
A China tem estudado a guerra do presidente Donald Trump contra o Irã em busca de lições que possam ser úteis em um eventual conflito próprio no futuro, segundo autoridades ocidentais familiarizadas com o assunto, examinando as capacidades ofensivas dos EUA no momento em que Pequim vê o equilíbrio estratégico no Indo-Pacífico se deslocar a seu favor.
Pequim provavelmente está acompanhando de perto o desempenho militar americano no Irã e obtendo informações altamente valiosas, que quase certamente serão incorporadas aos seus planos para um eventual conflito em torno de Taiwan, disseram as autoridades, que pediram anonimato para tratar de tema sensível. Taiwan é uma ilha autogovernada que a China reivindica como parte de seu território — posição rejeitada por Taipé.
O Ministério da Defesa da China não respondeu a um pedido de comentário.
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Enquanto a China ainda calcula as consequências econômicas e diplomáticas da guerra, o presidente Xi Jinping provavelmente vê com bons olhos a distração dos EUA, que passam a concentrar mais atenção e recursos no Oriente Médio e menos no Indo-Pacífico, disseram os oficiais. Eles citaram a redistribuição de ativos militares do Pentágono da Ásia para o Irã como um motivo concreto para que os militares chineses vejam aspectos positivos no conflito.
A aparente vantagem para as Forças Armadas chinesas indica que um segundo adversário dos EUA está se beneficiando da guerra de Trump, depois de aliados americanos terem alertado que o presidente russo, Vladimir Putin, estaria emergindo inadvertidamente como vencedor graças à alta do petróleo e ao afrouxamento de sanções dos EUA.
Ao contrário da maior parte dos líderes do G20, Xi tem se mantido em silêncio em relação ao conflito que envolve um aliado importante da China, enquanto autoridades avaliam a real dimensão dos desdobramentos da guerra. Embora Pequim reitere há anos que Taiwan precisa ser trazida de volta ao seu controle, pela força se necessário, não há sinais de que esteja se preparando para fazer isso no curto prazo.
Xi também iniciou a maior campanha de expurgo de generais desde o fim do turbulento governo de Mao Tsé-tung, em 1976 — uma ofensiva anticorrupção que levanta dúvidas sobre o grau de prontidão do Exército de Libertação Popular para ir à guerra.
O ex-embaixador dos EUA na China Nicholas Burns disse nesta quarta-feira, em Londres, que Pequim tem demonstrado a “mesma atenção intensa” ao campo de batalha na Ucrânia nos últimos quatro anos e que “não é nada surpreendente” que seus militares tentem aprender com as ações dos EUA contra o Irã. Burns destacou a necessidade de Washington manter alinhamento militar estreito com aliados como Austrália, Japão e Filipinas.
“Manter a Europa engajada com os EUA e com os aliados asiáticos é realmente crucial”, disse Burns, em evento no think tank Chatham House. “Isso não é do interesse da China. Mas é o que mantém a China em desequilíbrio.”
Comentadores influentes na China, como Hu Xijin, ex-editor-chefe do tabloide Global Times, têm sido mais explícitos ao traçar paralelos com Taiwan. Hu escreveu na semana passada, no Weibo — uma rede social chinesa —, que a guerra de desgaste mostra como as capacidades militares dos EUA estão “estressadas”, mesmo com o Irã já enfraquecido por décadas de sanções.
“É realmente curioso que algumas elites americanas ainda falem com tanta pompa sobre enfrentar o Exército de Libertação Popular no Estreito de Taiwan”, escreveu.
Aliados dos EUA na Ásia estão em alerta enquanto o Pentágono continua despejando armas na guerra. Washington está enviando ao Oriente Médio uma unidade de até 2.400 fuzileiros navais baseada no Japão, junto com seu navio de comando que transporta um esquadrão de caças F-35 e helicópteros.
Paralelamente, o presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung, confirmou que os EUA podem ter de realocar sistemas de defesa aérea para a região, em meio a relatos de que o Pentágono estaria retirando lançadores de um sistema avançado de mísseis de parte da Ásia.
Segundo as autoridades, a China também vê com bons olhos a rápida depleção dos estoques de munição americanos nas três primeiras semanas do conflito com o Irã.
As forças dos EUA têm sido obrigadas a consumir parte relevante de seus inventários de interceptadores caros e difíceis de repor para conter a barragem iraniana, com drones Shahed-136 de baixo custo forçando americanos e aliados a usarem sistemas de proteção projetados principalmente para combater armas mais sofisticadas.
Os EUA não divulgaram estimativas oficiais de quanto a campanha está custando, e os dados públicos sobre seus estoques de mísseis são limitados. Parlamentares americanos foram informados de que os gastos somaram US$ 11,3 bilhões nos seis primeiros dias, segundo o New York Times. A alemã Rheinmetall AG, gigante do setor de defesa, estimou em US$ 4 bilhões o valor das munições usadas pelos EUA nas primeiras 72 horas da guerra, incluindo cerca de 400 mísseis de cruzeiro e 800 interceptadores de defesa aérea.
Para vozes nacionalistas chinesas de destaque, como o blogueiro Ren Yi — neto de terceira geração de um ex-líder do Partido Comunista conhecido online como “Chairman Rabbit” —, a realocação de ativos militares dos EUA indica fissuras na capacidade do Ocidente de projetar poder no entorno de Pequim.
Em uma longa postagem no X, Ren descreveu como aliados dos EUA passam a viver cada vez mais em um universo “Israel em primeiro lugar”.
“Isso demonstra uma hierarquia clara”, escreveu o neto, formado em Harvard, do ex-chefe do partido em Guangdong, Ren Zhongyi. “Israel está no topo, acima até dos interesses dos EUA.”
Ele acrescentou: “Os demais aliados e parceiros ficam na base, disputando as sobras.”
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