
O presidente Emmanuel Macron disse que a França vai reforçar seu arsenal nuclear à medida que os compromissos de segurança dos Estados Unidos com a Europa dão sinais de enfraquecimento.
“Um reforço do nosso arsenal é indispensável”, afirmou Macron em discurso na base de submarinos de Île Longue, na Bretanha, nesta segunda-feira. “Para ser livre, é preciso ser temido, e para ser temido, é preciso ser poderoso.”
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O pronunciamento acontece num momento em que os governos europeus enfrentam o ambiente de segurança mais desafiador desde a Guerra Fria. A invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, agora em seu quinto ano, desfez as premissas sobre a estabilidade no continente. E o presidente Donald Trump levantou dúvidas sobre o compromisso dos Estados Unidos com a Otan e com a Europa.
Na estratégia de segurança nacional dos EUA, Trump criticou duramente os líderes da União Europeia por fraqueza e afirmou que o bloco enfrenta uma “aniquilação civilizacional” devido à migração em massa e ao declínio econômico. Ele também disse que os EUA iriam cultivar “resistência à trajetória atual da Europa dentro das nações europeias”, declaração vista como um apoio tácito aos partidos de extrema direita no continente.
Como líder do único país da UE com armas nucleares, Macron tem enfrentado questionamentos crescentes sobre se estenderia o guarda-chuva atômico francês ao restante do continente.
O atual estoque de ogivas da França, de 290 unidades, está em nível semelhante ao de 1984, segundo o Bulletin of the Atomic Scientists. O arsenal nuclear francês atingiu seu pico no início da década de 1990, com até 540 ogivas. As ogivas hoje estão divididas entre armas lançadas pelo ar e mísseis balísticos lançados por submarinos M51, fabricados pela ArianeGroup.
Embora Trump não tenha sugerido que os EUA irão retirar as armas nucleares que mantêm na Europa desde a década de 1950, no âmbito da Organização do Tratado do Atlântico Norte, as dúvidas sobre a postura americana levaram governos europeus a buscar formas de reforçar suas próprias defesas.
A França, de forma única na Europa, possui um arsenal nuclear independente que opera sem dependência técnica dos EUA. Essa posição fez de Paris o centro das discussões europeias sobre uma defesa nuclear própria.
“Precisamos agora alcançar uma nova etapa”, disse Macron. “Acredito poder afirmar que nossos parceiros estão prontos.”
Macron afirmou que a França está estreitando sua cooperação nuclear com vários países europeus, incluindo Alemanha, Polônia, Holanda, Bélgica, Grécia, Suécia e Dinamarca. Ele destacou ainda o Reino Unido como parceiro-chave. O Reino Unido possui seu próprio sistema de dissuasão nuclear, mas depende tecnologicamente dos EUA para operá-lo.
Segundo Macron, esses aliados europeus poderão participar de exercícios nucleares com a França. O país também poderia, temporariamente, estacionar aviões franceses com armas nucleares nesses territórios.
Estima-se que a França possua mais de 30 toneladas de urânio em grau militar e cerca de 6 toneladas de plutônio em grau militar, de acordo com a Associação de Controle de Armas — quantidade suficiente para uma expansão significativa do estoque de ogivas. Em 2024, o país informou que planeja produzir trítio, um isótopo de hidrogênio necessário para ogivas termonucleares, em uma usina nuclear civil.
O Centro de Valduc, perto de Dijon, é usado para manter, armazenar e desmantelar armas nucleares francesas, e já produziu ogivas no passado. Não se sabe publicamente quantas ogivas ele seria capaz de fabricar por ano.
Como outros países que abandonaram os testes nucleares explosivos, a França usa supercomputadores e lasers de alta potência para simular detonações nucleares, o que permite pesquisar novos modelos de ogivas e aperfeiçoar os existentes.
A mudança representa um desvio notável para a França, que não mantém armas nucleares em outros países europeus nem opera seu arsenal sob o guarda-chuva da Otan, garantindo que o presidente francês retenha controle total sobre qualquer uso ou deslocamento dessas armas. Macron ressaltou que a França continuará tendo a palavra final sobre como seu arsenal nuclear será empregado.
O arsenal nuclear francês é o quarto maior do mundo, e apenas os EUA e a Rússia possuem mais armas atômicas desdobradas — isto é, prontas para uso, em oposição às que não estão acopladas a sistemas de lançamento, em manutenção ou em reserva.
O objetivo principal da dissuasão francesa há muito tempo é desencorajar qualquer adversário de atacar os “interesses vitais” do país, sob a ameaça de uma retaliação capaz de causar danos inaceitáveis.
“O que eu mais quero é que os europeus retomem o controle de seu próprio destino”, afirmou Macron.
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