
Quando a Fifa definiu a Copa do Mundo de 2026 na América do Norte, a proposta era irresistível. Os EUA estavam prontos para se beneficiar de sua ampla oferta de megaestádios de futebol americano já existentes que poderiam ser adaptados para o futebol, de uma base doméstica de fãs em crescimento e de um novo formato que expandiu o torneio de 32 para 48 seleções. Essa combinação foi pensada para torná-la a maior e mais lucrativa Copa do Mundo da história da entidade que governa o futebol mundial.
Um estudo da Fifa e da Organização Mundial do Comércio, publicado no ano passado, previu que o evento de 39 dias atrairia 6,5 milhões de fãs e geraria um impacto econômico total de US$ 30,5 bilhões apenas nos EUA, para um gasto de apenas US$ 11,1 bilhões. Um ano atrás, as perspectivas para o turismo também pareciam “promissoras”, segundo o relatório.
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“A chegada de visitantes provavelmente gerará bilhões de dólares em atividade econômica, beneficiando os setores de hospitalidade, transporte e varejo. Hotéis nas cidades-sede antecipam ocupação recorde, e os negócios locais se beneficiarão do aumento do fluxo de visitantes”, dizia o relatório.
Mas, com o torneio a pouco mais de dois meses de distância, choques geopolíticos e obstáculos de imigração nos EUA estão ameaçando desestimular visitantes internacionais e possivelmente reduzir as ambições inicialmente otimistas da Copa do Mundo.
“Você está vendo uma série de ventos contrários atingindo o que muitos achavam que seria um evento consagrador e incrivelmente bem-sucedido”, disse Mark Conrad, professor de direito e ética na escola de negócios da Universidade Fordham e diretor de sua área de negócios esportivos.
A presença de público agora está em risco, disse ele à Fortune. Mais de um mês após os EUA atacarem o Irã, os preços do petróleo Brent se mantiveram acima do patamar psicológico de US$ 100 por barril por pouco mais de uma semana e estavam em US$ 109 por barril na tarde de sexta-feira.
Com o Irã bloqueando o Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto de todo o petróleo global, os EUA e outros países começam a entrar em alerta.
A gasolina nos EUA ultrapassou a média de US$ 4 por galão na semana passada pela primeira vez desde 2022, o que pode significar menos pessoas viajando de carro para estados vizinhos para assistir a um jogo.
O preço das passagens aéreas também está subindo, já que o combustível de aviação, que representa mais de 40% dos custos operacionais das companhias aéreas, quase dobrou nas últimas semanas.
O custo médio disparou 148% para um voo intercontinental, chegando a US$ 414 em meados de março, ante US$ 167 no fim de fevereiro, segundo análise do Deutsche Bank.
Outras questões também podem influenciar. Mesmo antes da guerra no Irã, 150 mil pessoas na Holanda assinaram uma petição em janeiro pedindo que a seleção holandesa boicotasse os jogos por causa da “intervenção militar agressiva dos EUA”, enquanto o presidente Donald Trump ameaçava assumir o controle da Groenlândia, um território semiautônomo da Dinamarca.
Obstáculos para turistas
Toda essa turbulência representa um problema para o maior evento esportivo do planeta, segundo Conrad. Serão 104 partidas no total, a maioria delas nos EUA, em 11 cidades. Jogos também serão disputados em cinco cidades no Canadá e no México. Ainda assim, fãs internacionais podem ter mais dificuldade para assistir às partidas nos EUA.
A administração Trump tornou difícil ou inconveniente para estrangeiros visitarem os EUA. Algumas dessas políticas incluem uma ampla proibição de viagens que impediria torcedores de seleções classificadas como Irã, Haiti e República Democrática do Congo de assistirem aos jogos nos EUA. As três seleções têm partidas programadas no país.
Mesmo viajantes que não estão proibidos enfrentam outros obstáculos. Como parte da One Big Beautiful Bill Act de Trump, o preço do Sistema Eletrônico de Autorização de Viagem (ESTA) dobrou, passando de US$ 21 para US$ 40 para muitos visitantes europeus. A Europa tem 16 seleções no torneio.
O preço base de vistos de não imigrante, como vistos de turismo, para cidadãos de países não elegíveis ao ESTA subiu de US$ 160 para US$ 185. E, embora ainda não esteja sendo cobrada, uma “taxa de integridade de visto” de US$ 250 elevaria o custo total dos vistos de turismo de países como México e Brasil para US$ 435 por pessoa.
Além das taxas mais altas, visitantes de outras nações classificadas com jogos nos EUA, incluindo Argélia, Cabo Verde, Costa do Marfim e Senegal, também devem pagar uma caução de US$ 5.000, US$ 10.000 ou US$ 15.000, a ser definida na entrevista de visto.
Ainda há a questão da participação do Irã. Embora Trump tenha dito no mês passado que os jogadores iranianos deveriam pular a Copa do Mundo “pela própria vida e segurança”, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, afirmou nesta semana que a seleção do Irã jogará o torneio. Não está claro se ele quis dizer que jogará nos EUA conforme o programado.
Além dos custos adicionais, preocupações com o Immigration and Customs Enforcement (ICE), que já prendeu turistas com vistos válidos, podem fazer com que fãs de futebol simplesmente não queiram comparecer, disse Conrad. “Se eu sou de um determinado país, posso pensar duas vezes antes de passar por isso e sentir que não sou bem-vindo”, afirmou.
Mas, apesar de toda a ansiedade, os dados de aluguel de curto prazo contam uma história mais otimista até agora. Jamie Lane, economista-chefe da AirDNA, empresa que monitora reservas de aluguel de curto prazo, diz que a demanda por esse tipo de acomodação durante o período do torneio, entre junho e julho, está maior do que no mesmo período do ano passado nas cidades-sede dos EUA.
“Esperamos que, na maioria dos mercados, basicamente não haja oferta suficiente de imóveis de aluguel de curto prazo para acomodar todas as pessoas que querem se hospedar perto dos jogos”, disse.
Em Boston, por exemplo, a ocupação de aluguéis de curto prazo durante a fase de grupos em junho já está em 47%, contra 26% no mesmo período do ano passado. Alguns proprietários de imóveis próximos aos estádios elevaram os preços em mais de 100% em antecipação aos jogos da Copa. O Airbnb também ofereceu até US$ 750 como incentivo para quem alugar pela primeira vez.
O aumento nas reservas pode não se limitar apenas às cidades-sede, mas se espalhar para áreas ao redor.
Lane disse que, na região de Buffalo–Niagara Falls — a uma hora de voo de Nova Jersey, onde jogos serão disputados no MetLife Stadium — a demanda total para junho está cerca de 30% maior em relação ao ano anterior, um salto incomum que, segundo ele, pode estar ligado a viagens planejadas por visitantes da Copa enquanto estão nos EUA.
“Não parece ser um aumento de demanda apenas nessas cidades [sede]”, disse Lane. “Parece que isso vai impulsionar reservas mais fortes no geral neste verão.”
Ainda assim, há indícios de que os hotéis não estão vendo o impulso que esperavam. A publicação “The City” informou no fim do mês passado que as reservas de hotéis em Nova York para as datas da Copa estavam 2% abaixo do mesmo período do ano anterior, quando não havia nenhum grande evento programado.
O responsável pelas finanças da cidade de Nova York também estimou em relatório que, mesmo que o evento alcance as altas expectativas da FIFA de gerar US$ 3 bilhões em atividade econômica e atrair 1,2 milhão de visitantes, a cidade ainda pode ter prejuízo devido a custos como policiamento, segundo o “The City”.
“As reservas têm sido mais fracas do que o esperado”, disse Sarah Bratko, vice-presidente e consultora de políticas da American Hotels & Lodging Association, ao veículo.
Embora os visitantes internacionais possam não ir aos EUA em massa como se esperava, o turismo doméstico pode compensar parte dessa ausência, e o evento ainda tem potencial para ser bem-sucedido, disse Conrad.
“Não acho que será um desastre completo de forma alguma”, afirmou. Mas, para os turistas, “não será tão fácil por vários motivos”.
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