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Política interfere em juros, dólar e Bolsa? Saiba como investir em ano eleitoral

por SampaNews 20 de fevereiro de 2026
20 de fevereiro de 2026
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A pauta econômica costuma render debates relevantes durante a corrida eleitoral. Enquanto os candidatos sinalizam a política macroeconômica que deverá ser colocada em prática, os investidores tentam ler sinais que indiquem onde podem ganhar mais (ou evitar perdas) de acordo com cada cenário. No geral, a dúvida que paira no ar é: como se proteger da volatilidade e tirar maior proveito da situação?

Em 2026, o Brasil deverá registrar uma queda na inflação e na taxa básica de juros, aliado a um cenário internacional de desvalorização do dólar. Esse combo tende a impactar o câmbio, a curva de juro e o fluxo de capital estrangeiro, e as incertezas trazem maiores prêmios de risco — ou seja, quem se arrisca mais, tende a obter maior retorno. 

‘Investir em ano eleitoral exige método’

Na avaliação de Priscilla Cacavallo, gerente da Daycoval Investe, o ano eleitoral adiciona uma camada extra de incerteza ao mercado, que se soma às variáveis tradicionais da economia. 

Mais do que o resultado da eleição em si, o que efetivamente move os preços é a percepção sobre a condução futura da política econômica, especialmente no campo fiscal – ou seja, nos gastos do governo.

“Não devemos enxergar esse período como um risco extremo, mas como um ciclo que exige estratégia e clareza sobre o papel de cada classe de ativo. Investir bem em ano eleitoral passa, necessariamente, por método”, afirma.

E, ao se referir a método, Cacavallo sugere que o investidor comece pelo básico: conheça seu perfil e sua necessidade de liquidez.

Um estudo da XP indica que, historicamente, quatro vetores atuam sobre a volatilidade em anos eleitorais: choques globais, como a crise da dívida europeia em 2010 ou a guerra Rússia-Ucrânia em 2022; ruídos locais com impacto macroeconômico, como a greve dos caminhoneiros em 2018 ou as discussões fiscais em 2022; mudanças abruptas no cenário eleitoral, como a entrada inesperada de candidaturas competitivas, caso de Marina Silva em 2014 e, em menor escala, Fernando Haddad em 2018; e discrepâncias entre pesquisas e resultados efetivos das urnas, com 2014 sendo o exemplo mais emblemático.

Saiba mais: Como ações, juros e dólar costumam se comportar em anos eleitorais no Brasil, segundo a XP

Prepare-se para a oscilação

Diante desse cenário, as decisões de investimento devem focar mais nas oscilações (e em como se blindar delas) do que na tentativa de prever o resultado das urnas. Isso ajudará o investidor a atravessar este período com consistência, segundo Cacavalho

O primeiro reflexo desse ambiente aparece na volatilidade. Pesquisas eleitorais, discursos e sinalizações de programas de governo passam a influenciar preços de forma mais intensa, provocando movimentos rápidos e, muitas vezes, assimétricos. 

Neste período de corrida eleitoral, o mercado se torna mais reativo às manchetes e menos tolerante a ambiguidades, o que reforça a importância da disciplina. Mas, como isso funciona?

O câmbio vai variar, saiba como aproveitar

Os investimentos não mudam devido ao candidato, mas sim devido às expectativas quanto à condução da economia que determinados candidatos representam.

Dúvidas sobre o compromisso com o equilíbrio fiscal tendem a pressionar o dólar, enquanto sinais de responsabilidade e previsibilidade geram alívio rápido. Não por acaso, movimentos cambiais em anos eleitorais costumam anteceder ajustes mais amplos em outros ativos, explica Cacavallo.

“O câmbio costuma ser o primeiro ativo que reage ao aumento de incertezas políticas”, afirma Cacavalho.

Para se proteger, o investidor pode buscar a diversificação internacional. Cacavalho explica que isso pode ser feito com ativos diretamente no exterior, fundos cambiais que o investidor encontra nas plataformas aqui no Brasil – com valor mínimo de aplicação próximo de R$100,00, por meio de BDRs – e até mesmo via ETF, como o DOLA11, que replica o índice futuro de dólar. 

“Para aproveitar as oscilações, é preciso cautela. O câmbio é um ativo de difícil previsão e muito sensível a ruídos. Movimentos bruscos podem abrir oportunidades táticas, mas isso faz mais sentido para investidores com perfil mais arrojado e visão de curto prazo. De forma geral, o câmbio deve ser tratado mais como instrumento de proteção e diversificação do que como aposta direcional. Em ano eleitoral, ele ajuda a equilibrar risco, mas não deve concentrar estratégia”, sugere.

Saiba mais: ‘Ficar longe de problemas’: gestores revelam mantras e onde investir no ano eleitoral

Navegue na curva de juros

A curva de juros mostra a rentabilidade de um investimento versus o prazo de vencimento deste ativo. Na essência, ela reflete as expectativas do mercado sobre inflação, crescimento e trajetória fiscal.

Se o mercado vê maior probabilidade de inflação à frente, a curva de juros tende a “abrir” (inclinar para cima). Isso significa taxas de juros mais altas para prazos mais longos e menores para prazos mais curtos. Isso porque o mercado antecipa que, com inflação mais alta, será preciso subir a taxa básica de juros, o que aumenta as taxas futuras. O contrário ocorre quando há uma projeção de inflação mais controlada.

Aqui, o ponto central não é o resultado da eleição, pontua Cacavalho, mas os projetos econômicos e a sinalização sobre a gestão fiscal nos anos seguintes – um debate que hoje está no centro da agenda no Brasil e no mundo.

“Quando o mercado enxerga compromisso fiscal e previsibilidade, a curva tende a melhorar, especialmente nos vértices mais longos, com expectativa de juros estruturalmente mais baixos à frente. Por outro lado, sinais de menor disciplina fiscal pressionam as taxas longas, encarecendo o custo do capital”, afirma.

Essa leitura de cenários, aliado ao perfil do investidor e às necessidades de resgate do investimento (prazo de liquidez), pode permitir mudar estratégias ao longo do ano, observando tendências futuras.

Se um investidor tiver um título longo atrelado à inflação, como o Tesouro IPCA+ 2045, por exemplo, ele pode ficar atento a oportunidades. 

“Os títulos indexados ao IPCA ou Pré-fixados podem sofrer variações quando estamos falando da marcação a mercado – dinâmica de calcular o quanto está valendo aquele ativo no dia (d+0) caso o investidor vá fazer a compra ou a venda. Para investidores que possuem o título na carteira, mas pretendem carregar até o vencimento, estas variações não irão impactar o resultado final”, afirma.

Por outro lado, as oscilações geram oportunidades de se desfazer do papel e colocar “dinheiro no bolso”. Cacavalho que se as taxas longas sobem por aumento de percepção de risco fiscal ou incerteza política, o preço do título cai no curto prazo. “Isso não significa perda definitiva, desde que o investidor leve o papel até o vencimento e este pode até ser um bom momento para comprar mais”, explica.

Já se as taxas longas caem, o movimento é inverso e pode ser um bom momento de realizar ganhos e sair da posição. “A decisão de se desfazer ou não depende do horizonte. Se o título foi comprado com planejamento e está alinhado ao prazo do objetivo, a volatilidade é parte do caminho. Para quem estiver desconfortável com a volatilidade, é prudente ajustar a alocação e equilibrar com ativos pós-fixados ou então reduzindo o prazo dos títulos”, afirma.

Bolsa: oportunidades em setores sólidos

Na Bolsa de Valores, o impacto raramente é homogêneo. Setores mais sensíveis ao ciclo doméstico e à política econômica tendem a sofrer mais, enquanto empresas de maior qualidade, com balanços sólidos e geração de caixa previsível, costumam se destacar em ambientes de maior incerteza.

Bruno Perri, economista-chefe, estrategista de investimentos e sócio-fundador da Forum Investimentos, sugere investimentos em ativos de utilidade pública, como saneamento, energia elétrica e telefonia, além dos bancos. 

Outras oportunidades podem aparecer em empresas “maduras e com forte geração de caixa”, afirma Perri, sem citar nomes específicos.

Proteção ou oportunidade?

Considerando todo o cenário, os anos eleitorais não são ruins para investir, mas exigem estratégia, diversificação e disciplina. 

Segundo Cacavallo, a “chave” está em equilibrar proteção e oportunidade, mantendo foco em fundamentos e evitando decisões pautadas exclusivamente pelo ruído político de curto prazo.

Para o perfil conservador, o foco deve ser preservação de capital, com maior peso em pós-fixados e inflação, evitando alongar demais o prazo da carteira em momentos de maior incerteza.

O moderado precisa equilibrar proteção e oportunidade, mantendo uma base defensiva em renda fixa, mas preparado para aproveitar distorções pontuais na bolsa

Já o arrojado pode usar a volatilidade a favor, buscando empresas com fundamentos sólidos, mas sempre com diversificação e gestão de risco.

Estratégias de investimento em ano eleitoral, por perfil
PERFIL PROTEÇÃO OPORTUNIDADES
Conservador Pós-fixados atrelados ao CDI, IPCA+ de prazo curto a intermediário e reserva de liquidez bem dimensionada. Evitar exposição excessiva a vencimentos longos. Travar boas taxas em renda fixa quando a curva abrir além do razoável, sempre respeitando prazo e objetivo.
Moderado Base relevante em CDI e inflação, com diversificação internacional como hedge cambial. Equilíbrio de prazos na renda fixa. Ações de empresas com geração de caixa previsível e baixa alavancagem quando houver estresse político exagerado.
Arrojado Diversificação global e renda fixa como amortecedor de volatilidade. Gestão ativa de duration. Bolsa doméstica em momentos de prêmio elevado e prefixados longos se houver abertura excessiva das taxas diante de ruído eleitoral.
Fonte: Daycoval

Independentemente do perfil, Cacavalho destaca alguns pontos que merecem atenção: trajetória fiscal, sinalizações sobre política econômica, comportamento da curva longa de juros e fluxo estrangeiro. “São esses fatores que realmente mexem com os preços. Em ano eleitoral, disciplina pesa mais do que opinião”, afirma.

A lógica proposta por Priscilla Cacavallo parte de uma ordem clara de prioridades. Primeiro, é preciso pensar em proteção: ajuste de liquidez, travamento de reservas e revisão da proporcionalidade entre pós-fixados, prefixados e papéis atrelados ao IPCA. 

Depois, oportunidade, quando a volatilidade amplia pontos de entrada e setores passam a precificar incertezas de forma exagerada.

“Um bom investidor não foge da volatilidade. Ele a utiliza com inteligência”, resume. 

A travessia eleitoral tende a separar movimentos táticos de estratégias duradouras e a alocação vencedora será aquela capaz de proteger capital sem abrir mão das assimetrias que surgem quando o mercado exagera nas incertezas.

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