
Eu tinha 48 anos quando deixei meu emprego e me matriculei no programa de Estudos Empreendedores de Stanford.
A maioria das pessoas, nessa fase da carreira, tenta reduzir riscos, não introduzi-los. Elas têm renda estável. Têm dependentes. Na tecnologia, existe a suposição implícita de que, se você fosse dar um grande passo, já deveria tê-lo dado. Eu decidi arriscar mesmo assim.
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Durante a maior parte da minha carreira, vi o Vale do Silício celebrar um tipo específico de ambição: a dos jovens. Aplaudimos fundadores que abandonam a escola e prodígios criando em dormitórios universitários.
Essas histórias são reais e extraordinárias. Mas, por baixo delas, existe uma narrativa silenciosa: a ideia de que se reinventar mais tarde na vida é incomum e de que profissionais experientes, que conhecem profundamente as falhas de um setor e decidem corrigi-las, são, de alguma forma, exceção.
Quando converso com executivos experientes considerando voltar a estudar ou abrir startups, a hesitação raramente tem a ver com capacidade ou potencial.
Tem a ver com percepção. Assumir riscos depois dos 40 é mais frequentemente visto como “crise de meia-idade” do que como uma escolha calculada. Isso não é apenas injusto — é economicamente míope.
O que duas décadas na indústria me ensinaram
Antes de Stanford, passei décadas trabalhando com armazenamento de dados corporativos. No início da minha carreira, entrei em uma pequena empresa e fui enviado para ajudar a expandir o negócio pela Ásia-Pacífico.
Eu precisava sentar com clientes em mercados como o Japão e falar como especialista em armazenamento de dados da empresa — exceto que eu não era, pelo menos no começo.
Tive que aprender rápido. Tive que admitir o que não sabia. Houve muitos momentos em que eu estava no limite da minha capacidade.
Com o tempo, esses momentos desconfortáveis se acumulam. Um dia você acorda e percebe que realmente entende o sistema. Sabe por que certas arquiteturas falham — já viu ciclos suficientes para reconhecer padrões.
Perto dos 40 e tantos anos, esse reconhecimento de padrões já funcionava no automático para mim. O que eu já não tinha mais era a motivação que antes vinha do desconforto.
Um amigo que havia passado pelo Sloan Fellowship em Stanford sugeriu que eu me candidatasse. O conselho dele foi simples: coloque-se novamente em um ambiente onde você não seja o especialista e defina com clareza o que vem a seguir.
Eu me candidatei. Fui aceito. Eu era a pessoa mais velha do programa.
Pouco depois do início do programa, recebi uma ligação de um engenheiro com quem eu havia trabalhado anos antes.
Ele havia desenvolvido uma nova abordagem para acesso a arquivos na nuvem que desafiava premissas profundamente enraizadas sobre como os sistemas de armazenamento de dados deveriam funcionar. Ele me mostrou um protótipo que contrariava o que o senso comum dizia ser possível.
Aos 28 anos, eu provavelmente teria mergulhado de cabeça. Aos 48, a experiência me levou a desacelerar e testar tudo por todos os ângulos antes de avançar.
Passamos meses colocando a ideia à prova antes de nos comprometermos totalmente. Depois de formados, começamos a apresentar o projeto a investidores e fomos rejeitados 33 vezes.
Não é fácil, mas eu já tinha visto ciclos suficientes para saber que o consenso dos investidores nem sempre está alinhado com a realidade dos clientes. Seguimos em frente.
A convicção para persistir não veio de um otimismo cego. Veio de ter visto esse problema surgir repetidamente ao longo de duas décadas.
Eu já tinha visto as soluções improvisadas e ineficientes. Já tinha participado de discussões orçamentárias. Eu sabia que essa dor era estrutural, não temporária. Eventualmente, encontramos um investidor que enxergou da mesma forma.
Hoje, a LucidLink atende a milhares de empresas — incluindo Paramount, Adobe, Shopify e Spotify — e cresceu até se tornar um negócio global, avaliado pela última vez em 2023 em US$ 390 milhões.
Ganhamos um Emmy no ano passado por transformar a forma como o entretenimento é produzido.
Não conto essa história para sugerir que começar uma empresa aos 48 garante sucesso. Não garante. Conto porque essa empresa não existiria se eu tivesse aceitado a ideia comum de que meu tempo já tinha passado.
Por que isso é um problema de negócios, e não cultural
À medida que a IA transforma o trabalho de escritório, mais profissionais chegarão a pontos de inflexão. Alguns serão substituídos. Outros perceberão que os papéis que dominaram estão evoluindo mais rápido do que o esperado.
Ao mesmo tempo, pressões econômicas estão levando muitos a estender sua vida profissional. A reinvenção em fases mais avançadas da carreira se tornará mais comum, não menos. A questão é se o ecossistema de tecnologia tratará essa reinvenção como um ativo ou um passivo.
O preconceito etário costuma ser visto como um problema cultural. Também é um problema de negócios. Perdemos quando a experiência é descartada.
Quando profissionais mais experientes são sutilmente desencorajados a construir, reduzimos a variedade de problemas sendo abordados.
Em setores como infraestrutura, saúde, mídia e software corporativo, profundidade importa. Reconhecimento de padrões importa. Ter vivido crises importa.
Este não é um argumento contra fundadores jovens. Muitas empresas transformadoras foram criadas por pessoas na casa dos 20 anos.
É um argumento contra a ideia de que a inovação pertence a um único grupo demográfico. A ambição não tem prazo de validade. A experiência, combinada com a disposição de voltar a se sentir desconfortável, pode ser uma vantagem competitiva.
Se queremos que a próxima geração de empresas resolva problemas mais difíceis e sistêmicos, devemos normalizar a reinvenção de carreira em todas as fases. Não porque isso pareça inclusivo, mas porque faz sentido econômico.
Algumas das empresas mais importantes da próxima década serão criadas por pessoas que já tiveram uma ou duas carreiras. O verdadeiro risco não é que elas tentem e fracassem. É que decidam, antes mesmo de começar, que já perderam seu momento.
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