
Nesta semana, longa sequência de invencibilidade política de Giorgia Meloni chegou ao fim na Itália — e a amizade da primeira-ministra com Washington é em parte responsável pela derrota, afirma em análise o Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR). Após mais de três anos de relativa estabilidade para Meloni, os italianos disseram não à sua proposta de reforma judicial em um referendo constitucional.
Embora a votação fosse sobre uma questão técnica de separação das carreiras judiciais, rapidamente se tornou um referendo sobre o governo, destaca o think tank. Com uma alta participação de 59% e um retumbante resultado de 54% votando “não”, Meloni certamente estará preocupada, pelo arranhão na fachada de popularidade.
Uma explicação por trás da derrota é a uma desconexão crescente entre sua posição soberanista, que a levou a se aproximar do presidente Donald Trump, e o dano econômico causado por seu aliado americano, diz o ECFR.
O centro de estudos lembra que dados de grandes institutos de pesquisa indicam que a opinião pública é bastante contrária às políticas de Trump, e é fácil destacar a diferença entre a narrativa de um governo que garante o “interesse nacional” e a realidade de um governo que falha em proteger a Itália dos choques externos induzidos por seu principal aliado.
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“Essa ‘armadilha Trump’ deu ao referendo uma dimensão adicional: um julgamento sobre uma liderança que parece relutante demais em defender Roma dos custos punitivos das escolhas estratégicas de Washington — especialmente uma guerra de escolha com o Irã.”
A explicação é que o agravamento do conflito no Oriente Médio e o consequente fechamento do Estreito de Ormuz atingiram a Itália mais duramente do que qualquer outra nação europeia devido à sua forte dependência energética do Golfo. Analistas alertaram sobre uma recessão iminente, com um aumento projetado de 1% a 1,5% na inflação impulsionado exclusivamente pelo conflito iraniano.
“Para o coração manufatureiro do norte da Itália — uma base eleitoral chave para a coalizão governista — o aumento dos custos de energia pode ser visto como uma falha direta do Estado em proteger a economia nacional. De qualquer forma, a Itália está embarcando em uma nova e frenética busca por combustível, e Meloni foi forçada por essas circunstâncias a viajar novamente para Argel na quarta-feira”, diz o texto.
Essas pressões econômicas são agravadas pela forma como a administração dos EUA trata seus aliados do outro lado do Atlântico, continua a análise. A relação de Trump com a OTAN em questões de segurança e a ameaça de tarifas comerciais punitivas sobre exportações criaram um senso de soberania vassala na Itália, em vez de verdadeira independência.
“Mesmo dentro do eleitorado de centro-direita, há sinais claros de oposição a uma política externa que trata a Itália como uma vítima colateral do ‘America First’ de Trump. Na verdade, é a favor de uma integração europeia mais forte. Essa mudança sugere que os italianos podem estar cada vez mais desconfiados de um primeiro-ministro que se alie a um aliado desestabilizador em detrimento da estabilidade interna e da coesão europeia.”
Conservadores x moderados
Segundo o Conselho Europeu de Relações Exteriores, para a Europa, o voto italiano é um estudo de caso. “A derrota de Meloni feriu seu status como vanguarda da direita conservadora europeia. Isso pode oferecer uma oportunidade para as vozes mais moderadas ou pró-europeias dentro de seu governo desafiarem a narrativa de que o populismo de direita é o único caminho viável para a força nacional”, afirma a análise.
Mas caso a mudança para uma política mais moderada não prevaleça, Roma ficará ainda mais envolvida no destino ditado por Trump, e o declínio de Meloni antes das eleições do próximo ano pode ser inevitável, alerta o Centro. “A derrota também pode ser um sinal de alerta para outros amigos de Trump, especialmente Viktor Orbán, na Hungria, que tem uma eleição tensa chegando em duas semanas.”
O think tank conclui dizendo que, quando os EUA prendem um Estado-membro em conflitos que comprometem sua segurança, a linha da “defesa dos interesses nacionais” pode ser a primeira vítima. “A lição para os líderes europeus é clara: a verdadeira soberania exige independência genuína. Não se pode afirmar priorizar o interesse nacional sem defendê-lo dos ditados econômicos e dos custos militares impostos por um aliado instável.”
“Para sobreviver a essa instabilidade geopolítica, os líderes europeus precisam caminhar para uma coesão mais pragmática e movida pelos interesses, que se recuse a permanecer à sombra do homem desestabilizador na Casa Branca.”
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