O avanço recente dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) no Brasil sugere não apenas um ciclo de expansão, mas uma reconfiguração profunda no funcionamento do mercado de crédito estruturado.
Com patrimônio líquido superior a R$ 900 bilhões em 2025 e um salto de 22,5% em 12 meses, o segmento demonstra uma combinação rara: crescimento acelerado acompanhado por elevação significativa dos padrões regulatórios e de governança.
A leitura analítica desses dados aponta para um vetor central: a maturidade institucional do produto. A ampliação da base de investidores — que mais do que dobrou e alcançou 333,7 mil participantes — indica que os FIDCs deixaram de ser um instrumento restrito a investidores profissionais e passaram a ocupar espaço nas carteiras de investidores qualificados e, cada vez mais, em alocações diversificadas de grandes distribuidoras e plataformas digitais. Esse processo é reforçado pelo aumento do número de fundos ativos, que ultrapassa 3.300, revelando uma descentralização das teses de crédito e uma sofisticação maior na originação de ativos.
Mas o ponto de inflexão estrutural vem da Resolução CVM 175. Ao redesenhar a arquitetura regulatória dos fundos no país, a norma colocou os FIDCs sob um arcabouço mais rígido de governança, validando práticas antes concentradas em nichos altamente especializados. Essa mudança desloca a ênfase do mercado: de um segmento conhecido pelo crescimento em volume para um ecossistema que agora exige qualidade documental, controles robustos, relatórios padronizados e uma narrativa consistente para o investidor.
Nesse contexto, a função de Relações com Investidores (RI) deixou de ser acessória e se tornou estratégica. A complexidade das estruturas de crédito, especialmente em fundos multicedentes e multisacados, exige uma comunicação capaz de reduzir assimetria e traduzir riscos de forma inteligível. A experiência recente do Grupo IOX — que registrou crescimento de 135% em 12 meses — ilustra esse movimento. Parte do avanço ocorre pela expansão operacional, mas uma parcela significativa decorre do alinhamento às diretrizes da CVM 175 e do fortalecimento dos processos de governança interna. Para o CEO Richard Ionescu, a nova regulação cria um ambiente de diálogo mais profundo entre gestores e investidores, o que sinaliza uma mudança cultural no setor.
O desafio, porém, não é trivial. O cumprimento integral da CVM 175 exige reestruturação de políticas de risco, revisão de fluxos operacionais, detalhamento de relatórios e adoção de novos planos de liquidação de ativos. Ao mesmo tempo, cria oportunidades relevantes. Um mercado com padrões mais claros e previsíveis tende a atrair fluxos internacionais, especialmente fundos globais especializados em crédito estruturado, que historicamente valorizam ambientes regulatórios com baixo grau de opacidade.
Do ponto de vista comunicacional, o impacto é igualmente significativo. Como observa Vicente Gueraldi, Diretor de RI do Grupo IOX, a elevação dos requisitos de transparência integra o RI à espinha dorsal da governança. A função passa a ser responsável não apenas por divulgar informações, mas por estruturar narrativas consistentes capazes de sustentar decisões de alocação em fundos cada vez mais sofisticados. Em outras palavras: RI deixa de ser canal e se torna infraestrutura.
No agregado, a combinação de expansão do mercado, sofisticação das estratégias e reforço regulatório aponta para a consolidação dos FIDCs como peça-chave no financiamento da economia real. Se antes eram vistos como um nicho técnico, hoje configuram um vetor relevante para empresas que dependem de capital de giro financiado via recebíveis, e para investidores que buscam diversificação em ativos descorrelacionados da renda fixa tradicional.
O resultado é um mercado que cresce, mas sobretudo amadurece — e que parece caminhar para um novo estágio, em que escala depende menos de volume e mais de confiança. Em um ambiente regulatório mais denso e transparente, a credibilidade passa a ser capital estratégico. E é exatamente nesse ponto que governança, regulação e comunicação se tornam indissociáveis.
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