
A inflação de fevereiro, de 0,70%, veio acima da projeção do mercado, com aceleração em serviços e na média dos núcleos. No acumulado de 12 meses, no entanto, houve desaceleração para 3,8% (ante 4,4%). Na avaliação dos economistas, os dados indicam uma persistente pressão nos preços de serviços, reflexo do mercado de trabalho ainda aquecido.
Além disso, eles colocam um ponto de atenção sobre o conflito no Oriente Médio. Como os ataques dos Estados Unidos e Israel contra o Irã são recentes, o impacto da alta na cotação do petróleo ainda não refletiu nos preços domésticos. O cenário reserva uma certa cautela para o Banco Central na avaliação da política de juros, que terá o próximo ciclo definido na reunião da semana que vem, em 17 e 18 de março.
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Os números do IPCA de fevereiro
A principal contribuição altista para a inflação de fevereiro veio dos reajustes anuais em educação e da alta expressiva das passagens aéreas.
Depois de registrar inflação de 0,02% em janeiro, o grupo de Educação variou 5,21% em fevereiro. Dentro deste grupo, Ensino Médio teve variação de 8,19%, Ensino Fundamental de 8,11%, Pré-Escola teve 7,48% e creche, 6,28%.
Transportes teve inflação de 0,74% (ante 0,6% em janeiro). Dentro deste grupo, passagens aéreas avançaram 11,4% somente em fevereiro, acumulando alta de 24,61% em 12 meses.
| IPCA | ||
| Janeiro (%) | Fevereiro (%) | |
| Índice Geral | 0,33 | 0,70 |
| Alimentação e bebidas | 0,23 | 0,26 |
| Habitação | -0,11 | 0,30 |
| Artigos de residência | 0,20 | 0,13 |
| Vestuário | -0,25 | 0,16 |
| Transportes | 0,60 | 0,74 |
| Saúde e cuidados pessoais | 0,70 | 0,59 |
| Despesas pessoais | 0,41 | 0,33 |
| Educação | 0,02 | 5,21 |
| Comunicação | 0,82 | 0,15 |
Análise: IPCA ainda resistente
Segundo Pablo Spyer, economista e conselheiro da Ancord, os dados mostram que a inflação mais ligada à atividade doméstica ainda apresenta resistência.
Já Luciana Rabelo, economista do Itaú, destaca que houve um desempenho superior ao esperado nos setores de vestuário e cuidados pessoais, que tiveram reajuste de preços acima da previsão.
Na média móvel de três meses, ela destaca que a inflação subjacente de serviços subiu para 5,4% (de 4,7%), enquanto a inflação subjacente do setor industrial permaneceu estável em 3,4%. Nesse mesmo indicador, a média das medidas de inflação subjacente subiu para 4,1% (de 4,0%), o que corrobora com a leitura de um quadro pior do que o esperado.
O Departamento de Pesquisas Econômicas (DPEc) do Banco Daycoval destacou, em seu relatório, a surpresa altista nos preços dos alimentos, com alta em feijão, ovos de galinha, aves e batata-inglesa.
Leonardo Costa, economista do ASA, destaca a alta em Habitação (+0,30%), que voltou ao terreno positivo após queda no mês anterior, com pressão de tarifas de água e esgoto e leve alta da energia elétrica residencial. Em saúde e cuidados pessoais (+0,59%), destacaram-se os artigos de higiene pessoal e os planos de saúde.
Costa também chama a atenção para o núcleo de bens, onde a recente valorização cambial não aparece nos preços, que seguem voláteis e mais pressionados do que o esperado dado o contexto de juros elevados e desaceleração gradual da atividade doméstica.
Piora não impacta quadro de desinflação
Apesar da análise dos dados indicar uma piora na desaceleração da inflação, Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, avalia que o quadro geral ainda é de desinflação.
Para ele, esta análise é sustentada pela valorização recente do câmbio, maior estabilidade das commodities nos meses anteriores ao conflito, recuo recente dos preços dos alimentos e desaceleração dos custos de produção, tanto no setor agrícola quanto no industrial.
Marianna Costa, economista-chefe da corretora Mirae Asset Brasil, também pondera que, apesar da surpresa nos dados de fevereiro, a inflação em 12 meses segue em trajetória de desaceleração.
“Ainda que a dinâmica de serviços permaneça resiliente, os dados indicam que o processo de desinflação continua gradual e dependente da evolução desses componentes mais inerciais nos próximos meses”, diz.
Mas Costa, do Asa, pondera que, no curto prazo, o balanço de riscos para a inflação parece menos benigno do que há algumas semanas. “Os alimentos voltaram a rodar mais fortes na ponta, com alta expressiva de itens in natura, movimento possivelmente sazonal e que pode ter sido agravado pelo aumento do volume de chuvas no país”, pondera.
Ponto de atenção: Conflito no Irã e petróleo
Um ponto de atenção na leitura dos dados é que a alta ainda não reflete o impacto do conflito no Oriente Médio sobre os preços.
Costa, do Asa, reforça que o risco inflacionário cresce na medida em que o conflito avança. Ele cita que a defasagem entre os preços dos combustíveis praticados no Brasil e no exterior ainda está muito elevada, o que aumenta a pressão por reajustes, mesmo sem a Petrobras seguir a política de preços internacionais.
Para Sung, da Suno Research, o principal risco no horizonte é a duração do conflito. “A prolongação do conflito pode restringir ainda mais a oferta global de petróleo e seus derivados, o que tende a retardar o processo de desinflação observado nos últimos meses”, avalia.
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IPCA ao fim de 2026
Enquanto a pressão inflacionária do conflito no Oriente Médio não se concretiza, a Suno Research, avalia que a inflação deve encerrar o ano em torno de 4% devido aos fatores que sustentam a avaliação de um quadro desinflacionário, aliado à moderação da atividade econômica.
Para o Itaú, a projeção de inflação é de 3,8%, com balanço de risco positivo devido aos preços do petróleo. O Banco Daycoval segue a mesma projeção.
O ASA afirmou que vai rever para cima a projeção da inflação, que estava em 3,6%.
Impacto do IPCA no corte de juros
Os dados do desempenho da inflação levantaram o debate sobre a postura do Comitê de Política Monetária (Copom), que irá decidir os juros na próxima reunião, que será realizada em 17 e 18 de março.
O economista Gustavo Sung, da Suno Research, avalia que há espaço para corte, mas a postura do Copom deverá ser mais cautelosa. A projeção da Suno é de um corte de 0,25 ponto percentual devido ao aumento das incertezas, embora haja espaço para corte de 0,50 p.p frente ao nível restritivo dos juros atuais, em 15%. A projeção da Suno é de Selic em 12,5% ao fim de 2026.
Segundo Julio Barros, economista do Daycoval, a expectativa é de início de corte de juros em 0,25 p.p, com viés de manutenção devido ao conflito no Oriente Médio.
Para Spycer, conselheiro da Ancord, também vê um Copom mais cauteloso, que deverá adotar corte de 0,25 ponto percentual. “Assim, embora o início do ciclo de queda da Taxa Selic siga esperado pelo mercado, cresce a percepção de que o Banco Central do Brasil deve optar por um ritmo mais gradual de flexibilização monetária”, avalia.
Para Gabriel Pestana, economista sênior da Genial Investimentos, a composição do índice deve chamar a atenção da autoridade monetária, uma vez que o avanço dos núcleos e a resiliência de serviços reforçam um cenário de maior cautela. Na visão da Genial, o número fortalece as apostas em uma redução do ritmo de flexibilização para um corte de 0,25 p.p., em detrimento de um corte de 0,50 p.p.
Marianna Costa, da Mirae Asset Brasil, também avalia que o quadro geral de pressão inflacionária e tensão no Oriente Médio eleva a probabilidade de que o Copom adote uma abordagem mais gradual, iniciando o ciclo com redução em 0,25 p.p. Apesar disso, o cenário base da corretora Mirae Asset permanece sendo de início de corte em 50 p.p., com o Copom reduzindo o ciclo total do afrouxamento na medida em que os impactos do conflito no Oriente Médio se mostrarem persistentes.
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