
O naufrágio de um navio de guerra iraniano pelos Estados Unidos, perto da costa do Sri Lanka, levou a guerra no Oriente Médio para a vizinhança imediata da Índia e complicou a estratégia cuidadosamente calculada de Nova Délhi, enquanto o Irã promete vingança pelo ataque.
Um submarino americano afundou, na quarta-feira, a fragata iraniana IRIS Dena perto da costa do Sri Lanka. Segundo as primeiras informações, 32 marinheiros foram resgatados e mais de 100 seguem desaparecidos ou mortos. Foi a primeira vez, desde a Segunda Guerra Mundial, que um submarino dos EUA atacou um navio de superfície, afirmou o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth.
Teerã prometeu retaliar. O chanceler Abbas Araghchi chamou o ataque de “atrocidade” e disse que os EUA “vão se arrepender amargamente”.
O episódio ocorreu poucos dias depois de o navio iraniano ter participado, a convite da Índia, de um dos principais exercícios navais do país, ao lado de embarcações indianas e de outras marinhas estrangeiras. Na prática, o ataque estende o conflito para uma área que Nova Délhi considera parte do seu quintal estratégico e coloca o governo do primeiro-ministro Narendra Modi numa posição delicada, enquanto ele tenta evitar se alinhar abertamente a qualquer lado na escalada de violência no Oriente Médio.
“Os EUA estão dizendo que ativos iranianos em qualquer lugar do mundo são alvos legítimos”, disse David Brewster, pesquisador sênior do National Security College da Australian National University. “Isso também abre espaço para que o Irã adote a mesma lógica.”
Segundo autoridades indianas da ativa e da reserva ouvidas sob condição de anonimato, a ação dos EUA é constrangedora para a Índia e equivale a levar a guerra a uma região onde o país tenta se vender como parceiro de segurança preferencial para vizinhos menores, como o Sri Lanka.
Pela rota que o navio seguia, dizem essas fontes, tudo indica que a tripulação iraniana não esperava um ataque. Se houvesse essa expectativa, a fragata teria navegado mais próxima da costa ou se misturado ao tráfego comercial internacional, o que teria dificultado a ação do submarino americano.
Até agora, o governo Modi evitou comentar diretamente o naufrágio do navio. Em uma coletiva ao lado do presidente da Finlândia, Alexander Stubb, na quinta-feira, Modi voltou a defender diálogo e diplomacia como caminho para encerrar conflitos, da Ucrânia ao Oriente Médio.
“Concordamos que só o conflito militar não resolve problema nenhum”, disse. “Seja na Ucrânia ou em Oeste Asiático, vamos continuar apoiando esforços para encerrar rapidamente as guerras e chegar a uma paz duradoura.”
Questionada se a Índia foi avisada de operações militares na região, a embaixada dos EUA em Nova Délhi encaminhou as perguntas ao Departamento de Defesa, que não respondeu de imediato.
A Marinha indiana informou ter enviado aviões e navios para resgatar marinheiros iranianos assim que recebeu o sinal de socorro, disse o porta-voz Vivek Madhwal, na noite de quinta-feira. Uma aeronave de patrulha marítima e um navio-escola que já estavam na área foram deslocados às pressas para apoiar as operações, e um grande navio de pesquisa segue procurando “pessoal desaparecido” em coordenação com a Marinha do Sri Lanka.
Zonas exclusivas e risco regional
O episódio chama atenção para o quanto a campanha dos EUA contra o Irã vem ganhando alcance geográfico. O naufrágio ocorreu em águas internacionais, mas dentro da zona econômica exclusiva do Sri Lanka.
Essas zonas, definidas pelo direito internacional, dão aos países direitos sobre recursos marítimos. Elas não são tecnicamente parte do território soberano, mas alguns governos — como China e Índia — rejeitam o uso desses espaços para fins militares por outras potências. Os EUA, por outro lado, defendem que atividades militares são permitidas ali.
Um porta-voz do gabinete do Sri Lanka disse no parlamento, na quinta-feira, que um segundo navio iraniano também estava na zona econômica exclusiva do país, e afirmou que o governo está fazendo “o máximo possível” para proteger vidas e garantir a segurança regional.
A presença de um submarino americano na região acende alertas sobre rotas de comércio marítimo e reforça os riscos estratégicos para a Índia, que costuma fazer patrulhas conjuntas com o Sri Lanka nessas águas.
“O episódio mostra mais uma vez que marinhas não lutam como exércitos, trocando homens, máquinas e munição através de uma linha em terra. Elas atacam onde quer que o inimigo ou seu comércio possam ser encontrados”, disse o vice-almirante da reserva Pradeep Chauhan, da Marinha indiana. “Com China e Rússia enviando navios para a região, o cenário é de risco elevado para todos.”
O IRIS Dena esteve na Índia de 15 a 25 de fevereiro para participar da International Fleet Review, ao lado de navios de outros 40 países, incluindo EUA e Rússia. O exercício ocorreu em Visakhapatnam, cidade litorânea no leste indiano, conhecida pelas praias, pelo turismo e por abrigar o comando da Frota do Leste da Marinha.
Moradores da cidade ficaram chocados com a notícia da destruição do navio iraniano, relatou o jornal The Hindu. Um ex-oficial da Marinha lembrou que tanto iranianos quanto americanos participaram dos exercícios e que oficiais dos dois países chegaram a se hospedar nos mesmos hotéis. Marinheiros do IRIS Dena visitaram pontos turísticos, incluindo um importante monumento hindu.
Em uma postagem nas redes sociais feita à época, o Comando Naval do Leste publicou uma foto de marinheiros posando no deque do navio iraniano e exaltou os “laços culturais de longa data entre as duas nações”.
Pressão política sobre Modi
O governo Modi já vinha sendo criticado internamente por não condenar de forma clara os ataques dos EUA e de Israel contra o Irã. A ida de Modi a Israel e o encontro com o premiê Benjamin Netanyahu, pouco antes dos bombardeios conjuntos, foram usados pela oposição como prova de um suposto aval tácito às ações.
Em publicação no X (antigo Twitter), o líder oposicionista Mallikarjun Kharge acusou o governo de “abdicar de forma irresponsável” dos interesses estratégicos da Índia, lembrando que o navio iraniano era “convidado da Índia” e voltava desarmado do exercício naval quando foi torpedeado na região do Oceano Índico.
Nova Délhi mantém laços históricos com o Irã e, por anos, foi importante compradora de petróleo iraniano. Ao mesmo tempo, Modi tenta administrar uma relação complicada com o governo Trump, que no ano passado impôs tarifas de 50% sobre exportações indianas e depois, de forma abrupta, anunciou um acordo comercial reduzindo essas taxas.
Para a Bloomberg Economics, a resposta da Índia à crise com o Irã mostra uma tentativa de equilibrar relações com atores-chave da região, protegendo cidadãos e, ao mesmo tempo, preservando interesses em energia, segurança e investimentos.
“O episódio traz risco de atritos com Washington e de constrangimento interno para o governo Narendra Modi”, escreveram os analistas Chetna Kumar e Adam Farrar.
Apesar de o ataque ao navio criar um precedente desconfortável e aumentar a pressão sobre os governos da Índia e do Sri Lanka, “não vemos isso como sinal de que o conflito esteja se ampliando para o sul da Ásia”, concluíram.
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