A promessa de alívio no bolso por meio da reforma do Imposto de Renda ainda não se traduziu em melhora na percepção econômica do eleitorado. Segundo a pesquisa divulgada pela Quaest, nesta quarta-feira (11), 48% dos brasileiros indicam que não perceberam efeitos concretos da isenção do imposto para quem recebe até R$ 5 mil reais mensais, o que ajuda a explicar a deterioração da avaliação do governo em diferentes levantamentos divulgados na última semana.
O descompasso entre políticas anunciadas e percepção real da população foi um dos pontos discutidos no episódio desta sexta-feira (13) do Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney. Segundo análise apresentada no programa, a dificuldade está no fato de que muitos eleitores não identificam diretamente o ganho financeiro no dia a dia.
“É um benefício virtual. É muito difícil para o eleitor perceber um ganho que não aparece diretamente na conta”, afirmou o cientista político Renato Dolci em entrevista ao programa.
A avaliação é que, mesmo com a expectativa de aumento de renda disponível, o efeito acaba diluído em um cenário de pressão sobre o custo de vida. Na prática, o eleitor tende a avaliar a economia a partir da experiência cotidiana — especialmente dos preços de produtos básicos.
Percepção pesa mais que política pública
Esse descompasso se tornou um dos desafios centrais da estratégia política do governo neste momento do ciclo eleitoral. Mesmo quando indicadores macroeconômicos apresentam melhora, a percepção popular costuma responder com mais rapidez ao custo de vida e às notícias negativas.
O analista de política da XP, João Paulo Machado, lembrou que o início do ano concentra despesas relevantes para as famílias, como impostos e gastos escolares, o que também pode reduzir a sensação de melhora financeira. Ainda assim, a avaliação predominante no meio político é que parte do eleitorado não entende claramente o mecanismo da política tributária.
“De alguma forma, mesmo que esse efeito poderia ser sentido, de novo, é começo de ano, você tem mais custo, tem aumento de carga tributária, que é outro ponto que apesar do governo falar que faz isenção de imposto de renda, há outras cargas tributárias relevantes no bolso do cidadão, como, por exemplo, IPTU, que ele sente logo no começo, agora em fevereiro já vem a primeira alíquota. Então, é difícil ele sentir esse efeito”, completou Dolci.
Essa dificuldade de percepção tende a ser maior entre os eleitores de renda mais baixa, justamente aqueles que seriam beneficiados pela ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda.
Para o cientista político Renato Dolci, também há uma dificuldade do governo federal de comunicação das iniciativas.
“Quando a gente olha para as falas do presidente Lula, ele tem se deslocado muito desse debate, ele tem falado de fim das bets, ele tem falado de assuntos que não são esses assuntos com característica tão clara de eleição, de aprovação, me parece um pouco fora desse movimento”, afirmou.
Narrativa política em disputa
A interpretação sobre o efeito da medida divide governo e oposição. Integrantes do governo argumentam que o impacto da reforma tende a aparecer ao longo do ano, à medida que o ciclo econômico avance e as famílias reorganizem o orçamento.
“Na avaliação do governo, esses três primeiros meses, ainda não chegou ali no bolso do cidadão essa percepção de que ele está recebendo esse ganho com a reforma no imposto de renda. Por outro lado, a oposição tende a avaliar de que, de fato, por esse benefício ele não pingar na conta, ele é ao contrário, você deixa de pagar, então obviamente você está ganhando mais, mas ele não está pingando na sua conta externamente. Então, de maneira geral, a oposição tem batido na tecla de que não vai ter, de fato, um pacto no eleitorado que seja fundamental para abrir uma margem nessa eleição”, concluiu Machado.
A leitura predominante no momento é que a percepção econômica segue sendo um fator determinante para o humor do eleitor — e pode influenciar diretamente o desempenho do governo nas pesquisas eleitorais ao longo de 2026.
O Mapa de Risco, novo programa de política do InfoMoney, vai ao ar todas as sextas-feiras, a partir das 5h da manhã, no YouTube e no seu tocador de podcast preferido.
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