A Groenlândia, maior ilha do mundo e território autônomo do Reino da Dinamarca, deixou de ser apenas um cenário de vastas geleiras para se tornar o epicentro de uma das disputas mais acirradas da geopolítica moderna. E Charles Mendlowicz, sócio da consultoria de wealth management Ticker Wealth e fundador do canal Economista Sincero, está acompanhado de perto o clima de incerteza que paira sobre a população local e as movimentações das grandes potências.
Diretamente da ilha, onde grava a quarta temporada da série “Economista Sincero invade…”, o economista relata para o InfoMoney que nas ruas e cafés da Groenlândia, a presença de delegações estrangeiras e equipes de jornalismo tornou-se a nova norma.
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E Mendlowicz diz que a onipresença do tema é notável. “A palavra que eu mais escutei aqui foi Trump. Você está em uma mesa tomando café, escuta pessoas falando diversos idiomas que às vezes nem reconhece, mas no meio da fala você escuta ‘Trump, Trump, Trump’. A própria população está tentando entender por que, em um momento de quase total independência, duas grandes potências disputam a região”, observa o economista.
O especialista diz que a ofensiva do presidente americano, que recentemente reiterou o desejo de adquirir o território durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, parece ter evoluído de uma retórica agressiva para uma fase de negociações sobre tarifas e acordos de defesa no âmbito da OTAN.
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O Economista Sincero aproveita para listar os interesses dos EUA na região:
Terras raras: o combustível da IA
O primeiro interesse econômico na Groenlândia citado por Mendlowicz é verdadeiro tesouro enterrado sob o gelo: as terras raras. Esses minerais são componentes vitais para a fabricação de semicondutores, painéis solares e toda a infraestrutura necessária para a revolução da inteligência artificial (IA).
Mendlowicz destaca a dependência ocidental desses recursos. “A Groenlândia possui 25 dos 34 minerais que a Europa precisa e contém reservas de 43 dos 50 minerais considerados cruciais para a segurança nacional e econômica dos EUA. Sem esses minerais, é praticamente impossível continuar na corrida pela inteligência artificial e por toda a engenharia de energia solar”, avalia.
E enquanto os EUA e a Europa buscam garantir o suprimento, a China, que já domina a produção global, joga na defesa, compara. “Para os chineses, o viés é mais o de atrapalhar a concorrência do que propriamente necessitar desses minerais, já que eles detêm grande parte do mercado produtor”, analisa o Economista Sincero.
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Geopolítica e novas rotas comerciais
Além da riqueza mineral, o fator geoestratégico é determinante. O aquecimento global, embora traga desafios ambientais, está abrindo rotas marítimas antes inacessíveis.
• Novas rotas: a formação de passagens comerciais pelo Ártico pode reduzir drasticamente o tempo de transporte entre a Ásia e a Europa.
• Segurança nacional: os EUA monitoram com preocupação a movimentação de submarinos russos e chineses na costa norte-americana.
• Presença militar: a ilha abriga bases estratégicas para sistemas de alerta de mísseis, cruciais para a defesa da América do Norte.
“O entorno da ilha está derretendo e novas rotas estão se formando. China e Rússia podem aproveitar isso tanto comercialmente quanto militarmente, e os americanos não querem submarinos na sua costa”, comenta Charles Mendlowicz.
O dilema da população local
Apesar da cobiça internacional, a população da Groenlândia vive um impasse. Embora exista um forte desejo de maior autonomia em relação à Dinamarca, a ilha ainda depende de subsídios anuais estimados entre US$ 500 e 600 milhões vindos de Copenhague, lembra o economista.
A dúvida que Mendlowicz leva ao campo é se a população está disposta a trocar essa dependência europeia por novos investimentos, ou até uma anexação, norte-americana. “O que deveria importar é o que a população quer. Será que eles querem todo mundo brigando por esse território? Será que eles querem retirar esses minérios?”, questiona o economista, ressaltando que, nos próximos dias, novos acordos entre Trump e a liderança europeia podem trazer clareza a esse tabuleiro de gelo.
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Diplomacia
O clima de indefinição ganhou contornos mais diplomáticos nesta manhã de sexta-feira (23), em Nuuk. Charles Mendlowicz acompanhou de perto o encontro entre a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, e o primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, que conversaram com jornalistas. A visita de Frederiksen ocorreu logo após o recuo estratégico de Donald Trump, que substituiu a retórica de anexação forçada pela proposta de um acordo mediado pela OTAN.
Durante o encontro, Frederiksen descreveu o cenário atual como uma “situação grave” e foi categórica ao afirmar que, embora a cooperação militar e os investimentos em defesa sejam bem-vindos para frear o avanço russo e chinês no Ártico, a soberania dinamarquesa sobre a ilha permanece inegociável. Por sua vez, Nielsen reforçou que nenhum pacto terá validade sem a aprovação direta do povo groenlandês.
“O que presenciei hoje em Nuuk foi uma tentativa clara de Copenhague de reafirmar sua presença e dar um suporte aos locais, tentando baixar a temperatura após as investidas de Washington. A mensagem central é de que a Groenlândia faz parte da família dinamarquesa e da OTAN, mas o desafio econômico persiste. Como manter essa soberania sem abrir mão dos vultosos investimentos que as grandes potências estão oferecendo agora?”, conclui Charles Mendlowicz.
- Charles Mendlowicz é um dos principais nomes do mercado financeiro brasileiro, com 30 anos de experiência e um histórico de sucesso entre o mercado financeiro e o varejo. É sócio da consultoria de wealth management Ticker Wealth, onde lidera a estratégia de expansão, e autor do best-seller “18 princípios para você evoluir”. Sua abordagem direta e transparente o consagrou como um influenciador confiável, tendo sido eleito o melhor influenciador de investimentos pela ANBIMA por quatro vezes.
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