzido de 13,4 para 10,5 segundos. E o consumo melhorou de 10,6 km/l na cidade e 11,1 km/l na estrada para 11,2 km/l e 12,8 km/l, respectivamente.
A Poer P30, por sua vez, usa conjunto mecânico desenvolvido inteiramente pela GWM. O motor 2.4 turbo diesel é recente e tem 184 cv e torque de 48,9 kgfm entregue também a 1.500 rpm, e o câmbio automático de nove marchas feito “em casa” está combinado com um sistema de tração 4×4 temporária e limitada a 80 km/h.


Em arrancadas, o motor da Poer responde prontamente ao acelerador, sem o pequeno atraso que se nota na Titano, mas seu fôlego é claramente mais limitado, principalmente em rodovias. A GWM precisou de 11,8 s para chegar aos 100 km/h em nosso teste, tempo 0,6 s maior que o de uma Toyota Hilux (com 204 cv). Em termos de consumo, fica atrás da Titano, com média urbana de 10,1 km/l e rodoviária de 11,7 km/l.
A Poer tem borboletas para trocas de marcha sequenciais atrás do volante, boas para aproveitar a oferta de tantas marchas.


Se tem uma coisa onde a Poer P30 peca é na suspensão, bastante dura. Na estrada, nem faz mal porque a estrutura controla bem os movimentos laterais da carroceria e as ondulações (movimentos de baixa frequência), mas as pequenas irregularidades (movimentos de alta frequência) do off-road ou mesmo valetas e lombadas são incômodas, fazem a picape saltitar. Parece um acerto pensado para um carro de trabalho. Só que a picape inteira tem outra proposta.
A Poer P30 Exclusive, a mais completa, custa R$ 240.000 e isso é barato diante de outras picapes diesel. Basta ver que a Titano Ranch alinhada aqui é tabelada em R$ 285.990. E a Poer oferece itens que nem picapes que custam R$ 100.000 mais caro têm.

As telas de 10,3” do quadro de instrumentos e de 14,6” da multimídia chamam atenção, mas talvez tenha mais valor os bancos dianteiros irem além dos ajustes elétricos e oferecerem ventilação e aquecimento, e os traseiros terem assentos basculantes. Há ainda revestimento macio no painel e nas portas dianteiras, coisa que, nesse segmento, só a JAC Hunter também oferece.
A Poer traz rodas aro 19” (que podem, sim, influenciar na dureza da suspensão), faróis e lanternas full-led, alívio de peso na tampa da caçamba e base de carregamento sem fio para smartphones, além de ter ajuste de peso para a direção e monitor de placas que pode atualizar a velocidade do piloto automático adaptativo. Tudo bem que os três pontos de energia com interruptores e a falta de iluminação na caçamba validam a pegada de carro de trabalho, mas a picape da GWM é uma das mais requintadas da categoria.

A Fiat Titano até conseguiu se preparar melhor e, hoje, também tem freio de estacionamento eletrônico com auto-hold, freios a disco nas quatro rodas, piloto automático adaptativo e assistente de faixa. Mas seu padrão de acabamento, com plásticos rígidos e forrações com materiais menos nobres e um tanto datados destoam da rival. A versão Ranch tem telas com maior resolução, mas não acompanham a Poer.
A Poer ainda vem com espaço traseiro bastante superior e mais aconchegante, porque além de maior espaço tem assentos mais longos e que acomodam melhor os passageiros. As duas picapes são grandes para o segmento, tendo a Titano 5,33 m de comprimento e 3,18 m de entre-eixos, e a Poer 5,42 m e 3,23 m, respectivamente. Na capacidade de carga, empate: 1.020 kg para a Fiat e 1.018 kg para a GWM.

A grande evolução da Fiat Titano em motorização e suspensão deu resultado, ela é a melhor das duas nisso. Só que a GWM Poer P30 é muito melhor em todo o resto. É maior, mais equipada e sofisticada, e custa R$ 45.990 mais barato. Além disso, tem o dobro do tempo de garantia: dez anos contra cinco na Titano.
Veredicto
A GWM Poer P30 não é perfeita. Também, se tivesse suspensão melhor e fosse mais rápida, não custaria tão barato. Neste cenário, a Fiat Titano precisa de grandes descontos para se tornar uma boa compra.
Poer ★★★★☆
Titano ★★★★
Avaliações
CONSTRUÇÃO E ACABAMENTO
A Poer P30 parece ser mais sólida, com direito a fechamento de portas mais seco, e tem o cuidado de amortecer o peso da tampa traseira. A Titano ainda traz acabamento bem mais simplório.
Poer ★★★★★
Titano ★★★☆
TECNOLOGIA
A evolução vista na Titano não é suficiente para enfrentar a Poer, que não tem apenas telas melhores e mais modernas, mas também mais funções e configurações possíveis.
Poer ★★★★★
Titano ★★★★
VIDA A BORDO
A Titano apresenta rodar mais confortável e é até um pouco mais silenciosa, mas a Poer tem bancos melhores, maior espaço interno e cabine mais funcional, graças ao banco traseiro basculante.
Poer ★★★★☆
Titano ★★★★
RENDIMENTO
As duas picapes ainda estão distantes de serem as mais econômicas, mas a evolução da Titano é notável. A Poer é mais lenta e consome mais diesel.
Poer ★★★★
Titano ★★★★★
COMPORTAMENTO DINÂMICO
A Poer é saltitante, mas, ao mesmo tempo, mais estável no asfalto. A Titano consegue ser mais confortável sem muito prejuízo para a dinâmica.
Poer ★★★★
Titano ★★★★
SEGURANÇA
As duas picapes oferecem sistemas avançados de assistência ao motorista nas versões testadas. A GWM Poer, porém, tem itens extras como leitor de placas e sistema de centralização em faixa.
Poer ★★★★★
Titano ★★★★☆
SEU BOLSO
Por R$ 240.000, a Poer Exclusive é R$ 45.990 mais barata que a Titano Ranch (R$ 285.990) e fica mais próxima da Titano Endurance manual (R$ 233.990).
Poer ★★★★★
Titano ★★★☆
Ficha Técnica
| GWM Poer P30 Exclusive
Motor: diesel, diant., longitudinal, 4 cilindros em linha, 2.400 cm³, turbo, 184 cv a 3.600 rpm, 48,9 kgfm a 1.500 rpm |
Fiat Titano Ranch
Motor: diesel, diant., longitudinal, 4 cilindros em linha, 2.184 cm³, turbo, 200 cv a 3.750 rpm, 45,9 kgfm a 1.500 rpm |
Teste Comparativo Quatro Rodas
| Aceleração | Poer | titano |
| 0 a 100 km/h | 11,8 s | 10,5 s |
| 0 a 1.000 m | 38,5 s / 153,8 km/h | 32,2 s / 158,1 km/h |
| Velocidade máxima | 165 km/h* | 180 km/h* |
| Retomadas | ||
| D 40 a 80 km/h | 5,2 s | 4,4 s |
| D 60 a 100 km/h | 6,9 s | 5,7 s |
| D 80 a 120 km/h | 8,8 s | 7,9 s |
| Frenagens | ||
| 60/80/120 km/h a 0 | 14,3/25,8/58,3 m | 16,8/28,8/64,2 m |
| Consumo | ||
| Urbano | 10,1 km/l | 11,2 km/l |
| Rodoviário | 11,7 km/l | 12,8 km/l |
| Ruído interno | ||
| Neutro/RPM máx. | 42,7 / 75,1 dBA | 45,7 / 77,5 dBA |
| 80/120 km/h | 64,2 / 69,4 dBA | 62,7 / 68,9 dBA |
| Aferição | ||
| Velocidade real a 100 km/h | 97 km/h | 96 km/h |
| Rotação do motor a 100 km/h | 1.600 rpm | 1.750 rpm |
| Volante | 2,7 voltas | 2,7 voltas |
| SEU Bolso | ||
| Preço básico | R$ 240.000 | R$ 285.990 |
| Garantia | 10 anos | 5 anos |
Condições de teste: alt. 660 m; temp., 25 °C; umid. relat., 53%; press., 769 mmHg/ temp., 25 °C; umid. relat., 61%; press., 769 mmHg. Realizado no ZF Campo de Provas.
*Dados de fábrica
