
O Organização da s Nações Unidas (ONU) chamou a atenção na sexta-feira (20) para o que classificou como um “aumento alarmante” no número de crianças recrutadas por gangues no Haiti, com “consequências devastadoras” para os jovens, famílias e a sociedade como um todo.
A nação caribenha, que tem um proporção de 45% da população com menos de 18 anos, está envolvida em uma crise crescente de segurança, humanitária e de governança. Gangues armadas controlam grandes áreas da capital Porto Príncipe, deslocando famílias e restringindo o acesso a escolas, saúde e serviços básicos.
Enquanto isso, a pobreza está piorando para as famílias mais vulneráveis, e as crianças estão cada vez mais suscetíveis a esse recrutamento de gangues para ganhar dinheiro. Com isso, os serviços para proteger crianças estão sobrecarregados ou ausentes, deixando menores em risco em bairros onde gangues exercem controle.
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O ONU informou que há pelo menos 26 gangues em atuação, com nomes como 103 Zumbis, Vila de Deus, Tóquio e Kraze Barye, operando em Porto Príncipe e áreas próximas. Eles controlam territórios, extorquem violentamente comunidades e lutam contra as forças de segurança haitianas sitiadas.
À medida que os confrontos se intensificam, as gangues dependem de um fluxo constante de recrutas, incluindo crianças, para manter o controle.
A Organização cita o relato de um jovem identificado apenas como Pierre, recrutado aos 10 anos: “Eles (membros da gangue) me deram cigarros e cocaína que sobrou. Fiquei muito viciado. Depois de usar cocaína, não me comportava mais como uma pessoa normal. Senti que estava em outro mundo e pronto para matar qualquer um”, disse.
Outro jovem, chamado de Joseph, de 16 anos, lembrou ter crescido em um bairro pobre onde gangues controlavam tudo. “Eu via homens armados nas ruas o tempo todo. Alguns estavam bem vestidos, tinham carros bonitos e estavam cercados por mulheres.”
Já as meninas enfrentam riscos acrescidos, incluindo exploração sexual, estupro e relacionamentos forçados com membros de gangues. Uma garota que se identificou como Júlia relatou: “Membros de duas gangues aliadas me forçaram a ter relações sexuais com vários deles em pelo menos seis ocasiões. Essas gangues controlam a área onde eu morava e criaram um clima de medo.”
A ONU lembra que, em bairros controlados por gangues, os membros majoritariamente armados podem parecer oferecer proteção, pertencimento ou renda onde o Estado não oferece nenhuma.
O deslocamento e a separação familiar aumentam a probabilidade de crianças entrarem para gangues. Dentro desses grupo, as crianças desempenham múltiplas funções: atuam como vigias, mensageiros e informantes, funções que exploram sua idade e sua capacidade de permanecer discretos.
Muitos também estão diretamente envolvidos em confrontos armados, postos de controle e sequestros para resgate. Uma criança relatou ganhar 1.000 gourdes por semana (menos de R$ 40) em um país onde muitos vivem abaixo da linha da pobreza.
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Sistemas de proteção
Um novo relatório divulgado pela ONU no Haiti pede sistemas de proteção infantil mais fortes, restauração do acesso à educação e iniciativas que previnam o recrutamento em comunidades afetadas por gangues.
O texto destaca que as famílias são fundamentais para prevenir o recrutamento e sugere um aumento de recursos, especialmente para famílias lideradas por mulheres, para proteger as crianças.
As escolas são destacadas por desempenharem um papel crucial de dissuasão, oferecendo tanto oportunidades de aprendizado quanto proteção contra a influência de gangues. A ONU continua apoiando a frequência escolar das crianças por meio da criação de cantinas, reabilitação de edifícios, criação de espaços temporários de aprendizagem e transferências de dinheiro para famílias.
Organizações locais estão sendo apoiadas pela ONU para realizar programas de treinamento profissionalizante, oferecendo aos jovens oportunidades de emprego e uma alternativa à vida de gangue. Combater as gangues para desacelerar sua expansão territorial e influência sobre as comunidades locais, especialmente sobre os jovens, também é identificado como prioridade.
A Força de Supressão de Gangues apoiada pela ONU, criada em 2025 e que tem mandato para contar com 5.000 pessoas, deve desempenhar um papel fundamental. A ONU também está trabalhando para fortalecer o sistema de justiça haitiano para combater o tráfico de crianças.
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