Em um tempo em que mensagens são enviadas em poucos segundos pelo celular, quase 400 estudantes de Campinas estão vivendo uma experiência que exige algo diferente: sentar, escrever à mão, colocar uma pergunta no papel e esperar por uma resposta.
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Alunos do 6º ano da rede municipal de ensino estão participando do projeto Cartas Exploratórias de Ciência, uma parceria entre a Secretaria Municipal de Educação de Campinas e o Museu de Ciências Exploratórias da Unicamp. A iniciativa aproxima os estudantes de professores, pesquisadores e alunos de graduação e pós-graduação da universidade por meio de cartas manuscritas.
A proposta vai além do exercício de escrita. Ao colocar uma dúvida no papel, os alunos também têm a oportunidade de conhecer quem está por trás da produção científica e descobrir diferentes caminhos profissionais dentro da universidade.
Projeto Cartas: uma pergunta que vira conversa
A participação dos estudantes começou no fim de maio, durante o evento Viva Ciência na Unicamp. Naquele momento, os alunos foram convidados pelas escolas a escrever cartas para pesquisadores da universidade.
As perguntas poderiam partir de dúvidas, interesses e percepções sobre diferentes áreas do conhecimento, como ciências biológicas, exatas, humanas e sociais.
Do outro lado da correspondência, professores, pesquisadores, estudantes de pós-graduação e de iniciação científica receberam a missão de responder às crianças não apenas explicando temas científicos, mas também contando um pouco de suas próprias trajetórias, experiências e das razões que os levaram a escolher a ciência.

O resultado foi a produção de quase 400 cartas, que foram respondidas pelos integrantes da comunidade universitária e devolvidas à Secretaria Municipal de Educação. As respostas começam a chegar às escolas a partir da próxima semana.
Para o coordenador adjunto do Museu de Ciências Exploratórias da Unicamp e professor do Instituto de Biologia, Guilherme Oliveira Barbosa, a adesão superou as expectativas.
“Ficamos bem contentes com a participação das escolas, foi extremamente favorável.”
Segundo Barbosa, cerca de 25% dos participantes do Viva Ciência aderiram à proposta. A ideia é que a experiência possa ser ampliada com novas ações pedagógicas no próximo ano.
Ciência também se escreve à mão
A experiência também resgata uma forma de comunicação que perdeu espaço no cotidiano: a carta manuscrita.
Para Mariana Volpato, assessora de projetos educacionais da Secretaria Municipal de Educação de Campinas, o projeto une aprendizado, curiosidade e uma dimensão afetiva.
“Além de ampliar o repertório dos alunos, permitindo conhecer diferentes áreas do conhecimento, o projeto fortalece o aprendizado da escrita”, explica.
Segundo ela, a troca de correspondências ajuda a criar uma relação mais próxima entre os estudantes e as pessoas que produzem ciência.

“É uma ação que promove o diálogo científico de forma criativa e acessível para aproximar a comunidade escolar da universidade. No tempo em que vivemos, escrever uma carta e aguardar a resposta é uma experiência carregada de sentimentos”, afirma.
Projeto começou em 2025
A ideia de aproximar crianças e cientistas por meio de cartas surgiu em 2025, quando o Museu Exploratório de Ciências da Unicamp realizou uma experiência-piloto com cerca de 100 estudantes do 5º ao 9º ano de um colégio particular.
Neste ano, a iniciativa foi ampliada para a rede municipal de Campinas.
O projeto foi inspirado no Cartas Com Ciência, iniciativa educacional da qual Guilherme Barbosa participou em 2020. A proposta original estimulava a troca de correspondências entre pessoas de países de língua portuguesa para conversar sobre ensino superior e carreiras científicas.
Na época, o professor da Unicamp chegou a trocar cartas com um estudante de Cabo Verde.
Como transformar ciência em conversa com crianças
Para adaptar a iniciativa ao público infantil, o projeto contou com a participação da estudante Daniela Cristina da Silva, do Instituto de Biologia da Unicamp.
Ela desenvolveu um treinamento para ajudar os cientistas a adaptar a linguagem utilizada nas respostas e torná-la mais adequada ao diálogo com crianças. Daniela também foi responsável pela criação da identidade visual do Cartas Exploratórias de Ciência.
“É o contraste entre escrever com jargões acadêmicos e depois se comunicar de forma que qualquer estudante consiga entender”, explicou.
Para Barbosa, a simplicidade é justamente uma das forças da proposta.
“A carta manuscrita valoriza a parte humanística. É um projeto barato e que tem muito a oferecer”, afirma.
Entre perguntas sobre ciência, relatos pessoais e histórias de quem escolheu seguir uma carreira científica, a iniciativa cria uma ponte pouco comum entre a escola e a universidade.
E, talvez mais importante, mostra aos estudantes que por trás de uma pesquisa, de uma descoberta ou de uma sala de aula existe uma pessoa — alguém que também teve dúvidas, fez escolhas e um dia precisou descobrir qual caminho queria seguir.
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