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Que fim levou a Miura, marca brasileira de carros que “falavam”?

por SampaNews 31 de janeiro de 2026
31 de janeiro de 2026
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A indústria automotiva brasileira sempre teve dificuldades de se estabelecer, tanto pelas dificuldades de concorrer com gigantes estrangeiras quanto pela complexidade desse tipo de negócio. Ainda assim, é possível encontrar histórias de marcas nacionais que fizeram sucesso e marcaram época.

Para além de nomes como Gurgel e Puma, outra montadora fez barulho a partir do fim dos anos 1970: a gaúcha Miura, que fabricava carros esportivos praticamente de forma artesanal.

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Com diferenciais que incluam até sintetizador de voz e controle-remoto, ela virou sonho de consumo de diferentes gerações de entusiastas de automóveis e tem uma história que, embora seja breve, ajuda a explicar o mercado brasileiro do fim do século XX.

A criação e evolução da Miura

A Miura é um projeto de dois gaúchos: Iltemar Gobbi e Aldo Besson. A dupla se conheceu quando já existia a empresa Aldo Auto Capas, fabricante de acessórios automotivos e itens como bancos reclináveis e interiores personalizados.

Desse empreendimento nasce em 1974 a Besson, Gobbi e o sonho de construir um carro esportivo brasileiro de alto desempenho e aerodinâmica para uso urbano, feito sob encomenda. 

Os fundadores ao lado de carros da marca. (Imagem: Reprodução/Besson Gobbi)

A marca Miura nasce oficialmente em 1977, quando um protótipo é exibido pela primeira vez no Salão do Automóvel. O nome deriva de uma raça de touros, mas é difícil não pensar também em uma possível inspiração na Lamborghini Miura, lançada uma década antes. 

]Os veículos da montadora gaúcha, que foram os primeiros fabricados no estado, eram os chamados “fora-de-série“: carros de produção limitada, que não são fabricados em ritmo industrial. Isso significa poucos exemplares vendidos e, normalmente, um preço alto cobrado do consumidor.

O período de vendas do Miura é o mesmo de restrições para que montadoras estrangeiras atuassem no país, o que tornou essa uma alternativa viável para quem desejava um carro esportivo de design chamativo — modelos de Porsche e Lamborghini, por exemplo, não podiam ser adquiridas facilmente nesse período.

Aos poucos, o Miura virou o sonho de consumo do brasileiro e um carro inicialmente restrito para celebridades, como apresentadores de TV, cantores e atletas.

E, para além do visual com carroceria de fibra de vidro, faróis escamoteados e interior elegante, alguns Miura traziam tecnologias futuristas. Modelos mais avançados trouxeram recursos como um controle-remoto para dar partida, uma barra de neon como iluminação auxiliar e até um computador de bordo.

O destaque nesse setor, porém, era a capacidade que o carro tinha de “falar” com o motorista. Ele fazia isso a partir de um sintetizador de voz, outra novidade da época. A voz do veículo avisava fazia alertas sobre colocar o cinto de segurança, abastecer o veículo ou checar o óleo do motor.

Os carros lançados pela montadora gaúcha

Ao todo, a Miura produziu e lançou 11 entre 1977 e 1992, além de fazer atualizações anuais em algumas das linhas. Os principais modelos foram os seguintes:

  • 1977: Miura Sport, o primeiro carro da montadora, com motor Volkswagen refrigerado a ar e estrutura em fibra de vidro;
  • 1979: Miura MTS, que tinha um motor do Passat TS como destaque interno;
  • 1980: Miura Sport II, uma leve evolução em relação ao modelo original;
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Miura Sport. (Imagem: Lexicar Brasil/Reprodução)

1983: Miura Targa, carro com motor e tração dianteiros e um chassi renovado;
1983: Miura Spider, um conversível com apenas dois lugares;
1983: Miura Kabrio, uma versão menos sofisticada, sem faróis ocultos e que vendeu poucas unidades;
1984: Miura Saga, um modelo de luxo com porta malas com abertura elétrica, computador de bordo e interior de couro, além de iluminação com neon azul nos para-choques e o sintetizador de voz;

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Miura Spider. (Imagem: Miura Clube SP/Reprodução)
  • 1986: Miura Saga 787, com aerofólio na tampa do porta-malas e mais equipamentos internos;
  • 1987: Miura X8, com nova carroceria, parachoques com neon e reaproveitando recursos como o computador de bordo e o sintetizador de voz;
  • 1988: Miura Saga II, com novo motor e controle-remoto para dar partida;
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O X8. (Imagem: Reprodução/Miura)
  • 1989: Miura Top Sport, com frente arredondada, injeção eletrônica no motor e freios ABS, que eram uma novidade na indústria nacional;
  • 1991: Miura X11, o último esportivo da fabricante
  • 1992: BG Truck, picape de cabine dupla ainda em fibra de vidro;

O que aconteceu com a Miura?

A trajetória da companhia, porém, teve um destino parecido com o de outras marcas nacionais: uma perda repentina de mercado logo no início da década de 1990, seguida pela falta de suporte para lidar com uma nova concorrência.

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Uma das unidades da Miura. (Imagem: Reprodução/Maxicar)

O período é marcado pela abertura do mercado brasileiro para marcas estrangeiras pelo então presidente Fernando Collor, em uma medida que trouxe ao país multinacionais até então proibidas ou que tinham o acesso dificultado ao consumidor local. Isso ocorreu tanto com eletrônicos quanto no setor automotivo.

A Miura perdeu o pouco mercado que tinha para marcas de fora que também lançavam modelos esportivos e de luxo. Em 1992, ela até tentou mudar de segmento com o BG Truck, uma picape de cabine dupla. Porém, o projeto já não era mais sustentável financeiramente e a montadora gaúcha encerrou a fabricação dos carros neste mesmo ano.

A marca entregou a picape por mais três anos via encomenda e até obteve a representação local de modelos de importação, como carros da Subaru. Porém, a Miura deixou de existir como fabricante e terminou a trajetória com cerca de 3.500 carros produzidos — número baixo para os padrões de grandes indústrias, mas apropriado para uma fabricação quase artesanal.

Em 2007, o que restava da Miura foi adquirido pela empresa Rangel & Lima, também do setor automotivo. Dois futuros modelos chegaram a ser anunciados no período, o Miura M1 e o M2, mas o projeto atrasou e a pandemia da covid-19 enterrou o sonho do relançamento da marca.

Aldo, que em toda a trajetória da marca cuidava da administração da empresa, faleceu em 2011. O sócio Gobbi, que depois de alguns modelos assumiu todo o desenvolvimento do projeto e a produção, morreu em 2020. Ambos são lembrados até hoje no setor, com um carinho especial por fãs do RS.

Já os Miura hoje são peças desejadas de colecionadores, com entusiastas reunidos em comunidades virtuais ou encontros presenciais para falar da marca e exibir os seus modelos.

Quer conhecer a história da Gurgel, outra montadora brasileira que deixou saudades? Confira a trajetória neste vídeo!

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