
No cenário mais otimista para a economia global, a mais recente guerra no Oriente Médio termina em poucas semanas. A região continua a produzir petróleo e gás. A navegação é retomada no Estreito de Ormuz, evitando um choque no abastecimento mundial de energia. O temor da inflação diminui.
Mas especialistas alertaram contra qualquer sensação precipitada de tranquilidade. Os bombardeios de Estados Unidos e Israel contra o Irã, e as represálias iranianas em toda a região, desencadearam riscos que representam uma ameaça significativa ao desempenho da economia global.
Custos globais da energia disparam com crise no Irã
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Os temores mais alarmantes se concentraram na possibilidade de que o governo iraniano — levado à beira da eliminação — possa desencadear retaliações mais agressivas, aceitando como custo para continuar lutando a quase certeza de bombardeios ainda mais intensos sobre seu próprio território. Presumivelmente, os iranianos buscariam prejudicar a capacidade de produção de petróleo e gás de potências regionais, incluindo Catar e Arábia Saudita.
Qualquer evento que prolongue o conflito ou ameace fontes de petróleo e gás tende a elevar os preços da energia a níveis que alimentariam a inflação. Isso poderia levar bancos centrais em todo o mundo a aumentar as taxas de juros, encarecendo hipotecas, financiamentos de automóveis e outros tipos de crédito. E isso sufocaria o consumo das famílias e o investimento das empresas — um caminho clássico para uma recessão.
“Estamos em um período muito delicado”, disse Kenneth S. Rogoff, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional e professor da Universidade Harvard.
Grande mestre de xadrez e estudioso de história, Rogoff mostrou ceticismo em relação ao consenso de que o conflito será de curta duração. Ele citou o assassinato do eventual herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, há mais de um século — um episódio que desencadeou uma conflagração global.
“É um pouco como perguntar, quando o arquiduque Ferdinando foi morto, quais seriam as consequências macroeconômicas, sem ter a menor ideia do que viria depois”, disse Rogoff. “Quando a Primeira Guerra Mundial começou, todos achavam que terminaria em um mês.”
No centro das preocupações, por ora, está o destino da energia produzida no Oriente Médio, origem de 30% do petróleo mundial e 17% do gás natural. Qualquer interrupção nesse fluxo quase certamente provocaria problemas nas maiores nações importadoras do mundo — grandes economias do Leste Asiático e da Europa.
Sempre que o mundo passa a ter novos motivos para se preocupar com o acesso ao petróleo do Oriente Médio, as comparações voltam aos anos 1970, quando a Organização dos Países Exportadores de Petróleo impôs uma série de choques.
Ao cortar a oferta para elevar os preços, o cartel obrigou os americanos a se submeter a uma indignidade antes impensável: enfrentar longas filas nos postos para comprar combustível racionado e pagar preços recordes para manter seus enormes sedãs circulando.
Assim como então, a atenção se voltou para o Estreito de Ormuz, a via marítima que faz fronteira com o Irã e conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico. Cerca de um quinto da oferta mundial de petróleo passa por esse corredor, grande parte com destino à Ásia.
A pressão sobre o tráfego pelo estreito foi especialmente intensa em 1979, ano em que o xá do Irã, apoiado pelos Estados Unidos, foi deposto por uma revolução que levou ao poder o governo extremista que está no poder desde então.
Mas é aí que os paralelos históricos se afastam. O cartel hoje conhecido como Opep+ já prometeu aumentar a produção para compensar qualquer estoque ameaçado pela guerra. Em parte graças a fortes aumentos na produção americana, a oferta mundial de petróleo geralmente supera a demanda.
Para muitos países, os choques do petróleo dos anos 1970, e o conflito no Golfo Pérsico que se seguiu, estimularam a busca por maior autossuficiência energética. O reconhecimento de que petróleo e gás envolvem riscos geopolíticos permanentes — sem falar nas mudanças climáticas — também impulsionou uma transição dos combustíveis fósseis para fontes renováveis de energia. China e Europa lideraram o movimento, investindo pesadamente em energia eólica e solar.
Mas a crise atual ressalta a dura realidade de que o mundo continua fortemente dependente de combustíveis fósseis. Se a passagem pelo Estreito de Ormuz for interrompida por mais do que algumas semanas, e se mísseis iranianos danificarem refinarias, isso anulará quaisquer ganhos imediatos provenientes de fontes de energia mais limpas.
E, se refinarias forem desativadas, isso acabará limitando a produção de produtos petroquímicos, incluindo fertilizantes. Isso pode elevar o custo da produção de alimentos, ameaçando agravar a desnutrição na África Subsaariana e no Sul da Ásia.
“Petróleo e gás ainda são extremamente importantes”, disse Kjersti Haugland, economista-chefe do DNB Carnegie, um banco de investimentos nórdico com sede em Oslo. Quaisquer que sejam os méritos da transição para a energia verde, acrescentou ela, “ainda há um longo caminho a percorrer”.
Os preços do petróleo dispararam mais de 10% na segunda-feira, uma expressão clara de preocupação com o acesso ao abastecimento global de energia. Mas recuaram mais tarde no dia, um aparente reconhecimento de que a preocupação se limitava à capacidade de exportar petróleo e gás do Oriente Médio.
China, Japão, Alemanha, Coreia do Sul, Taiwan, Itália e Espanha — todos importantes exportadores de bens manufaturados — já enfrentam a guerra comercial conduzida pelo presidente Donald Trump. Eles lidam com tarifas e com o aumento dos custos de matérias-primas como o aço. Agora, encaram também a possibilidade de que o preço dos combustíveis dispare, caso a guerra no Oriente Médio não dê lugar rapidamente à diplomacia.
“As partes mais vulneráveis do mundo são a Europa e o Leste Asiático, dado que dependem de energia importada”, disse Adnan Mazarei, pesquisador sênior do Peterson Institute for International Economics, em Washington.
Uma noção do que está em jogo surgiu na segunda-feira, quando a estatal de petróleo do Catar anunciou que estava suspendendo a produção de gás natural liquefeito, diante dos riscos de transportar sua produção pelo Estreito de Ormuz. Isso fez o preço do gás natural na Europa disparar 50%.
A China parece especialmente vulnerável, dada sua dependência do Irã para mais de 13% de suas importações de petróleo. O governo chinês já enfrenta uma desastrosa queda nos preços dos imóveis, que destruiu as economias de milhões de famílias.
A Índia enfrenta dificuldades específicas. No mês passado, o governo indiano prometeu a Trump que reduziria suas compras de petróleo da Rússia como forma de obter alívio das tarifas americanas.
Buscou compensar a diferença importando mais petróleo de fornecedores do Golfo Pérsico, como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Agora, a guerra ameaça também esses suprimentos.
A economia da Índia também depende das chamadas remessas — dinheiro enviado para casa por trabalhadores imigrantes empregados na construção, no varejo e na hotelaria. Cerca de 9 milhões de trabalhadores imigrantes indianos estão no Golfo Pérsico, responsáveis por 38% de todas as remessas, segundo análise de Shumita Deveshwar, da TS Lombard.
Os Estados Unidos podem parecer mais protegidos, dado seu status de maior produtor mundial de petróleo bruto e maior exportador de gás natural liquefeito.
Mas, embora as empresas americanas de combustíveis fósseis estejam em posição de lucrar com uma alta prolongada nos preços do petróleo e do gás, os consumidores americanos quase certamente acabariam pagando mais pela gasolina. O preço dos combustíveis se espalha pelo restante da economia, pressionando os custos para cima.
Essa é a realidade que leva muitos especialistas a supor que Trump buscará encerrar o conflito antes que os preços mais altos da energia tenham a chance de agravar o aumento dos custos dos bens de consumo.
Ele deve sua eleição, em parte, à insatisfação pública com o preço dos alimentos. Pode ser politicamente arriscado chegar às eleições legislativas de novembro com a gasolina mais cara.
Ainda assim, no prazo mais longo, os impactos do conflito em curso tenderão a aumentar a inflação, disse Rogoff, o economista de Harvard. Os Estados Unidos precisarão recompor seus estoques de armas, ampliando a dívida nacional.
“Vamos acabar gastando muito mais com as Forças Armadas, e isso terá implicações para os juros e a inflação”, disse Rogoff. “Isso já está no horizonte.”
c.2026 The New York Times Company
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