A Honda decidiu restabelecer a independência de seu departamento de pesquisa e desenvolvimento. A mudança ocorre após o CEO da marca, Toshihiro Mibe, reconhecer a dificuldade em competir com o ritmo acelerado da indústria automotiva chinesa.
Após visitar uma fábrica em Xangai e observar o alto nível de automação local, o executivo resumiu o cenário de forma direta: “Não temos a menor chance”.
A área de P&D da fabricante havia sido incorporada à estrutura principal da empresa em 2020, em uma tentativa de aumentar a eficiência operacional. Agora, a montadora japonesa volta atrás e retoma um modelo mais alinhado à sua tradição, devolvendo maior autonomia aos engenheiros. Historicamente, essa característica definiu a identidade da empresa na criação de novas tecnologias.

A visita de Mibe escancarou um dos principais desafios enfrentados pelas montadoras tradicionais globais. Em uma planta chinesa altamente automatizada e praticamente sem trabalhadores, o executivo observou como os fornecedores locais operam com velocidade e escala superiores, atendendo inclusive rivais de peso como a Tesla.
Esse avanço asiático se reflete diretamente no tempo de desenvolvimento dos veículos. Enquanto fabricantes japoneses e europeus levam mais tempo para lançar novos modelos, as empresas chinesas conseguem concluir o projeto entre 18 e 24 meses, operando com custos significativamente menores. Parte dessa vantagem estratégica vem da integração fluida entre produção e desenvolvimento local.

Atualmente, a Honda atua na China por meio de joint ventures com as marcas locais Dongfeng e GAC, produzindo veículos a combustão e carros elétricos. Modelos inéditos, como o e:Ny1 e o e:NS2, nasceram dessas parcerias, mas a oferta atual não foi suficiente para conter a expressiva queda nas vendas da marca no país.
Nos últimos 10 anos, a fabricante acumulou quedas consecutivas nos emplacamentos locais. Em 2024, foram cerca de 640 mil unidades comercializadas, número 24% inferior ao registrado em 2014. Esse cenário de retração reflete a preferência crescente do consumidor chinês pelas novas marcas nacionais.

Diante da crise, a Honda já admite rever sua atuação na China e direcionar parte de seus investimentos para mercados emergentes em ascensão, como a Índia. A montadora também reavalia seus planos de eletrificação no país asiático, o que inclui o lançamento de uma nova submarca de veículos elétricos. Paralelamente, a reestruturação do P&D surge como a aposta principal para recuperar a competitividade e reduzir o evidente atraso tecnológico em relação aos rivais chineses.
