
Falando na noite de terça-feira (24) para uma de suas maiores audiências e possivelmente no momento mais delicado de seu segundo mandato, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou repetidas vezes ao mesmo ponto em seu discurso do State of the Union (Estado da União) sobre a economia: tudo vai muito bem.
Em tom firme, Trump buscou conduzir os americanos a um humor econômico mais positivo, tentando neutralizar as preocupações com custo de vida que devem estar no centro das eleições de meio de mandato, com estatísticas e autocomplacência.
“A inflação está despencando. As rendas estão subindo rapidamente. A economia em alta está mais forte do que nunca”, afirmou no início do discurso, que durou quase duas horas.
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O presidente não apresentou novas propostas relevantes para enfrentar o custo de vida. E, quando admitiu que eleitores possam ter dúvidas sobre preços, recorreu ao roteiro habitual de atribuir culpa a terceiros.
“Vocês causaram esse problema”, disse aos democratas presentes, afirmando que as mensagens do partido sobre preços eram “uma mentira suja e repugnante”.
Antes do discurso, assessores haviam descrito a noite como uma oportunidade para apresentar uma agenda econômica voltada ao futuro e servir como um “reset” antes das eleições. No entanto, Trump concentrou-se mais em exaltar seu pacote tributário e suas políticas comerciais do que em propor novas medidas para o custo de vida, sinal de que o tema ainda pressiona a Casa Branca.
O pesquisador de opinião Frank Luntz questionou o desdém de Trump pelo termo “acessibilidade”.
“Foi um erro”, escreveu no X. “Zombar da palavra ‘acessibilidade’ quando os americanos ainda sentem o aperto no supermercado é o tipo de momento que repercute mal.”
O discurso de grande visibilidade ocorreu após um período difícil para Trump. O governo já enfrentava críticas pela atuação violenta de agentes de imigração e pelas consequências relacionadas aos arquivos de Jeffrey Epstein, quando a Suprema Corte dos EUA impôs, na semana passada, um revés significativo à sua agenda tarifária.
Além do retrato positivo da economia, Trump tentou virar a página mobilizando emoções patrióticas, com uma sequência de momentos de apelo popular. Reconheceu a seleção de hóquei dos EUA pelo título olímpico e concedeu medalhas por atos de heroísmo. Também destacou a próxima Copa do Mundo, os Jogos Olímpicos de Verão de 2028 em Los Angeles e as comemorações dos 250 anos dos EUA como eventos que os americanos podem aguardar.
Ainda assim, não evitou temas divisivos. Criticou democratas por suas posições sobre imigração e políticas para pessoas transgênero e buscou provocar reações para criar tensão ao vivo. Em um desses momentos, acusou migrantes somalis de cometerem bilhões de dólares em fraudes em Minnesota, justificativa usada para endurecer ações no estado, o que gerou forte reação após a morte de dois cidadãos americanos.
Ao pedir que parlamentares se levantassem se concordassem que o “primeiro dever” do governo é proteger cidadãos dos EUA e “não estrangeiros ilegais”, a deputada Ilhan Omar, democrata que representa o distrito no centro da controvérsia, gritou que Trump “matou americanos”.
Republicanos aplaudiram a armadilha que o presidente tentou impor aos democratas. “Quando perguntados se acreditam que seu primeiro dever é proteger o povo americano, os democratas permaneceram sentados. Infelizmente, não estou brincando”, escreveu no X a governadora do Arkansas, Sarah Sanders, ex-assessora de Trump.
Democratas, por sua vez, classificaram o discurso como pobre em soluções para eleitores que enfrentam dificuldades econômicas.
“É uma noite ruim para as famílias americanas”, escreveu a senadora Elizabeth Warren, democrata de Massachusetts, na rede social. “Trump não disse nada sobre sua promessa de limitar os juros do cartão de crédito. Nada sobre tornar o cuidado infantil mais acessível. Nada sobre reembolsos ao consumidor por suas tarifas ilegais.”
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Logo no início do discurso, Trump apresentou uma lista de indicadores econômicos, incluindo desaceleração da inflação, queda nas taxas de hipoteca e recuo nos preços da gasolina. Também destacou os cortes de impostos incluídos em sua principal lei econômica, novas contas de poupança para crianças e pediu ao Congresso a aprovação de uma lei que proíba investidores institucionais de comprar casas unifamiliares.
“Receita conhecida, bem executada. A questão é se as pessoas acreditam que isso representa ‘uma virada histórica’, como ele afirmou, e, se sim, se estão satisfeitas com a direção”, escreveu por mensagem o estrategista democrata David Axelrod, ex-assessor do ex-presidente Barack Obama.
Aliados de Trump esperam que muitos eleitores fiquem mais otimistas na primavera, ao receberem restituições maiores de imposto devido à lei tributária aprovada no ano passado. A hipótese ainda não foi testada e, no momento, amplos segmentos do eleitorado demonstram insatisfação. Pesquisa recente Washington Post-ABC News-Ipsos apontou que a maioria desaprova a condução da economia, da inflação e das tarifas pelo presidente.
Trump prometeu avançar com suas medidas sob outras bases legais, afirmando que “quase todos os países e empresas querem manter o acordo que já fizeram”.
Embora tenha dado grande ênfase à política externa neste mandato, manteve o foco principalmente em temas domésticos no discurso, em sinal de atenção às críticas de que a agenda internacional o afastou das preocupações internas.
Ainda assim, voltou a advertir o Irã sobre as ambições nucleares do país antes das conversas entre autoridades americanas e iranianas em Genebra. Também destacou a captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro e reiterou a esperança de encerrar o conflito entre Rússia e Ucrânia.
Trump compareceu para fazer um discurso econômico e, em grande parte, manteve-se nesse objetivo.
Sobre preços, pediu aos americanos que “aguentem só mais um pouco enquanto estamos reduzindo”. A dúvida agora é se eleitores além de sua base “Make America Great Again” estarão dispostos a ouvi-lo.
©️2026 Bloomberg L.P.
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