A quantidade de mortes provocadas por policiais nas regiões de Campinas e Piracicaba cresceu de forma acelerada em apenas um ano. Dados do MP-SP (Ministério Público de São Paulo) mostram que as mortes decorrentes de intervenção policial tiveram alta de 47%, passando de 70 vítimas em 2024 para 103 em 2025.
O crescimento foi puxado, principalmente, pela atuação de batalhões de elite da Polícia Militar, como os BAEPs (Batalhões de Ações Especiais de Polícia). Esses batalhões recebem treinamento especializado no combate a grupos armados e são considerados tropas de elite dentro da Polícia Militar paulista.
Para especialistas, o emprego mais frequente desses batalhões, aliado a discursos que priorizam o enfrentamento e tratam a morte de suspeitos como “sucesso operacional”, amplia a probabilidade de ações com desfecho letal – entenda mais abaixo.
Campinas lidera números; Sumaré e Piracicaba registram saltos
Entre as 10 maiores cidades da região de Campinas, a metrópole campineira concentrou o maior número absoluto de mortes nos dois anos analisados. O total passou de 37 vítimas em 2024 para 49 em 2025.
Outros municípios, porém, chamam atenção pela evolução dos números. Piracicaba quase triplicou os registros, saltando de 5 para 14 mortes, enquanto Sumaré teve um crescimento ainda mais expressivo, de 3 para 15 vítimas em um único ano.
Os dados por município mostram:
- Campinas: 37 (2024) → 49 (2025)
- Piracicaba: 5 → 14
- Limeira: 10 → 7
- Sumaré: 3 → 15
- Indaiatuba: 0 → 2
- Americana: 4 → 3
- Hortolândia: 6 → 9
- Santa Bárbara d’Oeste: 3 → 1
- Mogi Guaçu: 1 → 3
- Valinhos: 1 → 0
Nº de vítimas por batalhões com sede na região de Campinas
| Unidade | 2024 | 2025 |
|---|---|---|
| 10º BAEP (PIRACABA) | 11 | 40 |
| 47º BPM/I (CAMPINAS) | 25 | 26 |
| 10º BPMI (PIRACABA) | 4 | 11 |
| 1º BAEP (CAMPINAS) | 6 | 11 |
| 48º BPM/I (SUMARÉ) | 6 | 8 |
| 35º BPM/I (CAMPINAS) | 7 | 8 |
| 26º BPM/I (MOGI GUAÇU) | 1 | 5 |
| 8º BPMI (CAMPINAS) | 2 | 2 |
| 10º BAEP-48º BPM/I (PIRA) | – | 2 |
| 19º BPM/I (AMERICANA) | 2 | 1 |
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BAEP de Piracicaba tem salto histórico e lidera letalidade no interior
O batalhão de Piracicaba foi o que mais registrou mortes decorrentes de intervenção policial entre as unidades do interior paulista em 2025. O número de vítimas provocadas por policiais que atuam na unidade saltou de 11 em 2024 para 40 no ano passado, ficando atrás apenas da ROTA, da capital, que encerrou o ano com 67 mortes.
Além disso, 2025 foi o ano mais letal da história do 10º BAEP desde o início da série histórica, em 2020. A unidade foi inaugurada em 2019.
Série histórica do batalhão:
- 2020: 14 vítimas
- 2021: 10
- 2022: 3
- 2023: 9
- 2024: 11
- 2025: 40
- 2026: 1 (até 20 de janeiro)
Outro dado que reforça o avanço da letalidade é a expansão territorial das operações. Em 2024, o 10º BAEP se envolveu em ocorrências com mortes em 5 municípios. Já em 2025, as 40 vítimas foram registradas em 14 cidades diferentes.
A maior parte dos casos ocorreu em Rio Claro, com 7 mortos, e Hortolândia, com 6 vítimas. Segundo o MP-SP, todas as ocorrências aconteceram durante ações oficiais, com policiais em serviço.
O que explica o aumento de mortes por intervenção policial
Advogada e professora de Direito da PUC-Campinas, Christiany Pegorari, explica que batalhões de elite, como os BAEPs, são treinados para atuar em situações extremas, com forte ênfase no confronto armado. O problema, segundo ela, surge quando esse tipo de atuação deixa de ser exceção e passa a ser empregado de forma recorrente.
“Quando esse modelo operacional se torna mais frequente ou passa a ser utilizado como resposta padrão, há uma tendência objetiva de aumento de resultados letais, sobretudo se não houver filtros claros sobre quando esse tipo de força é realmente necessária”,
afirma.
A professora também chama atenção para o impacto do discurso de confronto na atuação policial. Para Pegorari, quando a retórica do combate se sobrepõe a estratégias de inteligência e à preservação da vida, a tendência é o aumento da letalidade.
Esse efeito, segundo ela, se intensifica quando mortes de suspeitos passam a ser apresentadas como “sucesso operacional” em declarações oficiais, o que acaba estimulando o crescimento desses casos nas estatísticas.
“Políticas de segurança pública que reforçam a lógica do enfrentamento, associadas a discursos de legitimação prévia da violência policial, podem gerar um efeito simbólico perigoso: a percepção de maior permissividade no uso da força letal.”
Além disso, falhas na apuração das ocorrências, na transparência dos dados e na responsabilização em casos de abuso aumentam o risco de escalada da violência, sobretudo em batalhões fortemente armados e treinados para o confronto.
“Sem esses freios institucionais bem ajustados, o risco de escalada da letalidade aumenta”,
afirma.
A professora destaca que, diante desse cenário, os números não podem ser tratados como algo normal dentro da política de segurança pública.
“O aumento demanda avaliação crítica das estratégias adotadas, revisão de protocolos de uso da força, fortalecimento do controle institucional e, sobretudo, um debate público qualificado sobre o papel dos batalhões de elite dentro de uma política de segurança compatível com o Estado Democrático de Direito”,
conclui.
O que diz a Secretaria de Estado da Segurança Pública
Em nota, a Secretaria da SSP (Segurança Pública de São Paulo) afirmou que todas as ocorrências de mortes decorrentes de intervenção policial são investigadas pelas Polícias Civil e Militar, com acompanhamento das corregedorias, do Ministério Público e do Poder Judiciário.
A pasta informou ainda que mantém ações permanentes voltadas à redução da letalidade policial, como revisão de protocolos, capacitação de agentes e uso de tecnologia. Segundo a SSP, desde 2023, mais de 1,2 mil agentes foram presos, demitidos ou expulsos das corporações por desvios de conduta, e houve redução de 5% no número de mortes em confronto em comparação aos três primeiros anos da gestão anterior.
A secretária destacou que unidades como ROTA e BAEPs são empregadas em operações de alta complexidade e que, como reflexo das ações de segurança pública, a região de Piracicaba encerrou 2025 com queda em diversos indicadores criminais, incluindo homicídios, roubos e latrocínios.
“Como reflexo desse trabalho e de outras ações de segurança pública, a região de Piracicaba terminou o ano de 2025 com redução na maioria dos indicadores, com destaque para os homicídios e roubos (incluindo o de veículos), que apresentaram as menores quantidades em 25 anos. A queda também se estendeu para latrocínios, furtos em geral e de veículos, e estupros. Ao longo do ano, 20,4 mil criminosos foram presos e apreendidos, uma alta de 20,5% em relação a 2024. No período, mais de 1,1 mil armas de fogo foram retiradas de circulação, 3,3 mil veículos foram recuperados e a quantidade de drogas apreendidas mais que dobrou, com a apreensão de 9,3 toneladas”, informou um trecho da nota.
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