
Se você buscar o preço do petróleo no Google, provavelmente vai encontrar dois valores amplamente divulgados para a commodity: um nos Estados Unidos e outro na Europa.
Esses preços, que mudam o tempo todo nos mercados eletrônicos, sugerem que, embora a guerra com o Irã tenha tornado a energia muito mais cara, a situação está longe de ser tão grave quanto há quatro anos, depois que a Rússia invadiu a Ucrânia.
Mas, se você precisasse de um navio-tanque cheio de petróleo — e com urgência — isso sairia muito mais caro.
Petróleo cai mais de 12% na semana após cessar-fogo entre EUA e Irã
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Na terça-feira, antes de o presidente Donald Trump dizer que Estados Unidos e Irã haviam chegado a um acordo de cessar-fogo, um dos preços mais citados, o do Brent (referência europeia), estava em cerca de US$ 109 por barril. Bem abaixo das máximas de 2022, quando o barril chegou a superar brevemente os US$ 130, sem ajuste pela inflação.
Mas, no mercado em que as empresas de energia compram e vendem petróleo líquido transportado em navios, o preço estava em quase US$ 145 por barril — um recorde e mais que o dobro do nível anterior ao ataque de Estados Unidos e Israel ao Irã em 28 de fevereiro, segundo a Argus Media, que acompanha preços de commodities.
Como a guerra no Irã afetou o mercado
| Ativo | Preço 27/02 | Preço 10/04 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Petróleo Brent (US$) | 72,48 | 96,57 | +44,09% |
| Petróleo WTI (US$) | 67,02 | 95,20 | +31,35% |
| Ibovespa (pontos) | 188.787 | 197.324 | +4,52% |
| PETR4 (R$) | 39,33 | 49,03 | +24,66% |
| S&P 500 (pontos) | 6.878,88 | 6.816,89 | -0,90% |
A razão para a diferença entre os dois preços é que o primeiro, o mais citado, é o preço futuro. Trata-se de um instrumento financeiro que reflete quanto os traders acham que o petróleo valerá em um ou dois meses e, em termos simples, não é muito diferente de um preço de ação. O segundo é o chamado preço à vista (spot), atrelado à entrega de muitas toneladas de petróleo bruto, que uma refinaria pode transformar em gasolina, diesel e querosene de aviação.
Os preços à vista e futuro raramente são exatamente iguais, mas a distância entre eles aumentou de forma incomum nas últimas semanas, a ponto de executivos e analistas do setor dizerem que as cotações futuras já não refletem, com precisão, a dimensão do choque de oferta que o mundo está vivendo.
“O mercado futuro não está representando, de forma alguma, a realidade do petróleo no terreno e no mar”, disse Vikas Dwivedi, estrategista global de energia do Macquarie Group, empresa australiana de serviços financeiros. “Ele está bastante quebrado.”
Mike Wirth, CEO da Chevron, a segunda maior petroleira dos EUA, expressou preocupações semelhantes no mês passado em uma conferência de energia em Houston, a CERAWeek, organizada pela S&P Global.
“Os preços físicos e os volumes físicos indicariam um mercado mais apertado do que o que a curva futura sugere”, disse Wirth, referindo-se ao mercado de futuros.
Preços à vista e futuros costumam se distanciar em momentos de grandes rupturas de mercado, como na pandemia de COVID-19 e na invasão da Ucrânia pela Rússia. Crises internacionais ampliam a diferença entre o valor do petróleo hoje e o valor em dois meses.
Mas o descompasso entre os dois preços nos últimos dias supera o de qualquer outro período dos últimos 20 anos, mostram dados da Argus. Mesmo analistas de energia têm dificuldade para explicar por que essa diferença está tão grande desta vez.
“É um mistério”, disse Dwivedi.
O que está claro é que a guerra com o Irã bagunçou profundamente o mercado de petróleo. Estimativas indicam que empresas desligaram 10% ou mais da oferta mundial desde o início do conflito, porque não conseguem passar com segurança seus navios-tanque pelo Estreito de Ormuz, a estreita passagem entre o Irã e a Península Arábica.
Os preços dispararam em todo o mundo. E alguns países da Ásia — altamente dependentes de combustíveis vindos do Golfo Pérsico — chegaram a enfrentar escassez. Postos de gasolina no Vietnã e na Tailândia mandaram clientes embora alegando não ter combustível; o Sri Lanka decretou feriado todas as quartas-feiras; e muitos outros países determinaram ou incentivaram o trabalho remoto.
O cessar-fogo de duas semanas com o Irã fez os preços do petróleo despencarem nas horas seguintes ao anúncio do acordo por Trump, mas, na prática, quase nada mudou. Empresas de navegação continuam receosas de enviar navios pelo estreito. Isso significa que uma fatia relevante do petróleo mundial segue presa no Golfo Pérsico.
“O preço físico mostra exatamente o quão apertado está tudo agora”, disse Jason Gabelman, analista de energia do banco de investimento TD Cowen.
c.2026 The New York Times Company
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