
odos os dias, representantes farmacêuticos percorrem consultórios médicos para divulgar medicamentos, em um ritual que se repete há décadas e que custa à indústria farmacêutica bilhões por ano. A Memed enxergou nessa rotina uma oportunidade que fez com que a healthtech conseguisse, depois de 13 anos, alcançar o tão sonhado breakeven e começar a gerar lucro. E o melhor: sem onerar a ponta da cadeia.
“A gente achou o problema. A indústria farmacêutica era grande em tamanho, mas tinha uma dor óbvia: gastava muito dinheiro com propaganda médica, o que era feito pessoalmente, com os propagandistas, de forma pouco eficiente. Isso acontecia porque esse tipo de propaganda é muito restrita, você tem que ter certeza que o médico é médico. Percebemos que a Memed era o lugar perfeito, porque os médicos fazem login na plataforma com certificado digital. Ou seja, a Memed é um dos únicos lugares em que a indústria fala com os médicos em massa, de forma segura”, conta Rodolfo Chung, CEO da Memed.
Hoje, segundo ele, são mais de 150 mil profissionais cadastrados na plataforma. Rodolfo estima que haja cerca de 500 mil médicos no Brasil, o que faz com que a Memed ainda tenha um potencial de crescimento relevante da sua base.
Leia também: “Já existe o ‘sabor’ chocolate. Daqui a pouco terá só o aroma”, diz fundador da Dengo
Da queima de caixa ao lucro
A healthtech existe há 15 anos. Fundada por médicos – os irmãos Ricardo e Rafael Moraes, junto com Marcel Ribeiro – a Memed surgiu com a proposta de digitalizar a prescrição médica no Brasil e oferecer a plataforma de graça para médicos, pacientes e farmácias. A lógica seguia a escola das empresas de tecnologia do Vale do Silício: primeiro constrói o valor, depois descobre como monetizar. Por mais de uma década, a Memed queimou caixa apostando nessa tese.
A empresa chegou a passar por momentos difíceis. Em janeiro de 2023, demitiu cerca de 11% do quadro, num movimento que seus próprios funcionários descreveram como corte preventivo diante de um ambiente macroeconômico adverso e da pressão de investidores para reduzir gastos.
Em 2021, a DNA Capital havia assumido o controle da Memed, comprando a participação de investidores anteriores, como Redpoint, Monashees e Qualcomm Ventures. Depois da reestruturação realizada no início de 2023, a empresa trouxe Rodolfo Chung como CEO em junho, com a missão de fazer o negócio se sustentar.
O executivo chegou com currículo de produto e crescimento. Fez carreira na Ambev, passou pelo LTS Investments – fundo ligado a Jorge Paulo Lemann – e foi CEO do Zé Delivery quando a empresa se tornou unicórnio. “Fiz o Zé Delivery crescer gastando zero de marketing”, conta. Esse histórico moldou sua visão para a Memed.
À frente da Memed, Rodolfo ajudou a empresa a finalmente encontrar sua vocação: ajudar a indústria farmacêutica a se comunicar com o médico. “É ali que conseguimos monetizar a plataforma, por meio de banners, retail media. Nunca vou precisar cobrar do médico, do paciente ou das farmácias, porque minha receita vem do lado que tem mais recursos: as farmacêuticas”, destaca o CEO.
‘Sabor’ chocolate: Hershey vai mudar receita de seus produtos
Esta mudança é o capítulo mais recente de uma disputa sobre ingredientes, deflagrada por um neto do criador do Reese’s Peanut Butter Cup, Brad Reese, que acusa a companhia de reduzir custos sacrificando a qualidade dos ingredientes
Próximo unicórnio?
Em junho de 2025, a empresa atingiu o breakeven. Hoje opera com lucro e projeta fechar 2026 com R$ 100 milhões em receita.
O potencial de crescimento é expressivo porque o mercado ainda está no início. Apenas 15% das prescrições no Brasil são feitas digitalmente, segundo Rodolfo. “Nos EUA, 25% da verba de promoção médica é digital. No Brasil é 1%, ou seja, nada”, diz Chung. “É nessa ordem de grandeza o potencial que temos para crescer”.
Para escalar, a Memed quer dobrar a base de médicos, passando de 150 mil para 300 mil até 2029, além de expandir as funcionalidades da plataforma. A próxima fronteira é o acompanhamento do tratamento.
O CEO destaca que 55% dos pacientes com problemas crônicos não têm adesão correta ao tratamento. Ou seja, não tomam os remédios certos na frequência certa, por exemplo. “A responsabilidade do médico não deveria se limitar a prescrever. Queremos que ele possa acompanhar se o paciente comprou o remédio, se fez o exame, se está seguindo a terapia”, explica.
Com o breakeven conquistado, Rodolfo agora foca no crescimento da healthtech. “Tenho um combinado com os investidores de que ainda estamos no início da tese, então não preciso gerar dividendos. Posso reinvestir. Em um ano, quero dobrar faturamento, número de pessoas, prescrições. Não é crescimento devagar e sempre, é ponto de inflexão.”
O horizonte que ele enxerga é se tornar unicórnio num prazo de quatro ou cinco anos, com fôlego até um eventual IPO. Em uma referência aos jogos de video game das antigas, ele brinca que a empresa subiu de fase: “Saímos do lava world, de queima de caixa, enfrentamos o chefão do breakeven. Agora passamos para desafios maiores.”
Conteúdo produzido por Startups.
The post Startups: O segredo da Memed para deixar de queimar caixa e mirar o unicórnio appeared first on InfoMoney.
