
Donald Trump já aventou a possibilidade de enviar tropas dos EUA contra cartéis de drogas na América Latina. Ele encontrou um parceiro disposto no presidente do Equador, Daniel Noboa, de 38 anos, formado nos Estados Unidos, que chegou ao poder com uma plataforma baseada em lei e ordem.
Filho de um magnata do setor de bananas, Noboa aposta em uma aliança estratégica mais estreita com Washington após décadas de desconfiança entre os dois países. O cálculo é simples: enquanto a China oferece investimentos e empréstimos, os EUA podem entregar o que o Equador mais precisa neste momento — controle sobre a escalada da violência ligada às drogas, que transformou o país de um dos mais seguros da América Latina em um dos mais violentos da região.
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Em entrevista em seu apartamento com vista para a orla de Guayaquil — epicentro da crise de segurança equatoriana — Noboa descreveu como seu governo tenta retomar o controle. Cerca de 50 agentes de segurança, entre militares e policiais, faziam a guarda do prédio durante a conversa.
“Nosso parceiro número 1 em termos de segurança e defesa são os EUA”, afirmou Noboa, acrescentando que estaria aberto à presença de tropas norte-americanas operando no Equador sob comando das Forças Armadas locais. “Os EUA entendem que a maior parte das drogas passa pela América Latina até chegar aos Estados, então é melhor atacar o problema na origem do que esperar até ele cruzar a fronteira.”
Desde que assumiu o cargo, em 2023, Noboa declarou a existência de um conflito armado interno, classificou mais de 20 grupos criminosos como organizações terroristas, mobilizou o Exército em todo o país e impôs toques de recolher em áreas críticas. Operações conjuntas com os militares dos EUA, com fornecimento de tecnologia e inteligência, começaram no mês passado.
Noboa tem uma visão bem diferente da de muitos líderes da região, que continuam céticos em relação ao envolvimento militar dos Estados Unidos. Ele diz que a parceria não só o ajuda a combater os cartéis, como também faz parte de uma estratégia econômica mais ampla para reduzir o que descreve como a dependência excessiva do Equador em relação à China.
A relação entre Quito e Pequim foi construída pelos antecessores socialistas de Noboa ao longo de mais de uma década, por meio de acordos de “empréstimo em troca de petróleo” e grandes projetos de infraestrutura — alguns dos quais acabaram em longas disputas arbitrais com empresas chinesas.
“Acho que é simplesmente melhor depender menos de um único país”, afirmou. “Quando você depende demais de uma só nação e tem um problema, um litígio, é quase impossível ganhar, porque você já está amarrado.”
Assim como Noboa, “os equatorianos veem a relação com a China de maneira muito pragmática, enquanto fazer negócios com os EUA é muito mais complicado, geralmente envolvendo processos burocráticos e um apetite limitado para colocar dinheiro na mesa”, disse Beatriz Garcia Nice, analista de América Latina do Stimson Center, sediada em Guayaquil, cidade natal de Noboa.
Resultados mistos
A aliança de Noboa com Trump até agora produziu resultados mistos, tanto na área de segurança quanto na econômica.
No início, os homicídios caíram cerca de 15% em 2024, mas dispararam para um recorde no ano seguinte, à medida que a prisão de grandes líderes de cartéis desencadeou violentas disputas de poder entre grupos de escalão mais baixo. E, embora o investimento estrangeiro direto no Equador no ano passado tenha sido o maior desde antes da pandemia — em parte graças ao aumento do capital norte-americano —, os investimentos chineses ainda responderam por uma fatia maior.
Noboa diz que os investidores estão mais confiantes no Equador graças aos esforços para restaurar a estabilidade macroeconômica, incluindo um programa de US$ 5 bilhões com o Fundo Monetário Internacional (FMI), aumento de impostos e cortes em subsídios aos combustíveis, o que ajudou a reduzir o déficit fiscal e o risco-país.
“Para atrair investimento, previsibilidade é fundamental”, afirmou, apontando para a melhora na liquidez do sistema bancário, a queda nas taxas de juros e o aumento do consumo interno como sinais de um ambiente mais estável.
A economia equatoriana cresceu cerca de 3,7% em 2025, após ter encolhido no ano anterior, e Noboa mira expansão anual acima de 4%, com petróleo, mineração e construção entre os setores que devem liderar o avanço. Ele descartou novas medidas de austeridade de grande porte e, em vez disso, tem promovido incentivos como isenções fiscais para contratação de jovens e investimentos em habitação e segurança.
Para Noboa, o desafio é equilibrar esse impulso econômico com uma campanha de segurança em andamento. A parte mais difícil, diz ele, é “manter o país e a economia funcionando” enquanto reprime os grupos criminosos. Sua abordagem, acrescenta, é “punho de ferro com coração” — combinando força com geração de empregos e oportunidades.
Guerra tarifária
Com uma imagem pública cuidadosamente construída — que inclui compartilhar seus treinos nas redes sociais —, Noboa se posicionou como uma figura moderna e aspiracional em um país cansado de instabilidade política. A mensagem encontrou eco em uma geração mais jovem de eleitores, que o levou à presidência.
Recém-formado em várias universidades de prestígio, Noboa foi eleito para a Assembleia Nacional do Equador em 2021. Seu pai é o homem mais rico do país, que concorreu sem sucesso à presidência em cinco ocasiões.
Noboa chegou ao poder em outubro de 2023, após uma temporada eleitoral marcada pela violência. O candidato à Presidência e cruzado anticorrupção Fernando Villavicencio foi morto a tiros em um evento de campanha dias antes do primeiro turno das eleições antecipadas, em agosto. Poucos meses depois de Noboa tomar posse, homens armados invadiram ao vivo um estúdio de televisão em Guayaquil, em um dos ataques mais ousados da história recente do país.
No cargo, as decisões de Noboa têm sido, muitas vezes, mais pragmáticas do que ideológicas, em alguns momentos ecoando a postura confrontadora de Trump na região.
Ele tem usado tarifas e um discurso duro para pressionar a Colômbia, argumentando que os acordos de energia que garantem cerca de 10% da eletricidade consumida no Equador “não são necessariamente justos” e que Bogotá “não quis fazer nenhum acordo” em cooperação de segurança ou energia.
As relações com o México também permanecem tensas após a operação policial de 2024 na embaixada mexicana em Quito.
“Eles estão mais focados em ideologia do que eu”, disse Noboa sobre alguns de seus pares na região. “Eu estou focado em segurança.”
Noboa elogia o novo foco de Trump na América Latina — “pela primeira vez em muito tempo, os EUA estão vendo o Equador como um parceiro em potencial”, afirmou —, mas reconhece que alinhar-se de perto ao presidente norte-americano pode ser desconfortável em certos momentos. A retórica de Trump, incluindo ameaças de eliminar “uma civilização inteira” no Oriente Médio, “é pesada”, disse Noboa.
“O que eu considero é a disposição deste governo dos EUA de finalmente ir atrás dos narco-terroristas na nossa região”, afirmou. “Talvez a forma não seja a ideal, mas a intenção verdadeira e o plano, na minha visão, são bons.”
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