Imagine consumir um pão feito com um trigo cultivado praticamente da mesma forma há milhares de anos. Essa é a proposta do trigo espelta, um cereal considerado ancestral e que preserva características das primeiras variedades de trigo utilizadas pela humanidade.
Cultivado há mais de 8 mil anos, ele é considerado um dos trigos mais antigos da humanidade. Durante séculos, foi um dos principais cereais consumidos na Europa, até perder espaço para variedades mais produtivas desenvolvidas pela agricultura moderna.
Agora, esse ingrediente milenar volta a aparecer em pães e ajuda a colocar novamente em evidência um cereal que praticamente preservou suas características ao longo da história.
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Pão com trigo espelta
O reaparecimento da espelta foi visto recentemente em lançamentos apresentados durante a FIPAN 2026, maior feira de panificação da América Latina.
Entre eles está o IREKS Pão Espelta Ancestral, elaborado com farinha de espelta, massa madre e maltes. O produto é um exemplo de um movimento que reúne ingredientes tradicionais, fermentação natural e pães integrais.
Esse interesse também acompanha uma mudança no comportamento do consumidor. Segundo levantamento da HealthFocus International, reunido pelo Whole Grains Council, metade dos consumidores demonstra interesse pelos chamados grãos ancestrais. Entre eles, mais de 20% afirmam estar dispostos a pagar mais por alimentos produzidos com esses ingredientes.
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No Brasil, dados da Associação Brasileira da Indústria de Panificação e Confeitaria (ABIP) e da Euromonitor mostram que a panificação artesanal e os produtos de fermentação natural crescem acima da média do setor.
O que faz da espelta um grão ancestral?
Segundo a professora Maria Teresa Pedrosa Silva Clerici, do Departamento de Ciência de Alimentos e Nutrição da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, os chamados grãos ancestrais passaram por pouco melhoramento genético ao longo da história.
“Os grãos ancestrais apresentam características menos padronizadas que os grãos comerciais. O maior valor deles está no fato de terem resistido a muitos desafios climáticos ao longo de milhares de anos”, explica.
No caso da espelta, isso significa que sua estrutura genética permaneceu muito próxima das primeiras variedades cultivadas pelo homem.
O cereal começou a ser cultivado por volta de 5.000 a.C., no Oriente Médio e na Europa Central, e foi um dos principais trigos consumidos durante a Idade Média, antes de perder espaço para cultivares desenvolvidos para oferecer maior produtividade no campo.
O que muda em relação ao trigo comum?
Apesar de pertencerem à mesma família, o trigo espelta e o trigo comum apresentam diferenças importantes.
A principal delas está na estrutura do grão. A espelta possui uma casca mais resistente, que permanece aderida após a colheita e exige uma etapa de descascamento antes da moagem.
Segundo Maria Teresa, essa proteção natural ajuda o cereal a resistir melhor ao ataque de pragas e às variações climáticas.
Outra característica está no sabor. Segundo a professora, a farinha de espelta costuma produzir pães, massas, bolos e biscoitos com um sabor mais intenso.
De acordo com a IREKS, foi justamente esse perfil que motivou o desenvolvimento de produtos como o pão de espelta apresentado pela empresa na FIPAN. A receita combina farinha integral de espelta, massa madre e maltes, valorizando as características naturais do cereal.
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O trigo espelta é mais saudável?
A fama de alimento mais saudável fez o cereal ganhar espaço entre consumidores, mas a professora explica que essa comparação deve ser feita com cautela.
Segundo ela, boa parte dessa percepção está ligada ao fato de a espelta ser utilizada, na maioria das vezes, na forma integral.
“A ciência já sabe que os grãos integrais são mais benéficos para a alimentação. Porém, quando comparados à farinha integral de trigo comum, os benefícios tendem a ser praticamente os mesmos”, afirma.
Ela explica que o resultado nutricional depende também dos demais ingredientes presentes no alimento e da forma como ele é produzido.
Por que ele não é cultivado no Brasil?
Apesar de começar a aparecer em produtos vendidos no país, o trigo espelta não possui cultivo comercial no Brasil.
Segundo Maria Teresa, isso acontece porque a planta é adaptada aos invernos rigorosos da Europa e ainda não passou pelos mesmos programas de melhoramento genético que transformaram o trigo comum ao longo das últimas décadas.
“O trigo espelta ainda não se adaptou às nossas condições climáticas, que apresentam temperaturas mais altas que as do inverno europeu, o que dificulta seu plantio para fins comerciais”, explica.
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