O retorno de uma franquia obscura do PC, lá dos anos 1990, definitivamente não estava no bingo nem do mais otimista entre os fãs de jogos de corrida. Desenvolvido pela mesma empresa italiana do clássico cult de 1995, agora sob a marca Milestone, o reboot de Screamer é uma grata surpresa para quem sabe apreciar a intensidade dos rachas de fliperama.
Originalmente concebido como uma resposta à franquia Ridge Racer em sua época de ouro, Screamer sempre carregou em seu DNA uma pegada arcade, e o seu retorno, em 2026, não abre mão disso. Em um nicho dominado pelos mundos abertos de Forza e Need for Speed, revisitar um jogo com estrutura em fases, com foco quase obsessivo em drift, soa como um convite à galera old-school.
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É claro que muita coisa mudou desde o seu lançamento. São mais de três décadas de distância, então era natural que sua evolução fosse além de um mero salto tecnológico. A nova versão traz, como grande atrativo, uma campanha estruturada como arcos de anime, inclusive mantendo um visual estilizado, com nítidas influências das produções japonesas dos anos 1980 e 1990.
Flerte com visual novel
Em relação ao Screamer original, a principal novidade da releitura reside em seu modo história. Com requintes de visual novel, o jogador acompanha diferentes grupos de corredores, cada qual com suas próprias motivações e filosofias sobre as corridas de rua. Situada na metrópole futurista de Neo Rey, a aventura ainda flerta com o conspiracionismo, embora não se leve a sério.
Sem revelar muito, vou me limitar a dizer que os momentos iniciais giram em torno de uma competição que, mais tarde, se mostra muito mais do que uma simples disputa de corridas clandestinas. Apesar de não contar com um núcleo narrativo dos mais envolventes, o desenvolvimento dos personagens e a relação entre eles são os pilares que sustentam tudo.
Para quem não gosta muito de ler em videogame, é bom estar ciente de que há uma infinidade de diálogos, alguns excessivamente prolixos, entre um racha e outro. Os flertes e as provocações entre os membros dos times até funcionam bem nas primeiras horas, mas desgastam o interesse assim que a “fita” começa a se repetir.
A parte boa é que você pode simplesmente pular todas as conversas e ir direto para a ação, caso não faça muita questão de entender o contexto dos embates automobilísticos. Com textos em português, um aspecto bacana é que cada personagem se comunica em seu próprio idioma nativo, o que confere um contraste mais realista às interações faladas.
Drift e câmbio manual dão tempero às corridas
Por ser um jogo de corrida em sua essência, o que realmente importa é, no fim das contas, o quão prazeroso é controlar os veículos. Todas as máquinas têm um peso próprio, e há um senso de velocidade quase irreal, como há muito tempo eu não via, algo na linha de Burnout e dos títulos mais antigos de Need for Speed. É o arcade raiz do jeito que a gente gosta.
Manter o carro na pista é um grande desafio, não só pela rapidez, mas também pela presença de curvas sinuosas e trechos traiçoeiros, que induzem ao erro ao sugerirem que uma simples redução de velocidade seja suficiente. Como você já deve ter notado até aqui, Screamer é dependente do drift e faz dessa técnica a base da jogabilidade.
Enquanto o analógico esquerdo é usado para a direção, o direito, por sua vez, é o que rege o drift. Combinar o ângulo das duas alavancas faz com que o veículo ignore seu peso e deslize na pista com a naturalidade de um Dominic Toretto. O pulo do gato é que você precisa retomar o ritmo com o câmbio manual: administrar a derrapagem perfeita e a troca de marchas não é uma tarefa tão simples quanto parece.
Mesmo nas dificuldades mais baixas, Screamer é um jogo de corrida punitivo, com uma inteligência artificial agressiva, diria até sacana. Esteja ciente de que seus rivais não vão poupar esforços para vê-lo fora do circuito, mas, ao menos, há como se defender. Num esquema à la Burnout, é possível executar ataques laterais para debulhar os oponentes antes que eles façam o mesmo. Errar essa investida, no entanto, pode custar caro, fazendo seu veículo explodir num passe de mágica.
Corridas democráticas
Além da campanha, o reboot se reinventa com uma quantidade generosa de modos de jogo, dos desafios de tempo e destruição aos rachas solos ou em equipe. O multiplayer, tanto em tela dividida quanto online, também está presente para apimentar as provas, embora o matchmaking às vezes se enrole para encontrar partidas num ritmo satisfatório.
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Pilotos, percursos, conjuntos de equipamentos e peças são apenas alguns dos elementos que podemos desbloquear conforme corremos. O título é justo nesse sentido: quanto mais você joga, mais coisas destrava. Como manda a cartilha de jogos de corrida com tuning, o desejo de possuir um carro estiloso é o que nos impulsiona a seguir jogando.
A personalização em si não chega ao nível de um Need for Speed: Underground, mas entrega ótimas variantes de carrocerias, escapamentos, luzes e rodas. Certos acessórios, entretanto, só ficam disponíveis para compra sob condições muito específicas, como concluir 50 corridas com um veículo determinado ou finalizar o desafio de pontos com algum personagem. O grind do jogo é real.
Vale a pena?
Sem muito confete, Screamer é um jogo de corrida arcade nos moldes clássicos. Autêntico e com uma estética vibrante de anime dos anos 1980, o reboot não precisou se adaptar aos modismos do gênero para entregar uma experiência divertida e centrada no drift. Em essência, o jogo se inspira no próprio passado para mostrar que rachas com cara de fliperama ainda vão bem em 2026.
Nota: 80
Pontos positivos (Prós):
- Modos de jogo variados, inclusive coop e online;
- Sensação constante de velocidade e adrenalina;
- Mecânicas de drift e câmbio manual dão o tom das corridas;
- Personagens cativantes no modo história;
- Visual estilizado de anime dos anos 1980.
Pontos negativos (Contras):
- Campanha com estrutura de visual novel pode não agradar;
- Dificuldade desbalanceada da IA, sobretudo nos modos mais altos;
- Alguns problemas de conectividade.
Screamer está disponível para jogar no PC, PS5 e Xbox Series S e X. Uma cópia do jogo para PS5 foi cedida pela desenvolvedora para review.

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