
Jeffrey Epstein estava em uma missão para se encontrar com Vladimir Putin quando uma proposta intrigante chegou ao seu e-mail.
O presidente russo estava pronto para receber Epstein, de acordo com uma mensagem de outubro de 2014 enviada por um correspondente que aparece em um banco de dados com mais de 3,5 milhões de arquivos pertencentes ao falecido condenado por crimes sexuais e que vêm chacoalhando a política e os negócios globais.
“Falei com Putin”, escreveu o interlocutor, cuja identidade foi ocultada pelo Departamento de Justiça dos EUA. “Ele ficaria muito feliz se você pudesse visitá-lo e explicar=mercados financeiros no século 21. Moeda digital. derivativo= finanças estruturadas. Eu organizaria o encontro quando você estiver novamente na=Europa. Tenho certeza de que vocês dois vão gostar um do outro.”
Horas depois, Epstein encaminhou a mensagem pedindo conselhos a Kathy Ruemmler, que está deixando o cargo de conselheira geral do Goldman Sachs Group Inc. após detalhes da sua relação com o financista desacreditado terem vindo à tona nos arquivos divulgados pelo Departamento de Justiça.
Em sua resposta, Epstein antecipou que o conselho dela seria o de não ir “por enquanto” — e de fato foi esse o caso. A resposta de Ruemmler foi breve: “Sim, minha resposta continua a mesma”, escreveu. “Sua diversão e= negada.”
A cautela naquele momento era compreensível. Meses antes, Putin havia enviado tropas russas para anexar a Crimeia da Ucrânia, provocando sanções amplas dos EUA e da União Europeia e desencadeando a crise geopolítica que desde então se transformou no maior conflito na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.
A fascinação de Epstein por Putin e pela Rússia, porém, continuou intacta, mesmo enquanto os documentos traçam o retrato de um homem que parecia em grande parte sem noção sobre quem detinha poder e influência reais junto ao líder do Kremlin. Os arquivos mostram um esforço de anos para garantir uma reunião a sós com Putin, cujo nome aparece cerca de 1.000 vezes no banco de dados.
Os e-mails são citados aqui tal como aparecem na divulgação do Departamento de Justiça, incluindo erros de ortografia e gramática.
No fim das contas, ao que tudo indica, sua busca foi malsucedida. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse que Putin nunca se encontrou com Epstein, até onde sabe, e nenhuma evidência surgiu até agora que comprove o contrário.
No início daquele ano, em janeiro, Epstein havia sugerido o ex-primeiro-ministro norueguês Thorbjorn Jagland como o político aparentemente encarregado de se reunir com Putin em Sochi. A cidade russa no Mar Negro estava prestes a sediar os Jogos Olímpicos de Inverno de 2014, os mais caros da história, enquanto Putin gastava US$ 50 bilhões para apresentar o evento como uma vitrine da restauração pós-soviética de seu país.
Esporte não era o que estava na mente de Epstein. “voce pode explicar para putin , que deveria haver uma versao russa sopshiticated de bitcoin”, escreveu. “seria o instrumento financeiro mais avancado disponivel em escala global.”
Jagland estava entre os políticos europeus mais proeminentes da época, como secretário-geral do Conselho da Europa por uma década, de outubro de 2009 a setembro de 2019. Jagland encontrou Putin em 20 de maio de 2013, segundo o site do Kremlin, e voltou a Sochi em 2014 para a abertura das Olimpíadas.
Em 8 de maio de 2013, Epstein pediu a Jagland que lhe garantisse uma audiência com o líder russo. “Sei que você vai se encontrar com putin no dia 20, Ele está desesperado para atrair investimento ocidental para seu país”, escreveu o financista. “Eu tenho a solução dele. Ele precisa securitizar o investimento russo, isso significa que o governo assume a primeira perda.”
Epstein prosseguiu: “Eu reconheco que há questoes de direitos humanos que estao na linha de frente da sua viagem porem, se isso for util para voce, eu ficaria feliz em me encontrar com ele em algum momento de junho e explicar a solução para a sua maior prioridade, acho que isso seria bom para os seus objetivos. trocar algo que ele realmente quer. por algo que voce quer.”
Em uma outra troca de mensagens alguns dias depois, Jagland disse a Epstein que “tudo isso não é fácil para mim de explicar para Putin. Você é quem tem que fazer isso. Meu trabalho é conseguir uma reunião com ele.”
Epstein respondeu que Putin “está em uma posição única para fazer algo grandioso, como o sputnik fez pela corrida espacial.” Ele acrescentou: “Eu ficaria feliz em me encontrar com ele , mas por no mínimo duas a três horas, não menos que isso.”
Ao que parece, veio de Moscou uma contraproposta que não empolgou Epstein. Em 21 de maio, ele afirmou, em uma mensagem ao ex-primeiro-ministro israelense Ehud Barak, que Putin havia proposto um encontro durante o Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, no mês seguinte.
“Eu disse não”, escreveu Epstein a Barak. “Se ele quiser se encontrar, vai precisar reservar tempo de verdade e privacidade, vamos ver o que acontece.”
Dias antes, em 9 de maio, referindo-se a Putin, Epstein admitiu ao político israelense que “Eu nunca o conheci.”
Dois anos depois, em 2015, Barak escreveu para agradecer a Epstein por organizar sua própria participação no fórum de São Petersburgo, onde disse ter tido reuniões com a presidente do Banco da Rússia, Elvira Nabiullina, e o ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, além dos chefes dos dois maiores bancos do país, Herman Gref, do Sberbank, e Andrey Kostin, do VTB Bank.
Um porta-voz de Barak não ofereceu comentários de imediato.
Já em novembro de 2010, Epstein gabava-se a um correspondente não identificado de ter “um amigo de Putin,” que poderia ajudá-lo a obter um visto russo, em resposta a um aparente convite para uma festa.
Epstein indicou em um formulário de solicitação de visto russo de um ano, em 2011, que havia recebido vistos todos os anos, exceto um, entre 2002 e 2007, e que tinha viajado ao país. Não está claro pelos arquivos quantas vezes ele de fato usou esses vistos para visitar a Rússia, embora eles indiquem que ele fez planos repetidos de ir para lá.
Em abril de 2018, ele recebeu um e-mail avisando que seu visto russo estava expirando e que precisaria de uma carta-convite oficial para “renovar para um visto de negócios de 3 anos.” O visto foi posteriormente emitido em junho.
Epstein enviou mais e-mails a Jagland perguntando sobre reuniões com Putin até junho de 2018. Essa última mensagem, cerca de um mês antes de Putin realizar sua primeira cúpula com o então presidente dos EUA, Donald Trump, em Helsinque, foi a mais concisa.
“Adoraria me encontrar com Putin”, escreveu Epstein.
Autoridades norueguesas iniciaram neste mês uma investigação de corrupção envolvendo Jagland por seus vínculos com Epstein.
Jagland está “cooperando plenamente com a polícia e forneceu um relato detalhado de todos os assuntos relevantes”, disse seu advogado, Anders Brosveet, em comunicado, recusando-se a comentar mais. “Ele nega todas as acusações contra ele.”
A eleição de Trump em 2016 deu a Epstein mais oportunidade para cultivar contatos russos, apresentando-se como alguém capaz de explicar o novato político. Foi isso que Epstein fez durante o primeiro mandato de Trump, dizendo a autoridades estrangeiras como lidar da melhor forma com o novo presidente, segundo uma pessoa que o conheceu naquela época e que pediu anonimato devido à sensibilidade do assunto.
Um deles, ao que tudo indica, foi Vitaly Churkin, embaixador russo nas Nações Unidas em Nova York até sua morte em fevereiro de 2017. Epstein afirmou a Jagland que havia orientado o falecido Churkin sobre como falar com Trump, e sugeriu que ele dissesse a Putin que Lavrov também poderia “obter insight conversando comigo.”
Escrevendo em junho de 2018, Epstein disse: “churkin foi otimo . ele entendeu trump depois =das nossas conversas. nao é complexo. ele deve=ser visto conseguindo alguma coisa é simples assim.”
De acordo com os arquivos do Departamento de Justiça, Epstein também mantinha contato regular com Sergei Belyakov, ex-vice-ministro da Economia e formado pelo serviço de segurança russo FSB, que participava da organização do fórum econômico de São Petersburgo. Em um e-mail de 2015, Epstein o descreveu como um “cara muito bom.”
Belyakov não respondeu a um pedido de comentário.
Epstein se gabou de suas próprias conexões com o FSB em outra mensagem de 2015 a um contato desconhecido, que ele acusou de tentar chantageá-lo.
“Considerei necessário contatar alguns amigos no FSB, e embora eu não tenha dado a eles seu nome”, escreveu Epstein. “Então espero nunca mais ouvir qualquer ameaça vindo de você.”
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