
WASHINGTON — O presidente Donald Trump queria uma coisa, mais do que qualquer outra, de seu secretário da Marinha, John Phelan: uma nova classe de encouraçados.
“Eles vão ser os mais rápidos, os maiores e, de longe — 100 vezes mais poderosos do que qualquer encouraçado já construído”, gabou-se Trump em uma entrevista coletiva em seu clube e resort Mar-a-Lago, na Flórida, poucos dias antes do Natal. Phelan, um investidor bilionário que tem casa perto do clube, ficou ao lado do presidente durante o anúncio.
Como guerra no Irã está secando estoque de armas estratégicas (e caríssimas) dos EUA
O esforço do Pentágono para rearmar às pressas suas forças no Oriente Médio deixa os EUA menos preparados para enfrentar possíveis adversários como Rússia e China, afirmam autoridades do governo e do Congresso
Trump enviará Witkoff e Kushner ao Paquistão para negociações com Irã, noticia CNN
Notícia cita duas autoridades do governo familiarizadas com o assunto
A missão de Phelan era entregar o primeiro dos encouraçados de Trump até 2028.
Na quarta-feira, Trump demitiu Phelan, que vinha tendo dificuldades para apresentar um plano capaz de entregar os navios dentro do cronograma praticamente impossível exigido pelo presidente, segundo altos funcionários de Defesa e do governo, que falaram sob condição de anonimato por se tratar de assunto sensível de pessoal.
Phelan é o primeiro secretário de Força a ser forçado a deixar o Departamento de Defesa neste governo, embora esteja longe de ser o único alto funcionário do Pentágono a cair. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, demitiu ou encostou mais de duas dezenas de generais e almirantes no último ano, incluindo o chefe do Estado-Maior do Exército, general Randy George, neste mês. Hegseth também bateu de frente com o secretário do Exército, Daniel P. Driscoll, por promoções e uma série de outros temas.
A dança de cadeiras entre a alta cúpula do Pentágono, em um momento em que os militares dos EUA estão em guerra com o Irã, tem alarmado parlamentares republicanos e democratas influentes.
O Pentágono não respondeu a perguntas sobre as circunstâncias da saída de Phelan. Ele não pôde ser localizado de imediato para comentar.
O ponto de ruptura para Phelan, que costumava dizer que ele e Trump trocavam mensagens e falavam ao telefone com frequência, veio nas últimas duas semanas, à medida que crescia a frustração do presidente com a gestão do seu programa favorito de encouraçados e adversários de Phelan dentro do Pentágono, entre eles Hegseth e o vice-secretário de Defesa, Stephen A. Feinberg, montavam uma campanha para derrubá-lo.
Neste mês, Hegseth e Feinberg disseram a Trump que o secretário da Marinha não “jogava em equipe” e precisava sair, relataram autoridades militares. Trump ligou para Phelan para falar sobre a sua péssima relação com outros líderes do Pentágono.
Feinberg e Hegseth haviam assumido recentemente parte da autoridade de decisão que estava nas mãos de Phelan, nomeando um almirante de três estrelas para comandar o portfólio de submarinos da Marinha, respondendo diretamente a Feinberg.
Sobrou para Phelan a supervisão de um grande pacote de investimentos em novos navios que Trump chama de “frota dourada”, construída em torno do programa de encouraçados querido pelo presidente.
Presidentes raramente se envolvem tanto em decisões de compras militares, mas Trump vem falando reiteradamente de seus planos para uma nova classe de encouraçados “Trump-class”. Em um discurso para soldados em Fort Bragg, na Carolina do Norte, em fevereiro, Trump insistiu que ajudou a desenhar a nova classe de navios que leva seu nome.
“Eu pus um pouco mais de alma no casco”, disse Trump aos militares. “Quero que esse navio fique deslumbrante, sabem.”
Phelan teve papel central em vender a ideia dos novos navios a Trump e em apresentar seus planos ambiciosos de revitalizar a frota da Marinha dos EUA e a indústria naval americana.
Na sabatina de confirmação no Senado, no ano passado, Phelan contou que o presidente muitas vezes lhe mandava mensagens tarde da noite perguntando sobre “navios enferrujados ou encostados em estaleiro” — e o que Phelan faria a respeito. Antes de a Marinha bater o martelo no desenho do encouraçado Trump-class, Phelan teria cativado o presidente mostrando pinturas a óleo de grandes encouraçados de eras passadas da Marinha, segundo autoridades de defesa.
No orçamento de defesa de US$ 1,5 trilhão divulgado nesta semana, o governo Trump pede US$ 65,8 bilhões para construção naval, o segundo maior pedido de verba para navios desde 1955, de acordo com dados do Escritório de Orçamento do Congresso (CBO).
A Marinha também projeta pedir US$ 17 bilhões no ano fiscal de 2028 para iniciar a construção do primeiro navio da classe Trump, segundo autoridades navais.
Mas altos funcionários de Defesa dizem que o programa, assim como os planos grandiosos de Trump para a “frota dourada”, está cheio de problemas. A indústria naval americana não tem hoje capacidade para construir, nos próximos anos, um encouraçado tecnologicamente avançado do tipo imaginado por Trump, afirmam oficiais de alta patente.
O governo Trump também não conseguiu, nos últimos 16 meses, indicar ninguém para o cargo de subsecretário de Pesquisa, Desenvolvimento e Aquisição — responsável por supervisionar os programas de armamentos da Marinha. E a força de trabalho civil da Marinha, que exerce papel crucial no desenvolvimento e nos testes de novos navios de guerra, foi dizimada por cortes e aposentadorias antecipadas, segundo militares.
Nos dias seguintes ao anúncio de Trump sobre seus novos encouraçados, especialistas em defesa passaram a questionar se eles algum dia seriam construídos.
“As características supostamente atribuídas ao navio são tão extraordinárias que o anúncio certamente vai gerar enorme debate”, escreveu Mark F. Cancian, especialista em orçamento militar do Center for Strategic and International Studies. “No entanto, não há necessidade desse debate, porque esse navio nunca vai zarpar.”
O navio levaria “anos para ser projetado”, observou Cancian. “Um futuro governo vai cancelar o programa antes de o primeiro casco tocar a água.”
Na imaginação de Trump, o novo navio de guerra seria gigantesco, com deslocamento de até 40 mil toneladas, e carregaria armas de alta tecnologia, incluindo lasers, mísseis hipersônicos e canhões eletromagnéticos (railguns), a maioria ainda em desenvolvimento e a anos de distância de ser empregada de fato.
Nas últimas semanas, ficou claro para Phelan que a Marinha e a indústria naval dos EUA não tinham como entregar o que Trump queria. Segundo altos oficiais militares e integrantes do governo, Phelan chegou a sugerir ao presidente que a Marinha talvez tivesse de recorrer a estaleiros europeus para conseguir pôr os encouraçados na água no prazo exigido.
Trump rejeitou a ideia.
Na entrevista coletiva de dezembro, em que anunciou seus planos para os encouraçados, o presidente havia prometido que os navios — “os maiores encouraçados já construídos na história do mundo” — seriam feitos nos Estados Unidos, com aço americano.
“Vamos restaurar os Estados Unidos como uma grande potência em construção naval”, afirmou.
Trump e Hegseth concordaram que a Marinha precisava de uma nova liderança, disseram autoridades, e o presidente pediu a Hegseth que conduzisse a saída de Phelan.
Na quarta-feira, Phelan soube que seria demitido e foi até a Casa Branca para tentar falar com Trump, relataram as autoridades. Ele não conseguiu encontrá-lo, mas o presidente ligou mais tarde para confirmar a demissão, acrescentaram.
c.2026 The New York Times Company
The post Sonho de Trump do “superencouraçado próprio” custou cargo do chefe da Marinha dos EUA appeared first on InfoMoney.
