
O mercado de trabalho no Brasil começa dar os primeiro sinais de acomodação, após meses com dados baixos recordes de desemprego, segundo análise de economistas dos números da PNAD divulgados nesta sexta-feira pelo IBGE. A taxa de desocupação atingiu 5,8% no trimestre encerrado em fevereiro de 2026, acima dos 5,2% verificados no trimestre de setembro a novembro de 2025. Mas o indicador caiu 1,0 p.p. quando comparado ao trimestre móvel de dezembro de 2024 a fevereiro de 2025 (6,8%).
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André Valério, economista sênior do Inter, avalia que as estatísticas do mercado de trabalho ainda apontam um setor robusto, com população ocupada próximo das máximas, e estabilidade na população subocupada e desalentada. “Além disso, o rendimento real continua crescendo, tendo avançado 2% no trimestre findo em fevereiro, enquanto a massa de rendimento ficou estável”, comenta
O economista também observa a continuidade da tendência setorial, com setores menos cíclicos sendo os únicos a adicionar novos empregos no trimestre móvel, como foi o caso de informação, comunicação e atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas, e administração pública.
“Isso sugere, que a elevada taxa de juros tem atuado para reduzir o dinamismo do mercado de trabalho. O resultado de hoje indica um mercado de trabalho bem próximo do seu ponto de virada. Vemos esgotamento da melhora dos indicadores e esperamos que continuar vendo a tendência de enfraquecimento na margem do mercado de trabalho, em meio às condições financeiras adversas”, diz.
A expectativa do Banco Inter é que a taxa de desocupação encerre o ano em 5,5%.
Para Leonardo Costa, economista do ASA, o mercado de trabalho segue sem sinais de ruptura, operando em patamar historicamente apertado. “A taxa de desemprego em nova mínima e a massa salarial em recorde reforçam a resiliência da renda das famílias, fator que ajuda a sustentar o consumo, mas mantém pressão sobre os núcleos de inflação de serviços”, afirma
Costa analisa que o ritmo de criação de emprego dá sinais — ainda incipientes — de acomodação na margem, consistente com uma economia sob efeito contracionista de juros elevados, mas ainda longe de deterioração cíclica. “O mercado de trabalho segue sendo o principal suporte da atividade doméstica, ainda que seu dinamismo tenda a moderar gradualmente ao longo de 2026.”
Na opinião de Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay, a abertura qualitativa da pesquisa do IBGE mostra um mercado de trabalho menos favorável na margem. “A piora do desemprego nesta divulgação veio acompanhada de recuo do contingente ocupado, elevação da subutilização e aumento da população fora da força de trabalho, que passou de 66,3 milhões para 66,6 milhões”, destaca.
Para ela, diferentemente da leitura anterior, a alta da taxa de desocupação agora encontra respaldo em componentes que apontam enfraquecimento mais disseminado da absorção de mão de obra.
Ainda assim, Ariane diz que o movimento não parece sinalizar, por ora, uma inflexão estrutural mais aguda. “A perda de ocupação ficou concentrada em administração pública, educação, saúde e construção, com forte influência de fatores sazonais típicos do início do ano, especialmente pelo encerramento de contratos temporários no setor público e pela menor demanda por obras e reparos. Isso sugere que parte relevante da piora observada em fevereiro reflete normalização após uma sequência de leituras muito fortes”, diz.
No balanço geral, a economista do PicPay diz o dado indica uma acomodação do mercado de trabalho após um período de desempenho mais robusto. Por ora, isso não caracteriza uma mudança de tendência mais estrutural, com a continuidade do avanço da renda reforçando que o mercado ainda preserva elementos de sustentação.
“Seguimos avaliando o quadro como compatível com um processo gradual de normalização, cuja atualização do modelo com o dado divulgado nos mostra uma continuidade de mesmo patamar para a próxima leitura da PNAD, com menor impacto sazonal”, afirma.
Ainda aquecido
Claudia Moreno, economista do C6 Bank, destaca que a série com ajuste sazonal, que elimina efeitos pontuais do calendário e ajuda a enxergar melhor a tendência, mostra que o desemprego passou de 5,5% para 5,6%, permanecendo em um patamar historicamente baixo. “São números que, somados a outros indicadores, reforçam que o mercado de trabalho segue aquecido no Brasil”, afirma.
Para ela, os dados da PNAD sugerem que o Brasil está em um momento de estabilidade da taxa de desemprego em patamar historicamente baixo. “Mesmo que haja alguma desaceleração no ritmo de criação de vagas ao longo de 2026, o mercado de trabalho deve continuar aquecido. Nossa projeção é de que a taxa de desemprego deve terminar o ano um pouco acima de 5%”, projeta
Rafael Perez, economista da Suno Research, alerta que já se observa uma desaceleração em indicadores importantes do mercado de trabalho. Ele lembra que a população ocupada (102,1 milhões) recuou pelo quarto mês consecutivo e está no menor nível desde junho do ano passado e o número de empregados com carteira assinada (39,2 milhões) caiu pelo terceiro mês seguido.
“Apesar da alta da desocupação em fevereiro, a combinação de desemprego em mínimas históricas e crescimento real dos salários deve continuar pressionando os preços, principalmente de serviços, dificultando a convergência da inflação para a meta. Esse cenário deve contribuir para que o Banco Central conduza o ciclo de cortes de juros com mais cautela ao longo do ano”, argumenta.
Perez diz ainda que a tendência para este ano é de um mercado de trabalho ainda resiliente, sustentando a renda e dando suporte ao consumo das famílias. No entanto, diante da desaceleração da atividade econômica e o menor crescimento esperado para 2026, ele projeta uma alta gradual da taxa de desemprego para próximo de 6,0% até o final do ano.
Na análise da XP, embora mostrem alguma moderação em fevereiro, as estatísticas da PNAD corroboram o cenário de mercado de trabalho apertado. “A taxa de desemprego atual permanece significativamente abaixo de seu nível neutro, algo pouco provável de se reverter no curto prazo. Projetamos que a taxa de desemprego alcance 5,6% no final de 2026 e 6,2% no final de 2027.”
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