O Cepagri (Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura), da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), desenvolveu uma ferramenta inédita no país capaz de calcular o balanço de emissões de carbono na cultura do café. O recurso foi criado após quase três anos de pesquisas.
A pesquisa foi conduzida por uma equipe multidisciplinar do Cepagri, da Unicamp, sob coordenação da pesquisadora Renata Gonçalves. Também participaram do desenvolvimento os pesquisadores João Paulo da Silva, Priscila Coltri, Eduardo Assad, Jurandir Zullo Junior e Maria Leonor Lopes Assad.
A tecnologia foi criada em parceria com a Cooxupé (Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé), no sul de Minas Gerais, e permite mensurar tanto a emissão de gases de efeito estufa (GEE) quanto o sequestro de carbono ao longo de toda a cadeia produtiva.
A iniciativa integra o programa Protocolo de Sustentabilidade Gerações da cooperativa, que tem como meta promover boas práticas agrícolas com foco na sustentabilidade econômica, social e ambiental.
O que é a ferramenta?
A ferramenta é um sistema técnico que funciona como um inventário de carbono específico para a cafeicultura. Ela calcula quanto carbono é emitido e quanto é absorvido durante as diferentes etapas da produção do café, desde o preparo do solo até o beneficiamento do grão.
O modelo é o primeiro desenvolvido no Brasil direcionado exclusivamente ao café arábica, principal variedade cultivada no país. Ele também segue parâmetros alinhados ao GHG Protocol, padrão internacional criado pelo WRI (World Resources Institute) para inventários de gases de efeito estufa, mas adaptado à realidade da produção cafeeira.
Como a ferramenta funciona?
O sistema reúne dados inseridos pelo produtor e cruza essas informações com bancos técnicos já existentes. A partir disso, calcula-se o balanço final de carbono da propriedade.
Entre os fatores analisados estão:
- Aplicação de fertilizantes e outros insumos;
- Uso de combustível em máquinas agrícolas;
- Processos de beneficiamento;
- Manejo do solo;
- Idade das plantas;
- Características do relevo;
- Quantidade de matéria orgânica presente no solo.
Os pesquisadores realizaram coletas de amostras em campo, em diferentes áreas, extratos das propriedades, idades das lavouras e condições de relevo, além de análises laboratoriais para entender a dinâmica do carbono estocado no solo. Depois, cruzaram essas informações com o banco de dados histórico da cooperativa, que reúne amplo volume de análises de solo realizadas ao longo dos anos.
Com isso, foi possível estabelecer uma taxa de variação do carbono no solo e tornar o cálculo mais preciso.
Para que serve na prática?
Com os dados gerados, o produtor pode ajustar o manejo da lavoura para reduzir emissões sem comprometer produtividade e rentabilidade.
A ferramenta permite, por exemplo:
Identificar pontos de maior emissão;
Reduzir uso excessivo de fertilizantes;
Melhorar a qualidade do solo;
Aumentar o estoque de matéria orgânica;
Diminuir custos de produção;
Atender exigências ambientais do mercado interno e externo.
Segundo os pesquisadores, empresas compradoras têm exigido cada vez mais comprovação de práticas sustentáveis para manter contratos de exportação.
Relação com mudanças climáticas
O desenvolvimento da ferramenta também responde a um cenário de mudanças climáticas. Pesquisadores do Cepagri alertam há anos que o café pode sofrer impactos diretos com o aumento da temperatura.
Se a temperatura sobe muito durante o período de florescimento, por exemplo, aumentam as chances de abortamento floral. Além disso, eventos extremos como calor intenso, granizo, geadas severas e secas prolongadas têm ocorrido com maior frequência, provocando perdas nas lavouras nos últimos anos.
Esse contexto levou produtores a repensarem o manejo das plantações, buscando alternativas mais sustentáveis e resilientes.
Impacto na qualidade do café
De acordo com os pesquisadores, solos com maior teor de matéria orgânica apresentam melhor capacidade de troca catiônica, mecanismo que amplia a disponibilidade de nutrientes para as plantas.
Isso significa que:
- A planta absorve melhor os nutrientes;
- Há menor necessidade de adubação química;
- O custo de produção pode diminuir;
- A qualidade da bebida pode melhorar.
Segundo os pesquisadores, muitos cafés premiados utilizam técnicas que mantêm maior matéria orgânica no solo.
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Próximos passos
A partir de agora, a cooperativa vai formar técnicos multiplicadores para orientar os produtores na utilização da ferramenta e disseminar as funcionalidades junto às propriedades rurais.
A ferramenta representa um avanço na integração entre ciência, produção agrícola e sustentabilidade, oferecendo ao produtor dados concretos para tomar decisões mais eficientes e ambientalmente responsáveis.
Atualmente, a Cooxupé reúne cerca de 20 mil produtores e é uma das principais cooperativas do setor na América Latina. Minas Gerais concentra grande parte da safra nacional e possui área cultivada superior a 1 milhão de hectares. Segundo a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), 99% dessa área é destinada ao café arábica, variedade para a qual a ferramenta foi desenvolvida.
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