Campinas registrou um aumento de 56% nas denúncias de racismo feitas ao Disque 100 no primeiro semestre de 2026. De acordo com um levantamento do serviço, o município passou de 16 registros entre janeiro e junho de 2025 para 25 no mesmo período deste ano. O crescimento acompanha uma tendência observada em todo o estado de São Paulo, que também teve alta no número de denúncias.
No estado, o Disque 100 recebeu 646 denúncias de racismo entre janeiro e junho de 2026, contra 482 registradas no mesmo período de 2025. Ou seja, um aumento de 34%.
Outra cidade da região que apresentou crescimento foi Piracicaba. No primeiro semestre de 2025, o município teve apenas uma denúncia registrada na plataforma. Já nos seis primeiros meses deste ano, foram oito casos.
Episódios recentes
O aumento nos registros ocorre em meio a episódios recentes de racismo na região. Na última segunda-feira (20), dois integrantes da comissão técnica da equipe sub-20 do Guarani foram alvos de ofensas racistas durante uma partida dos Jogos Regionais, em Itatiba.
O time representava Campinas na competição quando um torcedor da equipe da casa cometeu as ofensas. A partida ficou paralisada por mais de duas horas e um boletim de ocorrência foi registrado, mas o autor do crime não foi identificado.
Quem também foi vítima de racismo foi o filho de 13 anos do empresário Luiz Fernando Mariano Mateus. Ele contou em entrevista à EPTV Campinas que o jovem foi alvo de ofensas na sala de aula. Neste caso, o autor dos insultos foi um colega de classe.
“Ele foi pegar a borracha com o aluno da classe lá dele, né? Quando ele virou as costas, ele ouviu a palavra ‘macaco’ e isso mexeu muito com ele. Ele foi direto na diretora, conversou com a diretora, contou o que tinha acontecido e tal. E a escola acionou os protocolos para educar o autor das ofensas”, contou Luiz.
Já o auxiliar administrativo Gabriel Henrique Domiciano ficou tão traumatizado com um episódio de injúria racial, que decidiu trancar o curso na faculdade.
“Fiz uma boletim de ocorrência para registrar o crime. Porém, é claro que a gente faz tudo isso com muita tristeza, assim, no coração, né? Primeiro, pelo trauma que a gente vive. Eu resolvi trancar a minha matrícula na faculdade, porque eu realmente não tinha condições psicológicas de voltar. Eu até ainda tentei ir outras vezes depois do que tinha acontecido, mas eu tinha muito medo mesmo de passar a pé pelo portão da faculdade e ser perseguido novamente”, relatou.
Pessoas estão denunciando mais
De acordo com o advogado Tagino Alves dos Santos, vice-presidente da Comissão da Verdade sobre a Escravidão Negra no Brasil da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), a Lei de 2023 que equiparou injúria racial ao racismo está entre as responsáveis pelo aumento das denúncias.
“Com essa Lei que equipara o crime do racismo à injúria racial acabou sendo possível você punir o agente do crime, entende? E por conta disso as pessoas começaram a acreditar no sistema judiciário, que aquela denúncia, aquela reclamação poderia resultar numa penalidade. Então isso acaba sendo um grande fator de termos hoje um número elevado de denúncias dos atos racistas”, disse.
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Racismo ou injúria racial?
De acordo com Tagino, a injúria racial acontece quando uma pessoa ataca a outra de forma individual. Já o crime de racismo é constatado quando o ataque acontece contra a etnia como um todo.
“Veja que a legislação ela tipifica de maneira diferente, mas hoje os dois são equiparados. A diferença grande é que no crime de injúria racial depende da vontade da vítima. A vítima tem seis meses para representar. Ela precisa dizer que quer processar o agente do crime. No crime de racismo não. É uma ação penal incondicionada, ou seja, não depende daquela condição de representação da vítima. O poder público, o Ministério Público toca o processo normalmente”, explicou o advogado.
Tagino destacou a necessidade de políticas públicas voltadas à população preta e também de melhor acesso tanto à educação quanto a oportunidades de trabalho.
“Não se pode tratar como normal você considerar um negro em um grau de inferioridade ao branco em uma relação de trabalho, por exemplo. Nós precisamos eliminar isso”, finalizou.

Disque 100
O Disque 100 é um serviço do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania que recebe denúncias relacionadas a violações de direitos humanos, especialmente as que atingem populações em situação de vulnerabilidade social.
O serviço funciona 24 horas por dia, incluindo sábados, domingos e feriados. De acordo com a pasta, as ligações são gratuitas e podem ser feitas por meio de discagem direta de qualquer terminal telefônico fixo ou móvel. Basta discar 100.
*Com informações da EPTV Campinas
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