
A construção civil começou 2026 mostrando força na geração de empregos, no crédito imobiliário e no ritmo das obras, mas o aumento de custos, os juros elevados e os impactos da crise geopolítica no Oriente Médio já começam a deteriorar o ambiente do setor. O resultado é um cenário de expansão mais moderada e cercado de incertezas, como avaliou a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), durante coletiva de imprensa realizada nesta quinta-feira (7).
Diante da piora do cenário macroeconômico, a CBIC revisou para baixo sua expectativa de crescimento da construção em 2026, de 2% para 1,2%.
Segundo a economista da entidade, Ieda Vasconcelos, o setor ainda mantém bases resilientes, impulsionado principalmente pelo mercado imobiliário, pelas obras de infraestrutura e pela forte geração de empregos. Mas os custos começam a subir num ritmo que preocupa empresários e ameaça margens, contratos públicos e novos empreendimentos.
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Petróleo e guerra pressionam
O principal sinal de alerta veio do custo dos materiais. A alta do petróleo, impulsionada pelos conflitos no Oriente Médio e pelos efeitos sobre o frete global e a cadeia industrial, começou a aparecer com força nos indicadores da construção.
O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), calculado e divulgado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), aumentou 5,84% nos últimos 12 meses encerrados em março/26. Esse resultado, de acordo com a entidade, evidencia que o custo do setor segue acima da inflação oficial do País medida pelo IPCA, que apresentou variação de +4,14%. O custo com a mão de obra subiu 8,82% no período em análise.
O INCC-M, que mede a evolução dos custos de mercado, subiu 1,4% só em abril, a maior elevação desde junho de 2022, período ainda marcado pelos efeitos da pandemia. O indicador de preços médios dos insumos da construção atingiu 68,4 pontos no primeiro trimestre, o maior nível desde 2022.
“A variação já preocupa e acontece diante desse cenário caracterizado pelos conflitos no Oriente Médio e pelo incremento no preço do petróleo”, afirmou Ieda Vasconcelos, economista-chefe da CBIC. Segundo ela, o impacto vai além do transporte. “O custo do frete ajuda a explicar o aumento, mas não é só isso. Toda a cadeia produtiva é afetada. Materiais derivados de petróleo, como PVC, conexões e tintas, têm sensibilidade maior à elevação do barril”, disse.
Marcelo Azevedo, gerente de Análise Econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI), confirmou durante a coletiva que a pressão de custos já se espalhou por diversos insumos industriais e pela logística. “São pressões muito relevantes que começaram a mostrar impacto no final de março e devem continuar aparecendo nos próximos meses”, afirmou.
Juros altos
Além da alta dos materiais, o setor voltou a colocar os juros elevados como principal obstáculo para os negócios. Segundo a CBIC, a expectativa inicial do mercado era de uma queda mais intensa da Selic ao longo de 2026. Mas o avanço das pressões inflacionárias reduziu essa perspectiva.
Hoje, a projeção é de que a taxa encerre o ano em torno de 13%, num patamar considerado ainda muito alto para uma atividade que necessita intensamente de crédito e financiamento de longo prazo. “A taxa de juros elevada voltou a ser o principal problema do setor”, afirmou o presidente da CBIC, Renato Correia, reforçando que a construção depende de ciclos longos de investimento e, por isso, sofre de maneira mais intensa em ambientes de juros elevados. “É um setor que investe muitos recursos durante muito tempo. Por isso, uma taxa de juros alta penaliza muito”, afirmou.
Emprego ainda em alta
Apesar do cenário mais desafiador, o mercado de trabalho da construção segue aquecido. O setor criou mais de 120 mil empregos formais no primeiro trimestre, alta de quase 19% sobre o mesmo período do ano passado. Foi o melhor resultado para um primeiro trimestre desde o início da nova série histórica do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), em 2020, segundo Ieda.
A construção respondeu por praticamente um em cada cinco empregos formais criados no país no período. O número de trabalhadores com carteira assinada ultrapassou 3 milhões, impulsionado principalmente pela construção de edifícios e pelas obras de infraestrutura.
Outro dado que chamou atenção foi o salário médio de admissão. Em março, a construção civil passou a registrar o maior salário médio de entrada entre todos os setores da economia brasileira.
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Pilares do setor
A CBIC destacou que o desempenho positivo do mercado imobiliário em 2025 continua sustentando parte da atividade neste ano. Os lançamentos imobiliários do ano passado chegaram a 415,3 mil unidades, enquanto os financiamentos seguem crescendo tanto com recursos do FGTS quanto do SBPE.
Os financiamentos com recursos do FGTS somaram R$ 32,5 bilhões no primeiro trimestre, alta de quase 22%. Já o crédito via SBPE avançou mais de 10%, chegando a R$ 42 bilhões. A entidade também destacou os efeitos positivos da ampliação do Minha Casa Minha Vida e da expectativa de investimentos robustos em infraestrutura. Segundo projeção da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), os aportes no segmento devem alcançar R$ 300 bilhões em 2026.
Margens apertadas
Se o emprego e o crédito ainda sustentam a atividade, a rentabilidade das empresas passou a entrar no radar de preocupação. Renato Correia alertou que contratos públicos e projetos habitacionais populares podem sofrer desequilíbrios diante da escalada rápida dos custos.
Segundo ele, obras do Minha Casa Minha Vida Faixa 1, que trabalham com margens muito estreitas e preços fixos, podem enfrentar dificuldades de contratação e até risco de paralisação caso os custos continuem avançando. “Pode ocorrer até paralisação das obras dependendo do impacto”, afirmou.
A preocupação também atinge obras rodoviárias e contratos públicos corrigidos apenas anualmente, especialmente diante da disparada de itens ligados ao petróleo, como o asfalto.
Confiança em baixa
A deterioração do ambiente já aparece também na percepção dos empresários. O Índice de Confiança da Construção caiu em abril para 46,4 pontos, o menor nível do ano e abaixo da linha de 50 pontos, que separa confiança de pessimismo.
Segundo a CBIC, o recuo reflete principalmente a piora na avaliação da economia, custos mais altos, crédito caro, dificuldade de contratar mão de obra e incertezas sobre novos empreendimentos
A leitura da CBIC é que a construção continuará crescendo em 2026, mas em ritmo mais lento e sob pressão crescente. De um lado, o setor ainda se apoia em emprego forte, expansão do crédito habitacional e investimentos em infraestrutura. De outro, enfrenta um ambiente marcado por juros elevados, inflação de custos e incertezas externas.
A combinação desses fatores transformou o ano de 2026 em um exercício delicado de equilíbrio para as construtoras: manter obras, preservar margens e continuar investindo em meio a um cenário cada vez mais caro e imprevisível.
Defesa do FGTS
Outra preocupação do setor diz respeito ao uso do FGTS para pagamento de dívidas, como propôs o governo. Segundo Correia, o fundo é a base do financiamento para novas moradias e não pode ser usado indiscriminadamente. “Quando se trata do FGTS é preciso ver o interesse social envolvido para suprir o déficit habitacional no País. Por isso nossa defesa intransigente do uso do recurso para habitação, o que é garantido em constituição”, afirma o presidente da entidade.
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