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O ex-motorista de táxi no centro da “guerra secreta” da Rússia

por SampaNews 25 de fevereiro de 2026
25 de fevereiro de 2026
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Os planos, dizem autoridades de segurança ocidentais, fazem parte de uma guerra nas sombras conduzida pelos serviços de inteligência da Rússia. Um ataque incendiário que destruiu mais de 1.000 negócios nos arredores de Varsóvia, na Polônia. Outro que queimou uma loja da IKEA na Lituânia. Um plano para colocar artefatos incendiários em aviões de carga no Reino Unido, Alemanha e Polônia.

Mas uma figura-chave nesses planos, afirmam as autoridades, não é um agente de inteligência. É um ex-motorista de táxi desleixado que vive em uma região agrícola da Rússia.

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Aleksei Vladimirovich Kolosovsky, de 42 anos, que tem ligações com grupos criminosos envolvidos em hacking, venda de identidades falsas e roubo de carros, tornou-se um personagem essencial nesse conflito não convencional. Com a ajuda de oficiais da inteligência russa, ele coordenou o planejamento e a execução de recentes atentados na Polônia, Lituânia, Reino Unido, Alemanha e possivelmente em outros lugares, segundo documentos judiciais e entrevistas com mais de uma dúzia de autoridades de segurança de cinco países europeus.

O papel de Kolosovsky é algo novo, disseram essas autoridades. Ele não é um oficial treinado nem um ativo infiltrado em um governo estrangeiro. É mais um prestador de serviço, afirmaram, que trabalha de perto com agentes de inteligência — a maioria deles do GRU, o serviço de inteligência militar da Rússia, responsável principalmente por operações de sabotagem.

Operadores como Kolosovsky tornaram-se mais comuns na campanha de sabotagem em evolução do Kremlin, cada vez mais violenta, que escalou de pequenos atos de vandalismo para atentados a bomba, incêndios criminosos e assassinatos. O objetivo, segundo as autoridades, é abalar a unidade do Ocidente.

Kolosovsky, disseram, traz para essa disputa uma ampla rede de criminosos que sabem como deslocar bens e pessoas sem chamar a atenção das autoridades. Mais importante: esses contatos vivem e podem circular pela Europa, algo que se tornou cada vez mais difícil para os agentes de inteligência profissionais da Rússia desde que o presidente Vladimir Putin lançou a invasão em grande escala da Ucrânia.

“Estamos agora operando em um espaço entre a paz e a guerra”, disse Blaise Metreweli, chefe da agência de espionagem britânica, conhecida como MI6, em um discurso. “A Rússia está nos testando na zona cinzenta com táticas logo abaixo do limiar da guerra.”

Novos recrutas

Robusto e frequentemente por fazer a barba, Kolosovsky chamou a atenção dos serviços de inteligência ocidentais pela primeira vez após uma dupla de ataques incendiários em maio de 2024, disseram duas das autoridades de segurança.

Usando uma conta no aplicativo de mensagens Telegram, sob variações do nome “Warrior”, ele recrutou uma teia de agentes, incluindo um adolescente ucraniano, para plantar artefatos incendiários em uma loja da IKEA na capital lituana, Vilnius, e em um grande centro comercial nos arredores de Varsóvia, de acordo com as autoridades e com registros judiciais.

A partir de sua base em Krasnodar, cidade no sul da Rússia, Kolosovsky orquestrou o envio de detonadores e materiais para fabricação de bombas para armários de encomendas em estações de trem, de onde recrutas muitas vezes sem plena consciência do plano os retiravam, segundo autoridades de segurança de dois países ocidentais e documentos judiciais.

Em 8 de maio de 2024, o adolescente ucraniano, Daniil Bardadim, colocou um artefato incendiário com temporizador remoto na seção de colchões de uma loja da IKEA. O dispositivo foi acionado na madrugada de 9 de maio, intencionalmente programado, disseram promotores, para o dia em que Moscou celebra a vitória da União Soviética sobre a Alemanha nazista.

Bardadim foi preso alguns dias depois. Ele foi retirado de um ônibus na Lituânia a caminho da capital da Letônia, Riga. Levava uma bolsa cheia de itens que pretendia usar para fazer uma bomba, incluindo um carrinho de controle remoto, dois vibradores e seis celulares, segundo os documentos judiciais. Ele planejava detonar um artefato em Riga semelhante ao que havia colocado na loja da IKEA. Antes de sua prisão, havia recebido um BMW de modelo antigo como pagamento pelo atentado em Vilnius.

Mais ou menos na mesma época, outro grupo de cúmplices ligados a Kolosovsky iniciou um incêndio nos arredores de Varsóvia que destruiu mais de 1.000 pequenos negócios. Depois, Donald Tusk, primeiro-ministro da Polônia, afirmou que as autoridades sabiam “com certeza” que os serviços de inteligência russos eram responsáveis. Em resposta aos planos de sabotagem, a Polônia fechou todos os consulados do Kremlin no país, prejudicando o trabalho de seus espiões.

“As ações foram coordenadas por uma pessoa que está na Rússia”, disse Tusk.

Kolosovsky não respondeu a vários pedidos de comentário. O Kremlin tem negado repetidamente qualquer envolvimento em sabotagem.

Os serviços prestados por Kolosovsky e outros como ele são uma questão de necessidade para a Rússia. Desde a invasão da Ucrânia, mais de 750 diplomatas russos foram expulsos da Europa, “a grande maioria deles espiões”, disse Ken McCallum, chefe da agência de segurança interna britânica MI5, em um discurso em 2024.

“Mandamos de volta para casa quase todos os russos”, disse Michal Koudelka, diretor do Serviço de Informação de Segurança da República Tcheca, o serviço externo de espionagem do país, em uma entrevista. “A capacidade dos russos de atuar em território tcheco sob cobertura tradicional é muito limitada.”

As expulsões deixaram o Kremlin parcialmente cego e incapaz de reagir enquanto nações ocidentais começaram a enviar grandes quantidades de armas e equipamentos à Ucrânia para enfrentar as forças russas. Em resposta, Putin recorreu ao GRU, que há muito é a principal agência para operações secretas no exterior.

Antes da invasão da Ucrânia em 2022, agentes do GRU de um grupo especializado conhecido como Unidade 29155 realizaram assassinatos, planejaram golpes e explodiram depósitos de armas na Europa.

Após a invasão, o GRU ampliou esse esforço, promovendo o comandante da Unidade 29155, general Andrei Averyanov, a vice-chefe de toda a agência. Sua ascensão foi vista por autoridades de inteligência ocidentais como um reflexo de quão importante a sabotagem se tornou para o conflito de Putin com o Ocidente.

Sabotagem não é novidade para o GRU. Manuais de treinamento que remontam à década de 1930 descrevem o conceito de “batalha profunda”, que inclui operações de sabotagem muito atrás das linhas inimigas.

Mas essas operações deveriam ser realizadas por oficiais profissionais em tempos de guerra. Agora a Rússia depende de um grupo heterogêneo de criminosos, refugiados ucranianos e outras pessoas desesperadas por dinheiro.

“Durante a Guerra Fria, havia pelo menos algum nível de responsabilidade e profissionalismo”, disse Sean Wiswesser, ex-oficial da CIA que escreveu um livro sobre os serviços de inteligência russos, contra os quais trabalhou por décadas. “Mas agora tudo parece estar no campo do possível. Nunca vimos esse nível de imprudência.”

Uma rede de espionagem

Nada no perfil público de Kolosovsky sugere uma vida de intrigas secretas.

Ele parece viver modestamente e está frequentemente endividado, segundo autoridades de segurança de um país europeu. Suas contas em redes sociais exibem muitos carros, embora não sejam modelos chamativos. Sua última publicação em uma dessas contas foi em 15 de dezembro de 2020, seu aniversário. Ela trazia uma fotografia com a mãe.

Autoridades de segurança ocidentais e pesquisadores que investigaram seu passado encontraram indícios de outra vida, oculta.

Kolosovsky parece ter estado associado a um ladrão de carros profissional chamado Daniil Oleynik, que usava o apelido online Wasp Killer. Autoridades de segurança ocidentais ligaram os dois a um canal no Telegram — Kolosovsky sob o pseudônimo LexTER — que era usado como plataforma para extorquir pagamentos de resgate de pessoas cujos veículos haviam sido roubados. Oleynik foi preso na Itália e extraditado para a Ucrânia em agosto de 2024 por acusações de roubo de carros.

Não está claro se Kolosovsky também era ladrão de carros. Mas pesquisadores e autoridades de segurança conectaram seus números de telefone a uma rede de canais e grupos no Telegram envolvidos com contrabando e “doxxing”, além da venda de identidades falsas e de equipamentos usados para roubar carros. Seu número frequentemente era salvo nos celulares das pessoas como “Aleksei” mais o nome de uma marca de carro, como Lexus, Ford ou Toyota.

Kolosovsky também é um operador cibernético sofisticado. Ele esteve associado a um coletivo de hackers chamado KillNet, segundo autoridades de segurança de um país europeu. Desde a invasão, o KillNet passou a se concentrar em atacar sites de empresas ucranianas e europeias. Em 2024, o grupo afirmou ter invadido uma gestora de recursos francesa.

Em 2021, Kolosovsky foi detido brevemente pelas autoridades russas, embora não se saiba o motivo. Foi então, disseram as autoridades de segurança, que ele provavelmente foi recrutado pelos serviços de inteligência, que costumam vasculhar prisões em busca de detentos potencialmente úteis dispostos a trabalhar para eles em troca de liberdade.

Depois que Kolosovsky foi detido, seu associado Oleynik implorou aos seguidores que apagassem suas comunicações porque as autoridades haviam confiscado os dispositivos eletrônicos de Kolosovsky, segundo as autoridades de segurança. Canais no Telegram possivelmente ligados a Kolosovsky também desapareceram, disseram.

Sua mãe, que costuma postar fotos da família nas redes sociais, não publica nenhuma imagem de Kolosovsky pelo menos desde 2021. Quando perguntada sobre o paradeiro dele em um comentário em uma rede social russa em julho de 2022, respondeu que ele estava em uma viagem de negócios.

Uma reação crescente

No início da manhã de 20 de julho de 2024, um contêiner sendo carregado em um avião de carga da DHL em Leipzig, na Alemanha, pegou fogo. Menos de 24 horas depois, um pacote em um caminhão de carga que atravessava a Polônia incendiou. Um dia depois, em Birmingham, na Inglaterra, aconteceu o mesmo em uma empilhadeira em uma instalação de remessas da DHL, que transportava um palete de pacotes.

Os ataques coordenados alarmaram mais os governos ocidentais do que as tentativas anteriores de sabotagem, porque tinham o potencial de derrubar aviões cargueiros em voo e causar muitas mortes. Uma investigação envolvendo nove países concluiu posteriormente que o GRU estava por trás dos planos e que uma vasta rede de operativos na Europa os executou, “obedecendo a uma conspiração muito rigorosa”, segundo promotores na Lituânia, onde as encomendas-bomba se originaram.

No centro desses ataques, dizem autoridades de segurança de dois países europeus, estava Kolosovsky.

Ele coordenou o recrutamento da rede que ajudou a supervisionar o transporte e a distribuição dos materiais usados para fabricar os artefatos incendiários, de acordo com as autoridades europeias e documentos judiciais. A rede, dizem esses documentos, usou um material incendiário de grau militar chamado termite para fazer os dispositivos, que foram escondidos dentro de almofadas de massagem equipadas com temporizadores eletrônicos.

(O Washington Post já havia revelado anteriormente o possível envolvimento de Kolosovsky com o GRU e sua ligação com o plano de colocar artefatos incendiários em aviões de carga.)

Os ataques marcaram uma escalada drástica da guerra nas sombras da Rússia, indicando maior disposição para recorrer à violência para atingir seus objetivos de segurança nacional, disseram autoridades de segurança dos cinco países europeus. Se o avião cargueiro da DHL em Leipzig não tivesse sido atrasado, afirmaram, o artefato provavelmente teria explodido em pleno ar. O episódio alarmou tanto a Casa Branca que o conselheiro de segurança nacional do presidente Joe Biden e o chefe da CIA contataram seus colegas russos com uma mensagem para interromper imediatamente tais ações.

“Os russos levaram assassinato e sabotagem patrocinados pelo Estado a um novo patamar”, disse Wiswesser. “Estão usando isso para alcançar objetivos estratégicos.”

c.2026 The New York Times Company

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