
O desgaste na relação entre Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita está no centro da decisão bombástica de Abu Dhabi de deixar a Opep.
A rivalidade vinha se acumulando há anos, mas foi o efeito colateral da guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã que abriu espaço para o anúncio desta terça-feira (28), segundo fontes ouvidas pela Bloomberg. Na prática, foi como se o “irmão menor” tivesse decidido que não quer mais viver à sombra do “irmão mais velho”.
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E a coisa não para na Opep. Os Emirados também estão repensando sua participação em dois organismos regionais onde Riad tem bastante influência, contam essas mesmas fontes, sob condição de anonimato.
Embora nada esteja batido o martelo, Abu Dhabi estuda “congelar” a sua cadeira na Liga Árabe, com sede no Cairo, e tomar atitude parecida em relação à Organização para Cooperação Islâmica, baseada em Jeddah.
No radar também está o futuro dos Emirados dentro do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), bloco de seis países do Golfo. Nesta quarta-feira (29), Abu Dhabi fez questão de dizer que continua comprometido com o grupo. Mas o assessor diplomático do presidente dos Emirados, Anwar Gargash, já havia dito no começo da semana que o CCG vive “o momento mais fraco da história”.
Um funcionário emiradense afirmou que o país está revisando o quanto faz sentido seguir ativo em vários organismos multilaterais, mas que, por enquanto, não está discutindo saídas formais.
É verdade que nenhuma dessas três organizações tem “poder duro” — não mandam tropas, não impõem sanções sozinhas. Mas qualquer rompimento deixaria bem visível o tamanho da frustração dos Emirados com outros países árabes, especialmente com a vizinha Arábia Saudita, diante do que veem como pouca solidariedade num cenário de desafios militares e econômicos desde o início da guerra de Israel contra o Hamas, em 2023.
Oficialmente, a saída da Opep foi vendida como uma decisão econômica, olhando a frente para as necessidades de produção do país. Os Emirados conseguem produzir bem mais do que permite a cota atual do cartel e não queriam mais ter de “pedir benção” aos sauditas para usar essa capacidade adicional, segundo uma fonte a par das conversas em Abu Dhabi. Além disso, com o Estreito de Ormuz fechado, a oferta global está tão apertada que ninguém no governo acredita em queda relevante dos preços no curto prazo.
Outro ponto: em Abu Dhabi, a leitura é que a demanda global por petróleo deve começar a cair por causa da transição energética antes do que Riad imagina. A lógica é simples — se o fim do ciclo está mais perto, melhor monetizar as reservas o quanto antes.
Ao mesmo tempo, a decisão foi o recado mais claro até agora de que os Emirados não querem mais esconder suas ambições, nem se limitar ao guarda-chuva político e de segurança da Arábia Saudita — que é a maior economia árabe e se enxerga como liderança natural do mundo muçulmano.
“Estamos construindo um modelo econômico diferente, e isso exige um novo alinhamento político e uma reconfiguração”, resume Nadim Koteich, consultor que assessora diversos órgãos do governo emirático.
O movimento do xeque Mohammed bin Zayed (MBZ) é o ponto alto de uma tensão que se arrasta há anos com o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman (MBS).
Os dois países — aliados dos EUA e donos, cada um, de mais de US$ 1 trilhão em ativos de fundos soberanos — vêm se estranhando em crises da Líbia ao Iêmen e ao Sudão, muitas vezes apoiando lados opostos. Em linhas gerais, Riad acusa Abu Dhabi de incentivar grupos separatistas, enquanto os Emirados olham com desconfiança para o apoio saudita a grupos islamistas.
No campo econômico, a competição também está explícita: os sauditas querem transformar Riad em um hub financeiro capaz de competir com Dubai.
Blocos em formação
Apesar do clima pesado, Emirados e Arábia Saudita continuam alinhados em vários temas e devem manter o fluxo de comércio — hoje, dezenas de bilhões de dólares em mercadorias cruzam anualmente a fronteira entre os dois. Um funcionário emirático disse que uma reunião extraordinária do CCG em Jeddah, realizada perto da data do anúncio da saída da Opep — e que contou com o chanceler dos Emirados —, foi um movimento “na direção certa”, sem dar mais detalhes.
A saída dos Emirados da Opep tende a consolidar dois blocos regionais que já vinham se desenhando. De um lado, um eixo liderado pela Arábia Saudita, com Egito, Paquistão e Turquia. De outro, uma configuração que aproxima Emirados, Israel e Índia.
Em Nova Délhi, autoridades interpretaram o movimento como um gesto político de rebeldia, mais do que uma medida puramente econômica, com potencial para enfraquecer a “frente árabe”.
“Os Emirados não querem seguir uma ordem liderada pela Arábia Saudita nem pela Turquia”, diz Dania Thafer, diretora-executiva do Gulf International Forum, think tank com sede em Washington. “O país se vê como uma potência intermediária, um contrapeso aos demais.”
Segundo fontes, os Emirados começaram a desenhar seriamente sua saída da Opep por volta de novembro do ano passado. Mas a situação azedou de vez com o descompasso em relação à resposta aos ataques de mísseis do Irã, no contexto da guerra com EUA e Israel.
Abu Dhabi chegou a considerar participar diretamente de ataques contra o Irã e defendeu, na ONU, o uso da força para reabrir o Estreito de Ormuz — rota crítica para exportação de petróleo e gás. Os sauditas não embarcaram nessa: preferiram insistir em negociações diplomáticas e conversas discretas de bastidor para encerrar o conflito.
Fator Israel
A aproximação dos Emirados com Israel em cooperação militar e de inteligência também pesa na balança, segundo interlocutores. Muitos países árabes ainda veem Israel como um ator expansionista e desestabilizador na região, e o responsabilizam por pressionar Washington a partir para a guerra com o Irã.
“Há uma rachadura no Golfo”, diz Hasan Alhasan, pesquisador sênior de política para o Oriente Médio no International Institute for Strategic Studies. “Os Emirados não contam com apoio pleno dos demais quando o assunto é enfrentar o Irã.”
Mesmo assim, os Emirados não entraram diretamente na guerra — hoje sob um cessar-fogo frágil —, apesar dos danos causados pelos ataques iranianos à infraestrutura de energia de Abu Dhabi e à imagem do país como porto seguro para turistas e investidores. O Irã disparou mais mísseis e drones contra os Emirados do que contra qualquer outro Estado do Golfo, o que só elevou a irritação por lá.
Em conversa recente com autoridades europeias, MBZ expressou frustração com a resposta coletiva dos vizinhos aos ataques de Teerã, segundo fontes com conhecimento da reunião. Ele apontou as divisões internas do CCG e classificou o bloco como disfuncional. Na mesma conversa, disse que pretende reforçar a cooperação com EUA e Israel.
Hora certa
Para Gargash, o assessor de MBZ, o fracasso da estratégia de “contenção” do Irã adotada pelos países do Golfo, antes da ofensiva militar de EUA e Israel, mostrou que instituições como o CCG “não estão à altura da tarefa”.
O grupo, que reúne Emirados, Arábia Saudita, Omã, Catar, Bahrein e Kuwait, “vive o momento mais fraco da história, considerando o tipo de ataque e a ameaça que representa para todos”, afirmou Gargash, um dia antes do anúncio da saída da Opep.
Do lado econômico, a decisão também dialoga com o fato de os Emirados terem diversificado a economia além do petróleo e operarem hoje com superávits fiscais. Isso dá fôlego para atravessar períodos de preço mais baixo. Já o governo saudita fechou 2023 no vermelho e deve seguir com déficit por alguns anos — a não ser que o fechamento prolongado de Ormuz empurre preços do petróleo ainda mais para cima.
Na visão de Koteich, a conta econômica para sair da Opep “fechava”, e faltava só o “timing político”.
Esse timing veio com a guerra contra o Irã e com o impacto do fechamento de Ormuz sobre a oferta global de energia, que levou o petróleo de novo para patamares acima de US$ 100 o barril.
“Não vai ser algo que mude radicalmente o mercado — a oferta já está apertada”, afirmou o ministro de Energia dos Emirados, Suhail Al Mazrouei, em entrevista sobre a saída da Opep.
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