
Nos últimos cinco anos, os mercados globais foram sacudidos por vários conflitos internacionais. Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia até a recente intervenção dos Estados Unidos na Venezuela, bolsas, juros e moedas sofrem os impactos desses eventos, tornando o cenário geopolítico um fator de preocupação constante para analistas e gestores de recursos, exigindo cautela e a busca por mecanismos de proteção.
O cenário é mais preocupante diante da postura mais agressiva do presidente Donald Trump, que não tem filtros para ameaçar com o uso da força inimigos e até aliados que se oponham aos seus planos. O problema é como o investidor pode se proteger desse aumento de volatilidade.
Estudo feito pela Quantum Axis mostra como cada um desses eventos impactou os diversos mercados. E a conclusão é que os efeitos são bem diferentes, o que dificulta uma ação preventiva dos investidores.
No caso da invasão russa na Ucrânia, por exemplo, o impacto foi maior no petróleo e as bolsas tiveram poucas reações. Já nas demais crises, o petróleo chegou a cair nos dias seguintes, mesmo quando envolviam o Oriente Médio.
Já as bolsas americanas resistiram aos impactos do início da guerra na Ucrânia, e subiram na crise entre China e Taiwan, enquanto o Índice Bovespa disparou, mas os mercados acionários não reagiram tanto aos demais conflitos.
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| Evento | Invasão da Ucrânia | China/Taiwan | Hamas/Israel | EUA/Venezuela |
| Data | 24/02/2022 | 02/08/2022 | 07/10/2023 | 27/12/2025 |
| Período analisado | 21/2 a 3/3 | 26/7 a 9/8 | 29/9 a 16/10 | 26/12 a 9/1 |
| Petróleo Brent | 16,58 | -3,27 | -5,08 | 2,21 |
| WTI | 18,00 | -4,67 | -4,54 | 4,17 |
| Dólar/real | -1,02 | -4,45 | 1,08 | -3,08 |
| Dow Jones | -0,83 | 3,19 | 1,42 | 1,63 |
| Ibovespa | 3,08 | 8,90 | -0,03 | 1,54 |
| Nasdaq | -0,07 | 8,05 | 2,64 | 0,33 |
| S&P500 | 0,34 | 5,14 | 2,00 | 0,52 |
Historicamente, eventos geopolíticos têm impactos limitados no mercado, observa Ermínio Lucci, CEO da corretora BGC Liquidez. “Fora as duas grandes guerras mundiais, em que você teve uma destruição gigantesca de capital humano e de infraestrutura, os confrontos nos últimos 30 anos trouxeram pouco impacto nos mercados e com duração limitada”, diz.
E os principais ativos que reagiam a esses conflitos eram geralmente o petróleo, em especial em conflitos no Oriente Médio, por conta de uma possível ruptura do fornecimento. E outros ativos que se movimentavam ou chamavam a atenção em estresses geopolíticos eram o dólar e os títulos do Tesouro americano e ouro. “Então geralmente você tinha petróleo, ouro, dólar e títulos americanos que serviam de hedge e eram para onde os mercados corriam em guerras ou eventos geopolíticos de baixa média ou alta intensidade”, diz.
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Houve, porém, uma mudança na forma como os investidores buscam se proteger nesses momentos de estresse, avalia Lucci. Nos últimos anos, o petróleo vem perdendo relevância na matriz de crescimento mundial. E, a partir de 2025, ficou claro no caso da ação militar americana na Venezuela que o dólar e os Treasuries também começam a perder essa correlação com a demanda de investidores por proteção nesses eventos. Isso exacerbou a busca por proteção em ouro e em outros metais como prata, cobre e metais raros, afirma Lucci.
O confisco dos valores da Rússia no exterior também estimulou os bancos centrais a aumentar suas reservas em ouro, beneficiando o metal. “Se pegarmos o ano passado e este ano, houve naturalmente um aumento de risco geopolítico e a performance desses metais foi absurdamente alta”, diz.
Lucci aponta como principal fator para a menor busca por proteção em títulos do Tesouro americano e em dólar a situação fiscal americana. O governo dos Estados Unidos tem um déficit fiscal projetado para 2030 bem alto, de 5% a 6% do PIB. Há também todo o ruído da tentativa de interferência do presidente Donald Trump na condução do Federal Reserve, o Banco Central americano, e as constantes ameaças de tarifas ou até do uso da força mesmo contra aliados, como foi o caso recente da Groenlândia. “Então claramente os mercados entendem que os Treasuries e o dólar não são mais um porto seguro ou deixaram um pouco de ser”, diz o executivo.
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Na busca por outras moedas, ele vê o franco suíço assumindo o papel do dólar como porto seguro. “Houve um rebalanceamento dessa demanda por hedge geopolítico que antes era dividido entre dólar e títulos americanos para metais em geral, franco suíço e um pouco de petróleo”, diz. “Temos um mercado mais cauteloso hoje”, afirma Lucci.
Segundo ele, o Bitcoin chegou a ser visto como proteção, mas perdeu força diante das fortes oscilações, batendo US$ 126 mil e recuando para menos de US$ 70 mil. “O problema do Bitcoin é que é muito difícil você ter uma avaliação se está caro ou barato e até em precificar oferta e demanda”, diz.
Especulação maior
Marcos Praça, da Zero Hedge, destaca o papel da especulação e das emoções no caso das guerras e como elas acabam ampliando os movimentos de mercado, exigindo sangue frio do investidor para evitar o efeito manada, a tendência de seguir a atitude da maioria. “A análise imediata é crua e o grande investidor olha o que realmente vai ser afetado, qual o impacto e puxa a especulação”, diz. O que ocorre na maioria dos casos é uma especulação puxada por investidores de curto prazo e que só terá efeito se o conflito ocorrer.
Ele dá o exemplo do conflito no Irã e das ameaças dos Estados Unidos de atacar Teerã. “Tem impacto moral, social, mas não vai afetar os fundamentos das empresas nos EUA ou no Brasil”, diz. Para Praça, o investidor precisa olhar justamente o que muda nos fundamentos da economia e das empresas e evitar a especulação e o efeito manada. Ele diferencia esses movimentos dos chamados “cisnes negros”, grandes eventos que realmente mexem com os fundamentos da economia, como a crise financeira global de 2008.
Reações irracionais
O que chama mais a atenção nesse levantamento dos conflitos é que eles impactaram majoritariamente as commodities nas quais os países envolvidos têm algum tipo de interferência, seja na demanda, seja na oferta global, como petróleo e produtos agrícolas no caso da Guerra da Ucrânia, afirma João Daronco, analista da Suno Research.
O segundo ponto é que geralmente o mercado exagera nas avaliações de preços. “Se você pegar a invasão russa da Ucrânia, o petróleo chega próximo de US$ 120 por barril, mas depois ele tende a cair para as médias históricas ou próximo do que estava antes do conflito”, diz.
Segundo Daronco, esse exagero ocorre porque as pessoas ficam assustadas diante da incerteza e agem de maneira irracional, o que justifica grande parte da queda ou da subida. “Mas, posteriormente a esse movimento, se tem uma normalização, como ocorreu após a invasão da Venezuela pelos Estados Unidos, quando o petróleo caiu diante da expectativa de aumento da produção venezuelana, o que não se confirmou”, diz.
Evitar as ondas
Para Daronco, a lição para o investidor é que há momentos em que o mercado como um todo prevê algum tipo de evento ou crise que não se confirma no fim do dia. E muitas vezes as pessoas perdem dinheiro ao tentar sair do mercado. “Acho que a primeira lição é que sempre haverá crises, mas se perde muito mais dinheiro tentando antecipá-las do que nas próprias crises”, diz. “Vimos isso no fim de 2024, quando o receio com as contas públicas brasileiras fez o dólar disparar e a bolsa cair e muita gente vendeu ações e comprou dólar”, lembra. “Agora a Bovespa é uma das bolsas que mais sobe no mundo e o dólar está voltando para R$ 5,20”, diz.
Ele cita também o caso das tarifas de Trump em março do ano passado, que derrubou o índice S&P500 e dois meses depois a bolsa americana já tinha se recuperado. A segunda lição para o investidor é tomar cuidado tanto em momentos de estresse como de euforia. “O mercado como um todo é muito exagerado tanto para o lado positivo quanto para o negativo e o investidor não deve se deixar levar, não deve entrar nas ondas, o que é uma reação normal do ser humano, de seguir o grupo, o efeito manada, de ver todo mundo correndo e sair correndo também”, conclui.
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