D e certa forma, é um alívio ter o Caoa Changan Uni-T nestas páginas sem nenhum disfarce. Fazia alguns meses que recebíamos diversos flagrantes desse carro ainda com camuflagem por e-mail, WhatsApp e Instagram várias vezes por semana. Até o marido de nossa revisora, Rosi Melo, encontrou o carro rodando nos arredores de São Paulo.
Havia um bom motivo para toda essa exposição do carro nas ruas: o Uni-T já estreia com produção nacional e com uma série de alterações técnicas estéticas a fim de agradar, de cara, ao brasileiro, como o motor flex. Agora sabemos que mais de 100 protótipos foram usados em testes só no Brasil e a maioria das unidades flagradas por nossos leitores eram modelos montados por aqui.
Essa estratégia tem a ver com o fato de a chinesa Changan se associar à brasileira Caoa, para operar em nosso mercado. Mas a própria Changan não é uma estreante por aqui. A marca esteve no Brasil entre 2007 e 2012 por meio de importador (Districar), mas até 2011 seus furgões e picapes (carros de passeio ficaram só na promessa) foram vendidos com a marca Chana.
Esta é a segunda investida, agora com a Caoa, que encerrou o contrato com a Hyundai em 2025 e destinou parte da fábrica de Anápolis (GO) para o Changan Uni-T, enquanto outra ala segue com a montagem dos Chery.

A empresa brasileira também está responsável por vendas e pós-venda, mas Changan e Caoa dividem decisões comerciais e atividades de engenharia. Uma exigência da Caoa para estabelecer esta parceria foi ter seu nome agregado à marca chinesa, como faz com a Chery.
A escolha do carro para essa estreia ajuda a construir o posicionamento da Changan acima da Chery, que seguirá com seus SUVs tradicionais. O Caoa Changan Uni-T é um SUV cupê médio com dimensões equivalentes às de um Audi Q3 Sportback de nova geração: são 4,53 m de comprimento, 2,71 m de entre-eixos, 1,87 m de largura e 1,56 m de altura. É maior que SUVs médios como Jeep Compass, Toyota Corolla Cross, VW Taos e Renault Boreal.

O Caoa Changan Uni-T Infinity custa R$ 169.990. É a única versão disponível, mas existe a intenção de trazer outras mais acessíveis. O motor é um 1.5 turbo com injeção direta flex com 180 cv de potência e bons 29,2 kgfm de torque, sempre com câmbio de dupla embreagem úmidas e sete marchas.
Indo direto aos itens mais distintos do Uni-T para esta faixa de preço – que é a mesma SUVs médios tradicionais de entrada, como o próprio Caoa Chery Tiggo 7 Pro (R$ 176.990) –, há teto solar panorâmico, bancos dianteiros ventilados, aquecidos e com ajustes elétricos, câmera de monitoramento de atenção e cansaço do motorista, ar-condicionado automático bizona com dispersão de fragrâncias (há três opções), sistema de som com 11 alto–falantes, sendo dois no encosto de cabeça do motorista e um subwoofer, e porta-malas com abertura elétrica.

Ainda existem as assistências ao motorista (ADAS), como piloto automático adaptativo, frenagem de emergência (até mesmo em ré), monitor de pontos cegos, alerta de abertura de porta e centralização em faixa.
O que nenhum concorrente tem no Brasil é a possibilidade controlar o carro remotamente para entrar ou sair de uma vaga apertada, por meio da chave. Nesta função, o carro só anda reto: se o volante estiver virado, o carro alinha antes de se mover. A responsabilidade é do motorista, pois o veículo não segue os radares. É uma ajuda para quando não há espaço para abrir as portas, depois de estacionar.


O design é impactante. O SUV é largo e relativamente baixo, calçado com rodas aro 20”, com proporções de carros de luxo. A parte central do capô é mais baixa, formando um “V” junto com a grade (que faz parte do para–choque) e as luzes diurnas de led. Os faróis, full-led, ficam nas fendas laterais, que também direcionam o ar para as caixas de rodas.
Os cupês originais têm duas portas, mas faz 20 anos que os designers experimentam o mesmo caimento do teto em outras carrocerias. O Uni-T mimetiza os cupês com as maçanetas traseiras escondidas nas colunas C, as janelas traseiras pequenas e os para-lamas encorpados. A traseira respeita o estilo, com vidro estreito e tampa volumosa.


Se a carroceria ousa, a cabine não foge ao estilo típico chinês. A central multimídia de 12,8” levemente voltada ao motorista é diferente, mas apenas o seletor de modos de condução (Eco, Normal e Sport), comando do freio de estacionamento eletrônico (com auto-hold) e a partida do motor têm botões. A tela controla o ar-condicionado, a temperatura dos bancos e até os retrovisores. Para comprovar a tropicalização, o Uni-T já vem com Android Auto e Apple CarPlay sem fio.
O quadro de instrumentos digital de 12,3” tem a mesma qualidade, mas é subaproveitado: muda apenas as cores em função dos modos de condução, mas não os mostradores, com exceção para a barra do conta-giros, no canto esquerdo, que vira um econômetro, no modo Eco.

Brasileiros não usam muito os comandos de voz, mas o “Olá, Changan” desperta uma luz azul no topo do painel, como uma Alexa, que dá um pouco de vida ao assistente. Ali também se ilumina em verde com a seta, repetindo o lado do comando. Mais que isso: o barulho da seta só sai nos alto-falantes do encosto de cabeça, indicando o lado do comando.
Painel e todas as portas têm as partes superiores macias, seja por apliques emborrachados ou de vinil. É um vinil com toque e textura de pelica, que também reveste os bancos e ganha costuras azuis no Brasil. Os bancos dianteiros são muito bons em conforto e sustentação do corpo, mas os traseiros são como sofás, que afundam, deixando-os ainda mais baixos.

Conforto é bom, mas elementos como luz de neblina central traseira, aerofólio, as quatro saídas de escape, detalhes metalizados nos para-choques , rodas aro 20” com pneus Pirelli P-Zero 245/45 e o jeito de cupê vendem esportividade. E, de fato, este Changan não é um esportivo.
Em nossa pista, o motor de 180 cv fez o Caoa Changan Uni-T chegar aos 100 km/h em 8,3 s, ou 0,9 s mais tarde que o divulgado pela fábrica. Está longe de ser lento.
O mais importante é que o câmbio tem funcionamento suave nas arrancadas, diferente da maioria dos sistemas de dupla embreagem, mantendo as trocas rápidas quando o carro começa a embalar. E fica ainda melhor no modo Sport, com trocas tão mais tarde que a sétima marcha só dá as caras após os 180 km/h – a máxima é de 220 km/h.

Os grandes erros estão em não ter trocas sequenciais e no fato de, na inversão de marcha, sempre passar pelo neutro, obrigando a fazer dois movimentos no joystick. Para piorar o “parking”, parece a trava de movimentação presente em outros carros.
Outro pecado é o consumo: fez 9 km/l em regime urbano e 11,2 km/l no rodoviário, com gasolina. Há híbridos pelo mesmo preço, afinal.

O rodar do Uni-T é muito agradável, em virtude do acerto da suspensão (independente nas quatro rodas), da altura e das bitolas. O carro flerta com o conforto, mas é ágil nas curvas. Também tem pouca vibração e ruído do motor na medida certa na cabine.
Ainda há ajustes a serem feitos, mas este é um excelente começo para uma marca chinesa. Se a Changan e a Caoa mantiverem o cuidado de adaptar seus produtos ao Brasil, como fizeram com o Uni-T, têm a oportunidade de se sobressair frente às outras chinesas que, no final do dia, estão no Brasil com as mesmas ambições.
VEREDICTO – O Caoa Changan Uni-T se mostra um carro bom de dirigir, com design distinto, conteúdo de carro premium e pelo menos no lançamento, tem preço atraente.
★★★★☆
CONSTRUÇÃO E ACABAMENTO
O padrão de acabamento é realmente superior ao dos carros da mesma faixa de preço. Nota-se o cuidado no porta-malas, com dois níveis aveludados e uma grossa manta sob o estepe temporário.
★★★★★
TECNOLOGIA
Telas grandes, câmeras de visão 360° e sensores dianteiros e traseiros são bem-vindos. Mas o destaque é o 4 G ilimitado por dois anos e o “controle remoto” para estacionamento.
★★★★★
VIDA A BORDO
Os bancos são todos confortáveis e a largura da cabine ajuda nisso. Mas o grande assento traseiro precisava estar posicionado mais alto.
★★★★
RENDIMENTO
O desempenho é bom para um carro 1.5 turbo e o torque agrada. O câmbio de dupla embreagem é surpreendentemente suave, mas a falta de trocas sequenciais. O consumo do motor precisa melhorar.
★★★☆
COMPORTAMENTO DINÂMICO
O nível de vibração e ruído do Uni-T é um bom indicativo da sua aspiração premium. O acerto do carro prioriza o conforto e faz parecer flutuar um pouco em alta velocidade, mas as bitolas largas e a direção rápida deixam o carro ágil e estável em curvas.
★★★★☆
SEGURANÇA
SUV tem seis airbags e pacote ADAS completo. Os sistemas que puderam ser usados neste primeiro contato responderam a contento.
★★★★☆
SEU BOLSO
R$ 169.990 é preço de SUVs médios de entrada, mas o Uni-T tem porte e conteúdo superior às versões topo.
★★★★★
Ficha Técnica – Caoa Changan Uni-T
Motor: gasolina, dianteiro, transv., 4 cilindros, turbo, 16 válvulas, 1494 cm³, 180 cv (etanol/gasolina) a 4200–5500 rpm, 29,2 kgfm a 1500–4000 rpm
Câmbio: dupla embreagem, 7 marchas, tração dianteira
Suspensão: McPherson (dianteiro), multibraços (traseiro)
Freios: disco ventilado (dianteiro), disco sólido (traseiro)
Direção: elétrica, 11,5 m de diâmetro de giro
Rodas e pneus: 245/45 R20, Pirelli P-Zero
Dimensões: comprimento 4,54 m, largura 1,87 m, altura 1,57 m, entre-eixos 2,71 m, peso 1480 kg, vão livre 18 cm, porta-malas 425 litros; tanque 55 litros
Teste de Desempenho – Caoa Changan Uni-T
Aceleração
- 0 a 100 km/h: 8,3 s
- 0 a 1.000 m: 29,70 s / 175,7 km/h
- Velocidade máxima: 220 km/h
Retomadas
- 40 a 80 km/h: 3,4 s
- 60 a 100 km/h: 4,4 s
- 80 a 120 km/h: 5,5 s
Frenagens
- 60 km/h a 0: 14,4 m
- 80 km/h a 0: 25,2 m
- 120 km/h a 0: 56 m
Consumo
- Urbano: 9 km/l
- Rodoviário: 11,2 km/l
Ruído interno
- Neutro / RPM máx.: 43 / 60,8 dBA
- 80 km/h: 65,2 dBA
- 120 km/h: 69,9 dBA
Velocidade real a 100 km/h: 97 km/h
Rotação do motor a 100 km/h: 1900 rpm
Volante: 2,5 voltas


















