
A Argentina enfrentou nesta quinta-feira a quarta greve geral do governo de Javier Milei, que teve desdobramentos dentro e fora do país. Voos foram cancelados, o transporte público foram paralisados e as ruas foram tomadas por protestantes em reação à reforma trabalhista que amplia a jornada para até 12 horas e restringe direitos. A paralisação de 24 horas começou à meia-noite no mesmo dia em que ocorreu o debate do projeto na Câmara dos Deputados, após aprovação no Senado na semana passada.
Convocada pela Confederação Geral do Trabalho (CGT), a greve teve adesão considerada “muito significativa” pela central sindical, que estima participação de cerca de 90%. A estratégia foi esvaziar os principais centros urbanos, com adesão inicial dos sindicatos de transporte de passageiros, além de trabalhadores portuários, bancários, do comércio e do setor público. Ao todo, 13 sindicatos participam do movimento.
Argentina: Greve contra reforma trabalhista teve adesão significativa, diz sindicato
Segundo a central sindical CGT, cerca de 90% das atividades foram paralisadas
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O impacto foi imediato na aviação. A Aerolíneas Argentinas informou o cancelamento de 255 voos, afetando cerca de 31 mil passageiros e com impacto econômico estimado em US$ 3 milhões. No Brasil, ao menos 62 voos foram suspensos entre chegadas e partidas nos aeroportos do Galeão, no Rio, e de Guarulhos, em São Paulo.
Além dos aeroportos, a greve paralisou trens e metrôs, fechou bancos e reduziu a atividade comercial e produtiva. Jogos da Liga Profissional de Futebol também foram suspensos. Alguns setores específicos e trabalhadores autônomos mantiveram atividades, e poucas linhas de ônibus continuaram operando.
Reforma no centro do conflito
O projeto em discussão prevê, entre outros pontos, redução de indenizações, flexibilização de regras de contratação, mudanças no sistema de férias, possibilidade de pagamento de salários em moeda estrangeira, extensão da jornada padrão de oito para 12 horas e limitação do direito de greve. As mudanças mobilizaram milhares de pessoas nas imediações do Congresso, onde a sessão deve avançar pela madrugada.
“Queremos dizer ao governo que o povo votou para que seus direitos não fossem retirados”, afirmou Cristian Jerónimo, co-líder da CGT, ao anunciar a paralisação.
“Esta greve teve uma adesão enorme, com mais de 90% da atividade paralisada. Acho difícil chamar de modernização algo que nos faça retroceder 100 anos”, disse Jorge Sola, secretário-geral do Sindicato do Seguro, em coletiva.
Segundo Sola, a adesão reflete “um rompimento do tecido social e produtivo”. Ele alertou que, se a reforma virar lei, o conflito deve se intensificar.
“As medidas de força continuarão aumentando porque o projeto não fortalece direitos dos trabalhadores”, afirmou.
A greve ocorre em meio a sinais de retração da atividade industrial. Fontes sindicais apontam o fechamento de cerca de 21 mil empresas e a perda de aproximadamente 300 mil empregos desde dezembro de 2023. O caso mais recente é o da Fate, principal fabricante de pneus do país, que anunciou o fechamento de sua fábrica em Buenos Aires e a demissão de mais de 900 trabalhadores, citando perda de competitividade com a abertura das importações.
Confrontos em Buenos Aires
Houve confrontos entre policiais e manifestantes nos arredores do Congresso. Após um ato inicialmente pacífico, garrafas e pedras foram lançadas contra o cordão policial, que respondeu com canhões de água e gás lacrimogêneo. Os incidentes foram breves, e dezenas de manifestantes e policiais permaneceram à distância no fim da tarde.
Na semana passada, outra manifestação contra a reforma terminou com violência e cerca de 30 detenções. O governo minimizou os efeitos da paralisação e criticou a atuação sindical.
“A greve é bastante perversa porque corta o meio de transporte e impede quem quer trabalhar”, disse o chefe de Gabinete, Manuel Adorni. Segundo ele, os sindicatos têm alta rejeição popular.
O presidente Milei não estava no país durante a greve. Ele participou, em Washington, de eventos ligados ao Conselho da Paz lançado por Donald Trump. Paralelamente, o Fundo Monetário Internacional (FMI) manifestou apoio à reforma, pedindo que o governo “mitigue os custos de transição” associados à abertura econômica.
Enquanto isso, a Câmara dos Deputados segue debatendo o projeto, que, se aprovado, retornará ao Senado para sanção. A CGT afirma que manterá a mobilização caso a proposta avance.
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