O relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), divulgado nesta quinta-feira (23), também analisou a atuação da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) na fiscalização da Voepass nos anos que antecederam o acidente que matou 62 pessoas em Vinhedo em agosto de 2024.
Entre janeiro de 2022 e agosto de 2024, a Anac realizou diversas ações de vigilância na companhia, incluindo inspeções na base principal, em bases secundárias e nos processos de manutenção das aeronaves.
Durante as fiscalizações, a agência identificou uma série de irregularidades, entre elas fragilidades no controle da manutenção, liberações técnicas irregulares de aeronaves, danos nos boots do sistema Airframe De-Icing, pneus operando além do limite de desgaste e falhas na supervisão dos serviços de manutenção — ou, em alguns casos, indícios da ausência dessa supervisão.
Segundo o relatório, essas não conformidades representavam riscos à segurança operacional.
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Medidas da Anac incluíram suspensão de aeronaves e afastamento de funcionários
As irregularidades levaram a Anac a adotar medidas administrativas contra a companhia.
De acordo com o Cenipa, as sanções variavam conforme a gravidade e a quantidade de não conformidades identificadas e incluíam o afastamento de funcionários, além da suspensão cautelar de aeronaves e de rotas.
O pico das restrições ocorreu em abril de 2023, quando oito aeronaves da Voepass foram suspensas simultaneamente.
Comissão aponta falhas no gerenciamento de riscos da Anac
Apesar das ações de fiscalização, a Comissão de Investigação concluiu que as condições de risco identificadas ao longo dos anos não foram plenamente incorporadas ao processo de gerenciamento de riscos da própria Anac.
Segundo o relatório, faltou suporte adequado para embasar decisões estratégicas voltadas à mitigação e ao controle dos riscos no ambiente operacional fiscalizado.
Os investigadores também afirmam que os mecanismos de tratamento, monitoramento e gerenciamento das informações relacionadas a essas condições ainda estavam em processo de amadurecimento.

Na avaliação da comissão, esse cenário permitiu que a Voepass continuasse operando mesmo diante da degradação gradual dos níveis de segurança operacional, contexto que, segundo o relatório, contribuiu para as condições identificadas na investigação do acidente.
O que a empresa diz?
Em nota a empresa informou que a apresentação do relatório do Cenipa foi concluída há pouco e que a empresa ainda não teve acesso à íntegra do documento.
Após analisar o relatório final, a companhia divulgará um posicionamento oficial.
Anac diz que analisará recomendações do Cenipa após divulgação de relatório
A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) informou que fará uma análise técnica detalhada das conclusões e recomendações apresentadas pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) no relatório final sobre o acidente com o avião da Voepass.
Em nota, a agência voltou a prestar solidariedade aos familiares e amigos das 62 vítimas da tragédia ocorrida em 9 de agosto de 2024, em Vinhedo, e afirmou que a segurança do transporte aéreo continua sendo sua principal missão.
Segundo a Anac, o relatório será encaminhado oficialmente pelo Cenipa e, a partir do recebimento do documento, terá início a análise das recomendações relacionadas às competências da agência. O prazo para conclusão desse trabalho é de até 120 dias.
A agência ressaltou que as investigações conduzidas pelo Cenipa têm caráter exclusivamente preventivo e não buscam atribuir culpa ou responsabilidade pelo acidente, mas identificar fatores contribuintes e propor medidas para aprimorar a segurança operacional da aviação civil.
Histórico
A Anac também relembrou que acompanhou a assistência prestada às famílias das vítimas e forneceu todas as informações solicitadas pelo Cenipa e pelos demais órgãos responsáveis pela investigação.
Após o acidente, a agência intensificou as ações de fiscalização sobre a Voepass. Em 11 de março de 2025, determinou a suspensão das operações da companhia e, em 24 de junho de 2025, cassou o Certificado de Operador Aéreo (COA) da empresa.
De acordo com a Anac, a decisão foi tomada porque a Voepass não conseguiu corrigir as irregularidades identificadas durante as fiscalizações realizadas pela agência.
A Anac informou ainda que todas as notas oficiais relacionadas ao caso permanecem disponíveis em seu portal oficial.
Relatório do Cenipa aponta falhas de manutenção e omissão de panes antes da queda do avião da Voepass
O relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) revelou uma série de falhas no controle de manutenção da Voepass, além da ausência de registros obrigatórios de panes no sistema de proteção contra gelo da aeronave que caiu em Vinhedo, em agosto de 2024, deixando 62 mortos.
Segundo os investigadores, diferentes tripulações operaram o avião após sucessivas falhas no sistema antigelo sem registrar oficialmente as ocorrências no diário de bordo, prática considerada fundamental para que equipes de manutenção avaliem as condições da aeronave antes de novos voos.
Durante a apresentação do relatório, nesta quinta-feira (23), o investigador responsável pelo caso, tenente-coronel Fróes, reforçou que a investigação teve caráter exclusivamente preventivo.
“O compromisso da investigação é com a preservação da vida humana”, afirmou.
Falha no sistema de degelo do avião da Voepass começou na véspera do acidente
O relatório mostra que, na noite anterior ao acidente, durante o voo entre Guarulhos e Ribeirão Preto (voo -3), a aeronave registrou detecção de gelo severo (leia matéria completa aqui)..

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