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Hamnet: os segredos históricos escondidos no filme

por SampaNews 21 de fevereiro de 2026
21 de fevereiro de 2026
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Hamnet é um dos filmes mais comentados do momento e não é por acaso. O longa dirigido por Chloé Zhao, vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme Dramático de 2026, mergulha fundo em uma das histórias mais intrigantes da literatura universal: a vida de William Shakespeare antes de se tornar o maior dramaturgo de todos os tempos. 

Mas o que o cinema histórico muitas vezes não deixa claro é onde termina o fato e onde começa a ficção. E, no caso de Hamnet, essa linha é especialmente tênue.

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O filme biográfico é baseado no aclamado romance de Maggie O’Farrell, publicado em 2020, e acompanha a trajetória de Agnes Shakespeare, a esposa do Bardo, e a morte prematura do filho do casal, Hamnet, aos 11 anos. 

Com Paul Mescal no papel de Shakespeare e Jessie Buckley como Agnes, a narrativa histórica ganha vida com uma força emocional raramente vista nas telas. Mas quanto dessa história é real?

A resposta honesta é: pouco. E é exatamente aí que o filme se torna ainda mais fascinante. A escassez de registros históricos sobre a família Shakespeare abre espaço para uma ficção cuidadosamente construída sobre fatos reais e é nessa tensão entre o que sabemos e o que imaginamos que Hamnet encontra sua força.

Para quem quer entender o que é verdadeiro no filme Hamnet, o que foi dramatizado e quais são os segredos históricos escondidos no roteiro, este artigo vai destrinchar tudo isso. Prepare-se para uma viagem ao século XVI!

O que é o filme Hamnet e qual seu contexto histórico?

Hamnet é, na superfície, um filme sobre William Shakespeare. Mas, na prática, é um filme sobre Agnes, a mulher que a história insistiu em chamar de Anne Hathaway e que, por séculos, foi reduzida a uma nota de rodapé na biografia do marido famoso.

O longa foi rodado no País de Gales entre julho e setembro de 2024, com produção de Steven Spielberg e Sam Mendes, e estreou no Festival de Telluride antes de chegar aos cinemas americanos em novembro de 2025. 

No Brasil, o título ganhou o subtítulo A Vida Antes de Hamlet, uma escolha que já entrega muito sobre o que o filme quer dizer.

O contexto da Inglaterra elizabetana

A história se passa na Inglaterra do final do século XVI, um período marcado por surtos recorrentes de peste bubônica, alta mortalidade infantil e uma sociedade profundamente patriarcal. 

Mais de um terço das crianças não chegava aos 10 anos de idade. Nesse cenário, a morte de Hamnet Shakespeare, em agosto de 1596, era tragicamente comum, mas o que veio depois não era.

Poucos anos após a morte do filho, Shakespeare escreveu Hamlet, uma das peças mais encenadas e estudadas de toda a história da literatura. E o nome do protagonista? Na Inglaterra elizabetana, Hamnet e Hamlet eram considerados o mesmo nome, intercambiáveis, como o próprio filme deixa claro em seu prólogo.

O que é fato e o que é ficção em Hamnet

Alguns elementos do filme têm respaldo histórico sólido. William Shakespeare e Anne Hathaway se casaram em 1582, quando ele tinha 18 anos e ela, 26. 

Ela estava grávida na época, a filha Susanna nasceu cerca de seis meses depois. Em 1585, o casal teve gêmeos: Judith e Hamnet. Em agosto de 1596, Hamnet foi enterrado em Stratford-upon-Avon. A causa da morte nunca foi registrada oficialmente, mas a peste bubônica era endêmica na região naquele período.

É também historicamente confirmado que Shakespeare passava longos períodos em Londres, longe da família, trabalhando como ator e dramaturgo. E que, por volta de 1600, ele escreveu Hamlet, aproximadamente quatro anos após a morte do filho. Esses são os pilares factuais sobre os quais o filme e o romance de O’Farrell se sustentam.

Se você quer entender melhor quem foi Hamnet Shakespeare e a história real que inspirou o filme, vale a pena se aprofundar no personagem histórico por trás da tela.

Esta seria a única representação documentada de Agnes (ou Anne Hathaway) (Foto: Wikimedia Commons).

O que foi inventado ou imaginado

A maior parte do que vemos na tela é ficção criativa, construída com cuidado sobre lacunas históricas. 

Agnes como uma mulher com poderes quase sobrenaturais, conhecedora de ervas e praticante de falcoaria? Invenção de O’Farrell, ainda que inspirada em elementos reais da época, como o fato de que as mulheres da casa eram responsáveis por preparar remédios e tratar doenças.

O nome Agnes em si já é uma questão histórica. Nos documentos do casamento, ela aparece como “Anne Hathwey”. Mas no testamento do pai dela, o nome é Agnes. O’Farrell optou pelo nome do testamento paterno, argumentando que, se alguém saberia o nome verdadeiro dela, seria o próprio pai.

A cena em que Agnes viaja a Londres para assistir à estreia de Hamlet no Globe Theatre também é ficção, não há registro histórico de que isso tenha acontecido. Mas é, talvez, o momento mais poderoso do filme: quando ela percebe que a peça é uma homenagem ao filho morto.

O casamento dos Shakespeare: distante ou apaixonado?

Por décadas, biógrafos pintaram o casamento de Shakespeare como infeliz. Um homem que fugiu para Londres para escapar de uma esposa mais velha que o havia “armadilhado”. Essa narrativa, segundo a própria O’Farrell, é injusta e sem base sólida.

Pesquisas recentes do professor Matthew Steggle, da Universidade de Bristol, sugerem que Anne pode ter vivido em Londres com o marido em algum momento entre 1600 e 1610, o que contradiz a imagem do casal separado. 

Além disso, quando Shakespeare se aposentou, em 1613, ele voltou para Stratford para a família. Isso, como O’Farrell observou, “diz muito sobre onde estava o coração dele”.

 

Hamlet foi escrito por causa de Hamnet?

A hipótese central do roteiro de que Shakespeare escreveu Hamlet como uma forma de elaborar o luto pela morte do filho é especulativa, mas não absurda. O historiador Stephen Greenblatt, de Harvard, explorou essa conexão em seu influente ensaio de 2004, e ela continua sendo debatida por especialistas.

Daniel Swift, professor de inglês da Northeastern University em Londres, reconhece que há argumentos “razoáveis” para a teoria: 

  • O timing (quatro anos entre a morte e a peça);
  • O tema central de Hamlet (luto, memória, pais e filhos);
  • A equivalência dos nomes.

Mas ele também aponta os problemas: já existia uma peça chamada Hamlet em Londres antes de Shakespeare, e o nome do filho foi dado em homenagem ao padrinho, não ao personagem.

O que o filme propõe, com beleza e inteligência, é uma transformação: Shakespeare teria invertido a dor de um pai que perde o filho para criar a história de um filho que perde o pai. Uma sublimação artística que, como o próprio Swift admite, “é certamente muito possível”.

Para quem quer entender melhor o final do filme e o que Chloé Zhao quis dizer com ele, a cena final no Globe Theatre é uma das mais ricas em simbolismo de todo o cinema recente.

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Hamnet é recheado de cenas poderosas que simbolizam os temas tratados no filme (Foto: Divulgação/Universal Pictures).

Easter eggs para fãs de Shakespeare

O roteiro de Hamnet está repleto de referências para quem conhece bem a obra do Bardo. Uma das mais sutis é o monólogo de Ofélia em Hamlet, quando ela distribui flores e plantas com significados simbólicos, incluindo alecrim “para a memória”. 

No filme, Agnes é retratada como uma especialista em ervas medicinais, e O’Farrell afirmou que imaginou Shakespeare tendo aprendido sobre plantas com a própria esposa para escrever essa cena.

Outra referência está na cena em que Shakespeare recita para Agnes a lenda de Orfeu e Eurídice, um mito sobre amor, perda e a impossibilidade de trazer os mortos de volta. É uma antecipação poética de tudo o que está por vir.

O elenco de Hamnet como homenagem histórica

Um dos detalhes mais tocantes do filme está no elenco. Os irmãos Jacobi e Noah Jupe foram escalados, respectivamente, para os papéis de Hamnet e do ator que interpreta Hamlet no Globe Theatre. 

A semelhança física entre os dois é inegável e intencional. No clímax do filme, quando Agnes assiste à peça, ela vê o rosto do filho no palco. É ficção, claro. Mas é uma ficção que diz uma verdade emocional profunda.

A “segunda melhor cama” e outros detalhes reais

No testamento de Shakespeare, ele deixou para a esposa “a segunda melhor cama” da casa. Por séculos, isso foi interpretado como uma ofensa, prova de um casamento infeliz. 

Mas historiadores modernos explicam que, nas casas tudorianas, a melhor cama era reservada para hóspedes. A segunda melhor era, provavelmente, a cama do casal. Um gesto de intimidade, não de desprezo.

O filme não aborda diretamente esse episódio, mas o contexto que constrói em torno do casamento dos Shakespeare dialoga diretamente com essa revisão histórica e a crítica de Hamnet aponta exatamente como o longa usa a arte para reinterpretar o que a história deixou em aberto.

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Hamnet dá destaque a personagens “esquecidos” da história de Shakespeare (Foto: Divulgação/Universal Pictures).

Por que Hamnet importa além do cinema

O grande mérito de Hamnet, tanto o romance quanto o filme, é colocar no centro da narrativa as pessoas que a historiografia tradicional relegou às margens: a esposa, os filhos, a família. 

Uma história sobre quem a história esqueceu

Por séculos, Shakespeare foi estudado como um gênio isolado, uma mente que pairava acima da vida comum. O filme desfaz esse mito com delicadeza e força.

Agnes Shakespeare, seja ela Anne ou Agnes, seja ela letrada ou não, era uma mulher real, que amou, sofreu e sobreviveu à morte de um filho. E talvez, sem ela, Hamlet nunca tivesse existido.

Hamnet já está disponível nos cinemas brasileiros e em breve chegará ao streaming para quem ainda não teve a chance de assistir. Se você ainda não viu, vale muito a pena e, se já viu, agora você sabe onde assistir Hamnet novamente com outros olhos.

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