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Como o 2º mandato de Trump redefiniu o comércio dos EUA e da América Latina

por SampaNews 18 de janeiro de 2026
18 de janeiro de 2026
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‘Em vez de tributar nossos cidadãos para enriquecer outros países, aplicaremos tarifas e impostos aos países estrangeiros para enriquecer nossos cidadãos”, disse Donald Trump em janeiro de 2025, no discurso de posse de seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos.

Em pouco tempo ele começaria a sobretaxar importados da China — principal alvo de sua retórica mercantilista — e de seus parceiros na América do Norte e na Europa, com um discurso de toma-lá-dá-cá ainda mais agressivo que o da sua primeira gestão (2017-2021).

Em abril, ele exibiu tabelas com tarifas para cerca de cem países, no que chamou de “Dia da Libertação”. A América Latina também entrou no alvo. As sobretaxas às importações de americanos dos países listados começavam em 10%.

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Mercados despencaram, governos, empresários e organizações multilaterais negociaram isenções, e bancos previram até recessão nos EUA. A Suprema Corte do país ainda decide se a decisão respeitou a Constituição, mas independentemente desse desfecho judicial, a estratégia comercial de Trump já definiu uma nova ordem regional e global.

 Início de um pesadelo

Na América Latina, nos anos 1990, apenas o México tinha um pacto comercial com os EUA, um acordo trilateral que incluía o Canadá. Em seu primeiro governo, Trump o renegociou. Em 2004, somou-se o Chile, por meio de um Tratado de Livre Comércio (TLC). Na região, os EUA também têm acordos comerciais com Colômbia, Peru, Costa Rica, República Dominicana, Honduras, Guatemala, Nicarágua, Panamá e El Salvador.

 Não fizeram diferença para Trump: tarifas foram aplicadas a todos, com alguns itens isentos, como cobre e petróleo. Com o passar dos meses, algumas tarifas foram reduzidas em negociações, mas não há critério claro, só a vontade de Trump.

— Os EUA já não respeitam seus acordos comerciais. Pior ainda, pisoteiam as bases do multilateralismo e do direito internacional. É o início de um pesadelo —diz o economista Osvaldo Rosales, que foi o negociador-chefe do Chile com os EUA em 2004, no governo de George W. Bush.

O Brasil, que teve a “tarifa recíproca” inicial de 10% acrescida de 40% em meio a motivações políticas, obteve exceções para vários produtos, mas ainda negocia para retirar o peso do tarifaço de outros. Nações como o México e Panamá têm sofrido impacto maior.

— As tarifas de Trump agravaram um cenário comercial já difícil para grande parte da América Latina, e seu caráter aleatório tem sido uma fonte de fricções — diz Carol Wise, acadêmica da Universidade do Sul da Califórnia (USC), em Los Angeles.

As tensões se agravaram há duas semanas com a invasão da Venezuela e o sequestro do então presidente Nicolás Maduro pelos EUA, sem que Trump disfarçasse seu interesses pelo petróleo do país. Rosales observa que a nova estratégia de segurança de Washington explicita que impedirá que competidores “não hemisféricos” possuam ou controlem ativos estratégicos vitais nas Américas.

A Doutrina Monroe, adotada pelos EUA em 1823, logo após a descolonização, estabelecia que europeus não poderiam mais intervir em um continente americano “para os americanos”. Trump renovou o ideário do século XIX. Começou dizendo que o Canadá poderia ser o 51º estado dos EUA. Agora, reforça ameaças à Groenlândia, território da Dinamarca.

— Por medo de serem os próximos da lista, a maioria dos líderes latino-americanos mantêm a cabeça baixa. Os dirigentes de direita na Argentina (Javier Milei), no Chile (José Antonio Kast, que assume em março) e em El Salvador (Nayib Bukele) buscam se aproximar de Trump, o que é uma perda de tempo — diz Wise, que aponta os presidentes de Brasil (Lula), Colômbia (Gustavo Petro) e México (Claudia Sheinbaum) como os mais resistentes, embora cuidadosos para não provocar.

Com os EUA enveredando pelo protecionismo, especialistas debatem se a globalização, que marcou o início do período pós-guerra fria, está esfriando. Para Pierre van der Eng, pesquisador da Universidade Nacional da Austrália, argumentos que apontam uma “desglobalização” se sustentam apenas nas ações unilaterais dos EUA, como a saída de 66 instituições multilaterais.

— Não há indícios de que o resto do mundo esteja buscando implementar entre si restrições comerciais semelhantes às impostas pelo presidente Trump. Não está inclinado a seguir esse exemplo e continua discutindo e implementando novas formas de liberalizar as relações comerciais por meio de acordos bilaterais e multilaterais — diz o pesquisador. — Ainda não conhecemos as consequências secundárias das tarifas de Trump, como o redirecionamento de exportações chinesas no mundo.

Carol Wise, da USC, observa que, sob a ótica comercial, “curiosamente a China não tem sido um grande alívio para a maioria dos países latino-americanos”. Tirando os “três vencedores sul-americanos” (Brasil, Chile e Peru), que exportam enormes volumes de matérias-primas para a China e conseguem manter superávits apesar das importações substanciais de manufaturados chineses, ela vê dificuldades em outros países, como México e nações da América Central.

Eles têm grande déficit comercial com a China, já que consomem cada vez mais importados da China sem contar com as matérias-primas que o país asiático demanda.

Efeito colateral

Há outra dimensão que a pesquisadora vê como distintiva:

— A diplomacia da China, seu enfoque desenvolvimentista e sua consistência têm sido um alento para latino-americanos. As políticas gerais de Trump para a região são tão hostis, com a deportação de residentes indocumentados para uma prisão brutal em El Salvador, ameaças de invadir o Panamá se não for reduzida a presença chinesa no canal, etc. Alguns países estão aprofundando vínculos com a China, mas menos no âmbito do comércio e mais em infraestrutura, tecnologia verde e energias renováveis.

Rosales considera conveniente para a América Latina reforçar vínculos com a União Europeia (UE) e economias da Ásia-Pacífico. O fim da negociação do acordo UE-Mercosul após duas décadas e meia é visto por ele como um exemplo do efeito adverso provocado por Trump, abrindo caminho para uma das maiores zonas de livre comércio do mundo. Roberto Jaguaribe, conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e ex-embaixador do Brasil na Alemanha, concorda:

— Cria-se um espaço comum de interesses que funciona como uma âncora segura. Serve não apenas como referência econômica e comercial, mas também como conjunto de países que compartilham valores semelhantes.

 

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