
Pessoas nos Emirados Árabes Unidos, incluindo um empresário de destaque, começaram a criticar os Estados Unidos à medida que continuam os ataques de mísseis e drones do Irã contra países do Golfo, abalando os mercados financeiros e as economias da região.
Os Emirados são um dos aliados mais próximos do presidente dos EUA, Donald Trump. O país prometeu cerca de US$ 1,4 trilhão em investimentos e desenvolveu relações comerciais com a família do presidente. Ainda assim, esse relacionamento parece ter dado pouca influência a Abu Dhabi sobre o conflito.
“Quem lhe deu autoridade para arrastar nossa região para uma guerra com o Irã? E com base em que você tomou essa decisão perigosa?”, escreveu o bilionário de Dubai Khalaf Al Habtoor, empresário do setor hoteleiro, em uma publicação na rede X em 5 de março. “Você colocou os países do Conselho de Cooperação do Golfo e os países árabes no centro de um perigo que eles não escolheram.”
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Os Emirados têm sido um dos principais alvos dos ataques retaliatórios iranianos na região do Golfo. Embora as forças armadas tenham interceptado a maioria dos projéteis, o conflito ameaça a percepção de estabilidade que tem sido um fator importante para atrair investidores e instituições financeiras internacionais.
Outro empresário influente afirmou que a instabilidade contínua pressiona diversos setores em Dubai e interrompe cadeias de suprimentos de diferentes empresas. Segundo ele, se a guerra se estender por mais de um mês, algumas companhias poderão enfrentar decisões difíceis sobre produção e serviços. O executivo pediu para não ser identificado por tratar de informações sensíveis.
“Grande parte dos Estados do Golfo sempre soube que o presidente Trump agiria à sua maneira e não necessariamente ouviria influências externas”, disse Ryan Bohl, analista sênior da consultoria de inteligência de risco Rane Network, especializado no Oriente Médio e Norte da África. “Mas acho que eles ficaram surpresos com o quanto ele está disposto a assumir riscos que os afetam.”
A longa publicação em árabe feita por Al Habtoor, cujo grupo inclui resorts de polo e hotéis com marcas como Hilton e Waldorf Astoria, contrasta com a postura mais cautelosa adotada até agora por autoridades dos Emirados. Ainda assim, ela reflete a preocupação de parte da comunidade empresarial com os efeitos econômicos da guerra.
Setores importantes da economia, como turismo e aviação, já foram impactados. Milhares de passageiros ficaram retidos em aeroportos da região, obrigando muitos a utilizar rotas mais longas e caras para chegar a aeroportos ainda operacionais na Arábia Saudita e em Omã.
Autoridades dos Emirados tentam restabelecer gradualmente o tráfego aéreo, criando corredores seguros que permitam até 48 voos por hora.
O mercado financeiro também sente os efeitos da escalada militar. O principal índice da bolsa de Dubai caminha para sua pior semana desde maio de 2022.
Apesar das tensões, a vida cotidiana nas principais cidades do país continua em funcionamento. Lojas e restaurantes permanecem abertos, serviços de entrega operam normalmente e táxis e transporte público seguem em circulação, embora o tráfego nas ruas esteja menor do que o habitual.
O Irã tem atacado infraestrutura energética crítica em países do Golfo, enquanto o tráfego no Estreito de Ormuz, rota essencial para o transporte de petróleo e contêineres, praticamente parou, pressionando os preços do petróleo.
Investidores também acompanham com atenção possíveis efeitos do conflito sobre os planos de investimento externo do Oriente Médio, um dos pilares da estratégia econômica da região.
Além do compromisso de US$ 1,4 trilhão dos Emirados com os Estados Unidos — anunciado durante visita de Trump ao Golfo no ano passado — Catar e Arábia Saudita também prometeram investir quase US$ 2 trilhões na economia americana. Esses países também vêm enfrentando ataques de mísseis e drones iranianos.
Segundo o Financial Times, alguns governos do Golfo começaram a reavaliar grandes investimentos no exterior diante do risco de uma guerra prolongada.
Executivos de um fundo soberano de Abu Dhabi disseram que não há revisões em andamento no momento, enquanto outro investidor afirmou que a cidade continua com finanças sólidas. Ainda assim, qualquer recuo pode afetar mercados de fusões e aquisições que passaram a depender do capital da região.
As relações comerciais entre Emirados e Estados Unidos também se intensificaram nos últimos anos. Além do compromisso de investimento de dez anos, entidades emiradenses apoiaram parcerias em inteligência artificial, anunciaram investimentos bilionários em energia e encomendas de aeronaves.
Os vínculos se estendem à família de Trump. A Trump Organization, em parceria com um investidor, desenvolve uma nova torre em Dubai, além de projetos na Arábia Saudita e em Omã. Já a empresa MGX, de Abu Dhabi, adquiriu uma participação de US$ 2 bilhões na corretora de criptomoedas Binance, usando uma stablecoin associada à família Trump.
Mesmo com críticas a Washington, há também indignação nos Emirados com os ataques iranianos, que ocorreram apesar de os países do Golfo terem impedido o uso de seus territórios e espaços aéreos para ataques de Estados Unidos e Israel contra Teerã.
No sábado, um assessor do presidente dos Emirados, Mohammed bin Zayed, pediu publicamente que o Irã “retorne à razão”.
Ainda assim, empresários da região dizem temer que o conflito evolua para um período prolongado de confrontos de baixa intensidade com Teerã.
Nesse cenário, a decisão de Trump de entrar em guerra com o Irã — amplamente criticada na região — levantou dúvidas sobre os limites da influência econômica no relacionamento com Washington.
“Promessas de investimento compram acesso e boa vontade”, disse Andreas Krieg, especialista em segurança do Oriente Médio no King’s College London. “Mas não garantem poder de veto em Washington em uma crise, especialmente quando a Casa Branca considera que credibilidade e dissuasão estão em jogo ou quando a política doméstica recompensa a escalada em vez da contenção.”
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