A busca por um tratamento capaz de devolver movimentos a pessoas com lesão medular levou um jovem de Campinas a percorrer quase 12 horas de viagem até o Rio de Janeiro para receber uma aplicação experimental de polilaminina.
A substância, que ganhou destaque nas redes sociais e tem mobilizado pacientes em todo o país, ainda é alvo de estudos e divide opiniões na comunidade científica (entenda mais sobre ela abaixo).
Felipe Barbosa ficou paraplégico após sofrer um acidente de moto na Rodovia Dom Pedro I, em fevereiro de 2026. Desde então, a família passou a procurar alternativas que pudessem auxiliar em sua recuperação.
Foi durante essa busca que a irmã dele, Wanessa Barbosa, encontrou informações sobre a polilaminina.
“Comecei a pesquisar e, através do Instagram, encontrei informações sobre o tratamento. A partir daí começou toda a luta contra o tempo, reunindo parecer médico, documentos e informações necessárias”, conta.
A família conseguiu na Justiça autorização para a aplicação da substância. Inicialmente, a expectativa era que o procedimento fosse realizado no Hospital de Clínicas da Unicamp. Segundo os familiares, porém, o hospital não autorizou a realização da aplicação em suas dependências.
Com isso, Felipe precisou viajar até o Rio de Janeiro para receber o tratamento.
“Foram quase 12 horas de viagem. Foi muito difícil, mas conseguimos”, relata Wanessa.
O que é a polilaminina?
A polilaminina é um composto produzido em laboratório a partir da laminina, uma proteína naturalmente presente no organismo humano.
Essa proteína tem papel importante principalmente durante o desenvolvimento embrionário, quando auxilia na formação dos tecidos e no crescimento celular.
Pesquisadores acreditam que a substância pode ajudar na regeneração de nervos danificados após uma lesão medular aguda, ou seja, aquela causada por um trauma recente.
A medula espinhal funciona como uma espécie de “rodovia” de comunicação entre o cérebro e o restante do corpo. Quando ocorre uma lesão, essa comunicação é interrompida, provocando perda de movimentos e sensibilidade.
A proposta da polilaminina é estimular a criação de novas conexões nervosas na região lesionada, permitindo que parte dessa comunicação seja restabelecida.
O que a ciência sabe até agora?
Apesar da expectativa criada em torno do tratamento, especialistas ressaltam que a polilaminina ainda está em fase experimental.
As pesquisas realizadas até o momento apontam indícios de benefício, mas os resultados ainda não foram publicados em revistas científicas de grande relevância nem passaram pelo processo de revisão por pares, considerado essencial para validação científica.
Além disso, estudos relacionados à substância chegaram a ser rejeitados por revistas científicas, o que demonstra que ainda há questionamentos sobre os dados apresentados.
Por isso, não existe comprovação científica definitiva de que a polilaminina seja capaz de recuperar movimentos em pacientes com lesão medular.
Também não há consenso sobre possíveis riscos associados ao tratamento.
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Uso é permitido em caráter experimental
Mesmo sem comprovação definitiva de eficácia, a aplicação da polilaminina pode ser autorizada em situações específicas.
Isso ocorre porque atualmente não existem tratamentos capazes de regenerar a medula espinhal após lesões graves. Diante desse cenário, a Anvisa permite o uso experimental da substância em determinados casos.
A autorização, no entanto, não significa que o tratamento tenha sido aprovado como eficaz, mas sim que ele pode ser utilizado dentro de protocolos específicos e sob acompanhamento médico.
Fisioterapia continua sendo fundamental
Os próprios pesquisadores envolvidos nos estudos da polilaminina destacam que a recuperação não depende apenas da aplicação da substância.
A reabilitação intensiva, especialmente com fisioterapia, é considerada parte essencial do tratamento.
Segundo os estudos divulgados até agora, o paciente que apresentou os melhores resultados após receber a polilaminina também passou por um programa intenso de fisioterapia e acompanhamento multidisciplinar.
Por isso, especialistas afirmam que qualquer evolução observada precisa ser analisada em conjunto com todo o processo de reabilitação.
Caso de jovem de Valinhos também ganhou repercussão
Outro caso recente que chamou atenção foi o da jovem Ana Beatriz Stubinski, de 22 anos, moradora de Valinhos.
Ela sofreu uma grave lesão medular após ser atingida por um galho que caiu de uma árvore na Praça Osório, em Curitiba. O acidente provocou lesões entre as vértebras T5 e T6 da coluna.
Ana Beatriz passou por cirurgias para estabilização da coluna e tratamento de complicações pulmonares decorrentes do acidente e também recebeu autorização para a aplicação experimental da polilaminina.

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