Quem frequenta a Lagoa do Taquaral, em Campinas, pode ter se deparado com uma cena inusitada nas últimas semanas: um homem correndo vestido de Saci. A imagem chamou a atenção de um influenciador que passava pelo parque, virou vídeo nas redes sociais e ultrapassou 100 mil visualizações. Mas, por trás da fantasia, existe uma história que vai muito além da curiosidade.
O personagem é Carlos Exaltação, morador de Campinas desde 2012. Corredor há mais de uma década, ele encontrou no Saci uma forma de valorizar a cultura brasileira e, ao mesmo tempo, levantar um debate sobre identidade, ancestralidade e racismo.
“Foi uma forma simbólica e didática que eu encontrei de trazer esse personagem e expressar alguns acontecimentos da nossa vida real, de pessoas pretas que acabam sendo invisibilizadas e marginalizadas. É um ato político de ocupar espaços de poder e de visibilidade“, afirma.
Carlos corre na Lagoa do Taquaral há cerca de 12 anos, mas vestido de Saci apenas duas vezes. A fantasia estreou durante as comemorações do aniversário de Campinas e rapidamente chamou a atenção de quem passava pelo parque.
Segundo ele, a repercussão foi uma surpresa.
“Eu não esperava que tivesse todo esse impacto. Algumas pessoas ficaram um pouco assustadas, porque eu saí muito cedo e fazia muito frio. Outras acharam bem legal. As reações foram bem espontâneas.”
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A fantasia foi confeccionada pela esposa de Carlos, que é pedagoga e costureira. A ideia foi aprovada logo de início e acabou ganhando vida justamente para unir esporte, cultura e reflexão.

Resgate do folclore brasileiro
Além da mensagem sobre representatividade, Carlos acredita que o o personagem pode ajudar a aproximar as pessoas da cultura nacional.
Ele lamenta que muitos personagens do folclore tenham perdido espaço entre as novas gerações e defende um resgate dessas histórias.
“Nós precisamos criar uma identidade verdadeiramente brasileira. Hoje a gente importa muitas referências de outros países, mas precisa valorizar um pouco mais a nossa própria cultura.“
A identificação com o personagem também é pessoal.
“Eu tenho muita identificação com ele. Acredito que as pessoas pretas acabam sendo colocadas nesses lugares, e essa foi a forma que encontrei de simbolizar isso.”
O Saci e a luta contra a invisibilização
Embora seja conhecido popularmente como um menino travesso de uma perna só, o Saci tem uma origem que vai além das histórias infantis.
De acordo com o historiador Guilherme Oliveira da Silva, doutorando em História da África pela Unicamp, o personagem nasceu durante o período colonial a partir do encontro entre crenças indígenas e africanas.
O próprio nome “Saci Pererê” tem origem na língua tupi, enquanto suas características foram sendo incorporadas a partir dos saberes dos povos iorubás, da atual Nigéria, que cultuavam uma entidade espiritual de uma perna só ligada às ervas, à natureza e aos conhecimentos ancestrais.
Com a convivência forçada entre indígenas e africanos escravizados, essas tradições se misturaram e deram origem ao personagem que atravessou gerações no imaginário brasileiro. Para o pesquisador, o Saci também passou a simbolizar uma forma de resistência diante da violência imposta pela escravidão.
“Esse encontro de culturas acaba personificando no Saci um símbolo que utiliza a magia e a traquinagem como forma de resistência. Diante da violência dos senhores de engenho e dos barões do café, ele era visto como aquele que podia atrapalhar, causar incômodo e devolver, de forma simbólica, parte da opressão que era imposta às populações escravizadas. Ao longo do tempo, ele passa a representar grupos historicamente oprimidos e marginalizados”, explica Guilherme.
O historiador afirma que essa interpretação também ajuda a compreender por que o personagem passou a ser associado à população negra. Segundo ele, o Saci representa um menino negro que desafia a ordem estabelecida, contrariando estereótipos e transformando a irreverência em uma forma de resistência.
“Quando pensamos na formação do Brasil marcada pela exclusão e pela marginalização da população negra, a narrativa do Saci dialoga diretamente com essa realidade”, completa.
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É justamente essa leitura que Carlos busca levar para as ruas.
Para ele, vestir a fantasia durante as corridas é uma maneira de ocupar espaços, despertar a curiosidade das pessoas e incentivar conversas sobre temas que normalmente não surgem em um parque.
Enquanto o vídeo continua circulando pelas redes sociais, o “Saci do Taquaral” já faz planos para novos desafios. Carlos pretende participar de corridas de longa distância vestido de Saci e seguir levando, a cada quilômetro, uma mensagem de valorização da cultura brasileira, identidade e resistência.
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