Sair do meio da Floresta Amazônica para cursar midialogia na Unicamp, em Campinas. Esse foi o percurso de Jeovane Ferreira Lima, natural da aldeia Yemapu-taki, no Amazonas, e que passou no primeiro Vestibular Indígena da Unicamp, em 2018.
Em 2019, ele chegou em Campinas para cursar Midialogia. Sete anos depois, em 2026, ele conquistou o título de Mestre em Artes Visuais, sendo um dos primeiros ingressos no Vestibular Indígena da Unicamp a se formar no mestrado da universidade.
“Escolhi ver e tentar levar a minha cultura para dentro desse curso, abordar um pouco mais sobre as culturas indígenas”
diz Jean sobre a escolha do curso e do mestrado.
Vontade de estudar
Jean conta que assim que terminou o Ensino Médio, seguiu com a vontade de estudar.
“É o objetivo, o sonho que eu tinha desde criança. Só que na região onde eu nasci é muito difícil ter acesso ao ensino superior. Antes do vestibular indígena não tinha como você conseguir entrar em uma universidade, porque a distância é muito grande”, explica.
Ele também conta que no Amazonas tem duas universidades públicas, a UFA (Universidade Federal do Amazonas) e a UEA (Universidade Estadual do Amazonas), mas a concorrência é muito grande.
“Eu sempre tentei fazer o vestibular, mas nunca tinha conseguido ser aprovado. Então, a oportunidade surge com a abertura do primeiro vestibular indígena da Unicamp. Eu não tinha esse conhecimento, mas com a ajuda dos meus amigos e irmãos, fiquei sabendo, me inscrevi e consegui passar. Foi uma abertura, uma porta que se abriu pra mim e me levou a outras oportunidades para seguir nessa carreira acadêmica”, diz Jean sobre como ficou sabendo das vagas na Unicamp.
Dificuldades ao chegar em Campinas
Ao chegar em Campinas, o período de adaptação de Jean não foi fácil. “Foi um choque sociocultural”, segundo ele.
“As minhas dificuldades quando eu cheguei em Campinas foram muitas, no início foi difícil, tudo era um contexto novo, um ambiente novo, tudo. Mas aos poucos eu fui me adaptando”, relata
Se não bastasse a mudança de cidade, Estado, Região, o contato com uma outra sociedade e cultura, a timidez também foi um problema enfrentado por Jean.
“Acho que o que mais tive dificuldade para me adaptar foi fazer amizades. Eu sempre fui muito tímido, não conseguia ter entrosamento com as pessoas, com os amigos, com os colegas do curso. Eu tinha muito esse receio de chegar na pessoa e conversar”, desabafa.
Outra dificuldade na adaptação do agora Mestre foi o clima, muito diferente em Campinas e no Amazonas.
“No Amazonas é um clima mais tropical e em Campinas não, tem uma época que faz muito frio. O ar seco também. Tudo foi novo para mim, mas aos poucos eu fui me adaptando”,
Acrescenta Jean
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Levando a Unicamp à aldeia
Uma das missões que Jeovane assumiu durante o curso de Midialogia foi levar a Unicamp à sua aldeia. Uma das maneiras foi realizando pesquisas na própria comunidade e incentivando a preservação das tradições de seu povo, Tariano.
“Uma coisa que já foi perdida foi a nossa língua. A gente fala outra língua, que é tukano. E, assim, eu levo esse treinamento dentro da aldeia, a fim de abrir a cabeça das pessoas para que eles possam entender e tentar manter essas tradições vivas”, revela.
Influência
Jeovane também conta que é o primeiro de sua aldeia a se formar no Ensino Superior e a terminar o mestrado. Por isso, se tornou referência e orgulho da comunidade.
“Acho que a maioria, jovens, têm esse objetivo, esse sonho de conseguir ingressar dentro de uma universidade, fazer um curso superior, mas aqui na região onde eu moro é muito difícil você ingressar. As oportunidades são muito poucas, na verdade. Com a abertura desses vestibulares indígenas, como da Unicamp, da Ufscar (Universidade Federal de São Carlos) e UnB (Universidade de Brasília), eles levam as provas para aplicar nos municípios mais perto dessas pessoas, dos povoados, das aldeias aqui no estado do Amazonas. Então isso facilita um pouco, assim, o ingresso de jovens indígenas na universidade”, ressalta
Pela sua trajetória, Geovane também se tornou uma espécie de conselheiro da comunidade, sendo convidado pelos pais para conversar com os filhos e incentivá-los a seguir nos estudos.
“Querendo ou não, a gente ganha uma influência, a gente ganha um destaque dentro da região. Então, é uma referência que eu acabo fazendo para que novas pessoas, jovens, indígenas, parentes de todo o estado do Amazonas, ou de todo o Brasil, consigam entrar também na universidade, ingressar em um curso que eles querem estudar”,
conclui Jean
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